O governo da Turquia intensificou a repressão contra a comunidade LGBTQIA+ com a operação "Minha família está segura", que resultou na prisão de dezenas de ativistas, buscas em entidades e bloqueios digitais em várias províncias. Sob a justificativa oficial de proteger valores tradicionais e combater supostas ameaças a menores, a ação mira mais de 160 suspeitos. Organizações de direitos humanos denunciam a ofensiva como perseguição estatal para silenciar dissidentes e desmontar a sociedade civil.
A Turquia intensificou, neste fim de semana, uma operação nacional contra organizações LGBTQIA+, com a prisão de 26 pessoas e a realização de buscas em sedes de seis associações. A ação, conduzida em 12 províncias, foi apresentada pelo governo como parte da campanha "Minha família está segura", que pretende reforçar valores familiares e combater o que autoridades classificam como "obscenidade" e "prostituição". A ofensiva ocorre em um contexto de crescente pressão estatal sobre grupos ligados à defesa de direitos e à diversidade sexual.
O gabinete do procurador-geral de Istambul informou que as operações miraram 38 suspeitos e resultaram na apreensão de drogas, equipamentos digitais, bebidas alcoólicas contrabandeadas e uma arma de fogo. A ação, segundo o órgão, integra investigações sobre suposta influência indevida sobre menores em questões de orientação sexual e identidade de gênero. "Há indícios de que crianças e adolescentes estão sendo expostos a conteúdos inadequados", afirmou o gabinete em comunicado.
A associação Kaos GL, sediada em Ancara, contestou os números oficiais e afirmou que ao menos 50 ativistas foram detidos, incluindo mais de dez pessoas levadas sob custódia após buscas policiais em suas residências. "As autoridades bloquearam o acesso a dezenas de sites e contas em redes sociais ligados a organizações LGBTQIA+, militantes e defensores de direitos", declarou a entidade. O grupo tem sido alvo frequente de ações policiais desde que o governo intensificou o discurso contra movimentos LGBTQIA+ nos últimos anos.
A campanha "Minha família está segura" foi lançada enquanto o presidente Recep Tayyip Erdogan promove a chamada "década da família e da população", iniciativa que supostamente busca enfrentar a queda da taxa de natalidade e o envelhecimento demográfico. O governo tem associado a defesa da família a medidas de restrição contra grupos LGBTQIA+, ampliando o uso de operações policiais e bloqueios digitais.
"O verdadeiro nome desta operação não é 'Minha família está segura'; trata-se de discriminação de Estado, de uma política do medo e do desmonte da sociedade civil", afirmou a Associação Turca de Direitos Humanos em publicação no X.
Organizações internacionais de direitos humanos têm acusado o governo turco de adotar políticas cada vez mais restritivas contra a comunidade LGBTQIA+, combinando endurecimento do discurso oficial, proibições de eventos e ações policiais. A repressão ganhou força após manifestações que ocorreram em diferentes cidades do país nos últimos anos, frequentemente dispersadas com violência. A Turquia, que já sediou marchas do orgulho de grande porte, passou a proibir desfiles e reuniões públicas relacionadas ao tema.
O ministro da Justiça, Akin Gurlek, afirmou que as investigações coordenadas pelos procuradores de Istambul, Ancara, Izmir, Aydin e Mersin resultaram em processos contra 162 suspeitos, nove associações e 13 empresas distribuídas por 15 províncias. "Estamos comprometidos em proteger a estrutura familiar e combater práticas ilegais", disse o ministro.
A amplitude da operação indica que o governo pretende manter a pressão sobre organizações civis, ampliando o alcance das investigações.
Escalada repressiva e impacto sobre a sociedade civil
A repressão contra grupos LGBTQIA+ na Turquia tem se intensificado desde meados da década passada, acompanhando mudanças no discurso oficial e na estratégia política do governo. Erdogan e aliados passaram a associar movimentos de diversidade sexual a ameaças à família e à moral pública, criando ambiente favorável a ações policiais e restrições administrativas.
O bloqueio de sites e perfis em redes sociais tornou-se prática recorrente, afetando a comunicação de organizações que atuam na defesa de direitos.
A campanha "Minha família está segura" insere-se nesse contexto mais amplo, combinando operações policiais, investigações digitais e discursos que reforçam a ideia de proteção da família tradicional. Críticos afirmam que a iniciativa busca consolidar apoio entre setores conservadores e ampliar o controle estatal sobre a sociedade civil. "É uma política de intimidação que tenta silenciar vozes dissidentes", declarou um ativista que pediu anonimato por segurança.
A repressão também ocorre em meio a tensões políticas internas e a debates sobre direitos civis no país. A Turquia, que já foi vista como referência regional em políticas de inclusão, tem enfrentado críticas internacionais por retrocessos em direitos humanos, especialmente após a saída da Convenção de Istambul, tratado europeu de combate à violência contra mulheres. A ofensiva contra grupos LGBTQIA+ é interpretada como parte dessa mudança de orientação.
As operações recentes ampliam o alcance da repressão ao envolver múltiplas províncias e diferentes tipos de organizações, incluindo associações culturais e empresas. A justificativa oficial, centrada na proteção de menores e na defesa da família, tem sido contestada por entidades que afirmam que não há evidências que sustentem as acusações. "É uma tentativa de criminalizar identidades e movimentos sociais", afirmou a Associação Turca de Direitos Humanos.
O impacto sobre a sociedade civil é significativo, com ativistas relatando medo, autocensura e dificuldades para manter atividades básicas. O bloqueio de sites e perfis impede a divulgação de informações e campanhas, enquanto as prisões e buscas domiciliares criam ambiente de insegurança. A repressão também afeta organizações que prestam apoio jurídico e psicológico a pessoas LGBTQ+, dificultando o acesso a serviços essenciais.
O papel das autoridades e o futuro da campanha
A coordenação entre diferentes procuradorias indica que o governo pretende manter a campanha por longo período. A participação de órgãos de Istambul, Ancara, Izmir, Aydin e Mersin demonstra que a repressão não se limita a grandes centros urbanos, alcançando regiões diversas do país. O número de suspeitos e entidades investigadas sugere que novas operações podem ocorrer nas próximas semanas.
O discurso oficial, centrado na proteção da família, tem sido reforçado por ministros e parlamentares aliados ao governo. A narrativa busca legitimar ações policiais e ampliar apoio entre setores conservadores, especialmente em regiões onde o governo mantém forte base eleitoral. A campanha também se insere em debates sobre políticas demográficas, com o governo defendendo medidas para aumentar a natalidade e reforçar valores tradicionais.
Críticos afirmam que a repressão compromete direitos fundamentais e enfraquece a sociedade civil, criando ambiente de medo e insegurança. Organizações internacionais têm pedido que a Turquia revise suas políticas e garanta proteção a minorias sexuais. A resposta do governo, porém, indica que a campanha deve continuar, com novas investigações e operações previstas.
A ofensiva contra grupos LGBTQ+ reforça a tendência de endurecimento político no país, marcada por restrições a manifestações, controle sobre meios de comunicação e pressão sobre organizações independentes. A campanha "Minha família está segura" tornou-se símbolo dessa estratégia, combinando discurso moralizante e ações policiais de grande escala.
Com AFP