Um estudo da Comissão Europeia revelou que mulheres na política enfrentam mais violência online que homens. Analisando postagens no X nas eleições europeias de 2024, pesquisadores constataram que 71% dos ataques mais agressivos miraram candidatas, especialmente de esquerda. Ao contrário dos homens, criticados por suas ações, as mulheres sofrem violência semiótica com insultos sexistas e ataques à sua legitimidade no poder, cenário similar ao do Brasil que impulsiona leis de proteção na UE.
Os espaços online são fóruns para debates políticos acirrados. Ao analisar mais de 3,2 milhões de respostas no X (antigo Twitter) a postagens de 88 candidatos às eleições para o Parlamento Europeu de 2024, nossa equipe do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia descobriu diferenças significativas na forma como mulheres e homens na política são tratados no meio digital.
Aplicando um algoritmo de detecção de toxicidade chamado Perspective API, estudamos tanto o volume quanto os tipos de respostas agressivas recebidas por diferentes candidatos. Consideramos como tóxicas as mensagens rudes, desrespeitosas ou irracionais, que, em geral, fazem o destinatário abandonar uma discussão. A pontuação do algoritmo varia de zero a um. Ela estima a probabilidade de um leitor perceber que um texto contém esse tipo de conteúdo.
Disparidade de gênero nas respostas hostis
Quase 80% dos candidatos estudados, de Portugal, França, Irlanda, Itália e Espanha, receberam respostas hostis. Mas os números brutos mostraram uma disparidade de gênero. As postulantes de grupos de esquerda atraíram um volume maior de respostas ofensivas. Esse padrão reflete as conclusões de estudos sobre eleições feitos no Brasil, sugerindo que gênero e ideologia política se intercruzam de maneiras que aumentam o abuso. Em números absolutos, as mulheres concorrentes receberam mais respostas agressivas do que os seus colegas, apesar de terem postado menos.
Depois que a ferramenta fez seu trabalho, nossa equipe analisou manualmente o conteúdo das mensagens, identificando as cerca de 2.700 respostas claramente agressivas. Eram as mesmas nas quais o algoritmo registrou maior probabilidade de toxicidade. As conclusões automáticas foram quase idênticas às dos avaliadores humanos.
Desse universo de comentários, 71% foram direcionados a mulheres. Elas foram alvo de injúrias pessoais degradantes, xingamentos sexistas ou sexualmente explícitos e repetidas tentativas de silenciá-las ou de questionar o direito de ocupar um lugar político. Uma em cada quatro recebeu comentários de natureza sexual.
Os políticos do sexo masculino não escaparam aos abusos, mas os desacatos tendiam a centrar-se na presença na vida pública, na conduta profissional ou no caráter — como acusações de corrupção, desonestidade ou incompetência. Os alvos eram as ações. Essa distinção é importante. Quando o abuso é baseado na identidade em vez de em políticas, transmite uma mensagem fundamentalmente diferente: "Não discordo de você", mas "você não pertence a este lugar". Isso reflete o que os estudiosos chamam de "violência semiótica" — o dano causado por meio da linguagem e de símbolos que visa deslegitimar as mulheres como agentes políticas.
Elementos abusivos agrupados
Também foram medidos o número e a intensidade de elementos abusivos agrupados em uma única resposta, a exemplo de um insulto sexista combinado com uma ameaça sexual, ou uma referência a doença mental junto a uma exigência para que ela abandonasse a política.
Descobrimos que 62% das respostas tóxicas para candidatas continham dois ou mais desses elementos. Em contrapartida, 52% das ofensas enviadas aos homens continham apenas um.
O estudo soma-se a um crescente conjunto de evidências de que a hostilidade online contra mulheres na política não se limita a um único país, plataforma ou cultura. Acadêmicos têm relacionado a agressividade online à redução das ambições de reeleição entre elas, à autocensura e ao afastamento total dos espaços digitais.
A União Europeia começou a tomar medidas para combater isso. Uma nova diretiva sobre violência contra as mulheres criminaliza o assédio e a perseguição cibernética em todos os países da UE. A Lei dos Serviços Digitais, que entrou em vigor em 2024, também exige que as grandes plataformas identifiquem e mitiguem os riscos para os processos democráticos, incluindo os danos baseados no gênero.
Em suma: as mulheres na política enfrentam um fenômeno diferente, que opera por meio da depreciação pessoal, da sexualização e do apagamento sistemático do seu direito de estarem ali. Compreender essa diferença é o primeiro passo para combatê-la.
Arianna Sala não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.