Na terça-feira (18), Israel afirmou que a Turquia representa uma "ameaça" por supostamente se preparar para destacar militares para a base, localizada na província de Idleb e atualmente em processo de reconstrução. Embora o governo israelense não tenha reivindicado explicitamente o ataque, os Estados Unidos atribuíram a ação ao seu aliado e a condenaram.
O episódio representa uma rara demonstração de divergência entre Israel e Washington. O governo americano tem buscado apoiar as novas autoridades sírias, lideradas por um ex-jihadista aliado de Ancara.
"Israel advertiu repetidamente a Síria de que tal mobilização constituiria uma ameaça à sua segurança. A Síria optou por ignorar esses alertas", declarou o gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
Ancara, no entanto, negou qualquer intenção de enviar tropas ao território sírio.
"As alegações infundadas apresentadas pelo gabinete do primeiro-ministro israelense visam justificar os ataques aéreos ilegais de Israel, que atentam contra a soberania e a integridade territorial da Síria", afirmou o governo turco em comunicado divulgado pela agência estatal Anadolu.
Damasco e Washington criticam ataque
A Turquia foi o primeiro país de maioria muçulmana a reconhecer Israel, mas as relações entre os dois países se deterioraram durante o governo do presidente Recep Tayyip Erdogan. Representante da corrente do islamismo político, Erdogan tem criticado duramente Israel, especialmente por causa da ofensiva militar em Gaza.
O governo sírio condenou "nos termos mais veementes" o que classificou como uma "agressão injustificada" por parte de seu vizinho.
Já o enviado especial do presidente americano para a Síria, Tom Barrack, afirmou que os Estados Unidos estão "profundamente preocupados" com "os ataques aéreos israelenses confirmados contra a base aérea de Abu Duhur" e denunciou uma "escalada desnecessária que não contribui em nada para a estabilidade regional".
A televisão estatal síria informou que a base foi atingida por oito ataques aéreos israelenses, que provocaram danos materiais, mas não deixaram vítimas.
Desde a queda do presidente Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, Israel lançou centenas de ataques contra alvos na Síria. O país também deslocou tropas para a zona-tampão monitorada pela ONU, que separava as forças israelenses e sírias nas Colinas de Golã. Israel afirma ter criado ali uma "zona de segurança" e defende sua manutenção.
Delegação militar turca visitou a base
Segundo uma fonte de segurança ouvida pela AFP, o aeroporto de Abu al-Duhur, que sofreu danos severos durante a guerra civil síria, está fora de operação desde 2012 e atualmente é protegido pelas forças do Ministério da Defesa sírio.
De acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), organização sediada no Reino Unido e que conta com uma ampla rede de fontes na Síria, os bombardeios ocorreram poucos dias após a visita de uma delegação militar turca à base, no âmbito dos esforços para restaurar sua capacidade operacional.
A Síria tem condenado repetidamente as operações militares israelenses em seu território e exige a retirada das tropas destacadas por Israel.
Apesar das tensões, autoridades israelenses e o novo governo sírio já realizaram várias rodadas de negociações diretas e concordaram em estabelecer um mecanismo de compartilhamento de informações de inteligência.
Quando assumiram o poder, em dezembro de 2024, as novas autoridades islâmicas de Damasco tomaram o controle da base de Abu al-Duhur, que estava sob domínio das forças de Bashar al-Assad desde o fim de 2018, depois que grupos rebeldes e jihadistas assumiram o controle de grande parte da província de Idleb anos antes.
As novas autoridades sírias aderiram à coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos na luta contra o grupo Estado Islâmico (EI), cujas células remanescentes continuam ativas no país. Nesse contexto, Damasco anunciou na terça-feira a prisão de um importante comandante do Estado Islâmico no norte da Síria.
Com AFP