Diariamente, milhares de toneladas de resíduos sólidos são destinadas a aterros sanitários e, infelizmente, aos inúmeros lixões ainda existentes no Brasil. O que pouca gente vê é que, junto com o lixo, forma-se um líquido escuro e altamente poluente: o chorume.
Quando não é tratado adequadamente, o chorume deixa de ser apenas um problema ambiental e passa a representar um risco à saúde pública. Entender como o chorume se forma, quais são seus impactos e quais soluções já existem é essencial para discutir o futuro da gestão de resíduos no país.
Um problema que afeta meio ambiente e saúde
O "lixiviado de aterro de resíduos sólidos", popularmente denominado chorume, é o líquido gerado pela decomposição das substâncias dos resíduos dispostos em aterros e lixões. Caracterizado pela cor escura e pelo mau cheiro, ele contém substâncias tóxicas capazes de contaminar o solo e os recursos hídricos.
Nos aterros sanitários, há sistemas adequados de impermeabilização na base do aterro, o lixo depositado é coberto com solo, e o líquido que se forma é drenado, acumulado em lagoas de chorume, e então deve ser encaminhado para tratamento. Já nos lixões, o chorume atravessa os resíduos e infiltra-se no solo, podendo alcançar o lençol freático. Esse processo pode contaminar tanto o solo quanto as águas subterrâneas.
A quantidade e a composição do chorume são variáveis e complexas, pois os aterros são ambientes dinâmicos. Diversos fatores — como o tipo de resíduo aterrado, as condições climáticas local (pluviometria e temperatura), o formato do aterro e o tipo de cobertura (se mais ou menos permeável à infiltração de água de chuva) — influenciam o volume de chorume gerado e a sua composição físico-química e microbiológica.
Os principais poluentes do chorume incluem compostos orgânicos, como os ácidos húmicos e fúlvicos, além de nitrogênio amoniacal e íons cloreto. Metais pesados, como cádmio, cromo, níquel e chumbo, também podem estar presentes, mas geralmente em baixas concentrações - o que desmistifica a ideia de que eles são os grandes vilões do chorume.
A concentração de metais pesados depende do tipo de resíduo disposto. Em aterros com resíduos sólidos urbanos, sua presença tende a ser limitada. Além disso, no interior do aterro ocorrem diversos processos bioquímicos que favorecem a imobilização desses metais, contribuindo para que suas concentrações no chorume permaneçam relativamente baixas.
No meio ambiente, a contaminação por chorume pode levar à redução drástica de oxigênio em cursos d'água, acarretando a morte de organismos aquáticos e o fenômeno da eutrofização (aumento excessivo de nutrientes como nitrogênio e fósforo na água, que leva à proliferação de algas e cianobactérias em lagos, represas e rios), com potencial liberação de substâncias prejudiciais à saúde humana na água. Pode ocorrer ainda a presença de cloreto e sódio em concentrações elevadas no chorume, o que pode provocar a salinização da água subterrânea ou águas superficiais.
A contaminação de recursos hídricos compromete o abastecimento de água para consumo humano, além dos usos recreacionais.
A exposição ao chorume pode ocorrer de forma indireta ou direta, por ingestão ou contato dermal, com potencial de desencadear doenças, como diarreias e gastroenterites, além de aumentar o risco de desenvolvimento de doenças dos sistemas endócrino e nervoso.
O problema é ainda mais grave porque os locais de deposição de resíduos continuam a gerar chorume por décadas, mesmo após o encerramento de aterros e lixões. Um estudo recente evidenciou que áreas próximas a locais de disposição irregular de resíduos continuam a representar riscos ambientais e à saúde da população mesmo após sua desativação, devido à contaminação por metais como cromo e por microrganismos patogênicos.
Além disso, falhas estruturais e desigualdades territoriais ampliam a vulnerabilidade de populações de menor renda que residem próximas a aterros e lixões. Isso reforça a necessidade de monitoramento ambiental contínuo para o gerenciamento adequado do chorume.
Como o chorume é tratado nos aterros sanitários
Não existe uma tecnologia ou sistema de tratamento aplicável a todos os tipos de chorume. Diversos processos físico-químicos e biológicos podem ser adotados para o seu tratamento.
Entre eles destacam-se a coagulação e precipitação química, o lodo ativado, as lagoas de estabilização e as tecnologias de separação por membranas, como a nanofiltração e a osmose inversa.
Todos os métodos apresentam vantagens e limitações e o ideal é que as estações de tratamento sejam operacionalmente flexíveis: ou seja, que possam se ajustar às variações no volume gerado e na composição do chorume ao longo da vida útil do aterro sanitário.
No Brasil, o tratamento biológico é o mais comum, devido ao seu custo mais acessível. No entanto, o uso exclusivo desse tipo de tratamento pode ser insuficiente para atender aos padrões estabelecidos pela legislação ambiental brasileira. Nesse contexto, a combinação de etapas de tratamento biológicas e físico-químicas é fundamental.
A partir da última década, os tratamentos avançados baseados em processos de separação por membranas passaram a ser mais utilizados. Essas tecnologias já são utilizadas em aterros brasileiros localizados em regiões metropolitanas, por serem capazes de atender a padrões de lançamento mais restritivos.
Em aterros sanitários de pequeno porte, geralmente localizados em municípios de áreas rurais, é comum o uso de lagoas de estabilização. Também é frequente o manejo do chorume por meio da recirculação no maciço do aterro, prática que promove a redução de volume por evaporação e aumenta a umidade dos resíduos, favorecendo o processo de estabilização.
Outra alternativa adotada é o envio do chorume para tratamento externo em estações de tratamento de esgoto.
Os principais desafios no contexto brasileiro
No Brasil, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, estabeleceu um arcabouço legal para a gestão e o gerenciamento de resíduos sólidos. Contudo, os avanços têm sido insuficientes, especialmente no que se refere à disposição final ambientalmente adequada.
O país não cumpriu a meta de erradicação de lixões prevista para 2014, tampouco os novos prazos estabelecidos pelo Novo Marco Legal do Saneamento para sua eliminação até 2024.
A Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema) estima que ainda existam cerca de 3 mil lixões ativos no Brasil, o que acentua os impactos ambientais e os riscos à saúde da população.
Observa-se ainda que, mesmo após o encerramento de antigos vazadouros a céu aberto, persistem problemas relacionados ao surgimento de lixões clandestinos nos arredores. Em alguns casos, esses locais passam a ser dominados pelo poder paralelo, com a cobrança de taxas para o despejo irregular de resíduos.
Dificuldades financeiras também limitam a instalação e a operação de tecnologias de tratamento avançado, como biorreatores com membranas e osmose inversa, sobretudo em regiões rurais e em municípios de pequeno porte.
Além disso, é comum a existência de estações de tratamento subdimensionadas. Esses sistemas frequentemente sofrem com sobrecarga hidráulica em períodos chuvosos ou tornam-se incapazes de acompanhar o aumento da geração de chorume decorrente da maior disposição de resíduos ao longo da operação do aterro.
Nessas condições, o chorume pode se acumular em lagoas, aumentando o risco de vazamentos e de descarte inadequado.
Os avanços ainda modestos promovidos pela Política Nacional de Resíduos Sólidos reforçam a necessidade de fortalecimento da gestão integrada de resíduos sólidos. Enfrentar as questões relacionadas aos aterros sanitários e ao tratamento de chorume requer melhorias em toda a cadeia de gerenciamento de resíduos.
A relação entre consumo, geração de lixo e impactos invisíveis, decorrente da geração e do manejo inadequado do chorume, precisa ser enfrentada pelo poder público e pela iniciativa privada, além de ser amplamente debatida com a participação da sociedade.
Ronei de Almeida recebe financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).
Elisabeth Ritter recebe financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ)