Trump volta a atacar papa: 'Alguém poderia dizer a Leão XIV que Irã matou milhares de manifestantes?'

Donald Trump voltou a atacar o chefe da Igreja Católica nesta terça-feira (14). Em mensagem publicada na rede social Truth Social, o presidente americano pediu que alguém informe o papa de que o regime iraniano matou, segundo ele, "42 mil manifestantes inocentes em dois meses". Em meio à escalada de tensão entre religião e política internacional, Leão XIV segue em um giro de onze dias por quatro países africanos. Nesta quarta-feira, o papa desembarca em Camarões, segunda etapa da viagem após a Argélia.

15 abr 2026 - 10h50

Por Gina Marques, correspondente da RFI na Itália

Donald Trump voltou a atacar o Papa Leão XIV em uma rede social em reação a críticas do sumo pontífice contra a guerra no Irã.
Donald Trump voltou a atacar o Papa Leão XIV em uma rede social em reação a críticas do sumo pontífice contra a guerra no Irã.
Foto: © l.bfmtv.com/RPCA / RFI

Trump também criticou declarações do pontífice à imprensa italiana. Em entrevista ao jornal Corriere della Sera, o presidente americano afirmou que o papa "não deveria falar sobre a guerra, porque não tem ideia do que está acontecendo no Irã". Além disso, atacou a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, por defender Leão XIV.

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O confronto aberto entre o republicano e o líder religioso ganhou um novo capítulo na segunda-feira, quando Trump publicou uma imagem gerada por inteligência artificial na qual aparece como Jesus Cristo.

A escalada verbal começou no domingo, quando Trump classificou Leão XIV como "fraco" e "um desastre em política externa". O papa respondeu com firmeza, afirmando que não sente medo do governo americano e que continuará a promover a paz.

A reação de Leão XIV às declarações de Donald Trump marca um novo estágio em uma relação que se deteriorou progressivamente nos últimos meses. O pontífice vinha tentando se manter afastado de confrontos pessoais com líderes políticos, mas, diante do ataque frontal do presidente americano, avaliou que o momento exigia uma manifestação clara.

Guerra "voltou a estar na moda"

O aumento da tensão é resultado de uma série de fatores que vêm se acumulando desde o início do ano. Em discurso ao corpo diplomático credenciado junto à Santa Sé, em 9 de janeiro, Leão XIV afirmou que "a guerra voltou a estar na moda" e acrescentou que é "preciso reforçar o multilateralismo".

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Em 22 de janeiro, autoridades do Pentágono se reuniram com o então núncio apostólico nos Estados Unidos, o cardeal Christophe Pierre. Segundo o Vaticano, o encontro fazia parte das atividades diplomáticas habituais e de trocas de opiniões. O porta-voz da Santa Sé, Matteo Bruni, negou relatos de ameaças por parte do governo americano.

O núncio apostólico exerce funções equivalentes às de embaixador da Santa Sé junto a um país ou organização internacional. O fato de um diplomata ser convocado pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, e não pelo Departamento de Estado, é considerado incomum e despertou suspeitas de intimidação.

Ataques ao Irã ampliam a tensão

Nas últimas semanas, Leão XIV intensificou suas críticas à guerra no Irã, adotando um tom cada vez mais direto. Em 31 de março, ao encontrar jornalistas ao deixar o Palácio Apostólico de Castel Gandolfo, nos arredores de Roma, o papa americano citou pela primeira vez publicamente o nome do presidente Donald Trump e pediu uma saída negociada para o conflito.

Em diferentes ocasiões durante as celebrações da Páscoa, Leão XIV afirmou que Deus não apoia conflitos, condenou a violência, pediu o desarmamento e incentivou orações e ações concretas em favor da paz. Ele também criticou ameaças à civilização iraniana e alertou dirigentes políticos contra atitudes agressivas, defendendo o diálogo e a mediação.

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Sem mencionar explicitamente países ou líderes, o pontífice denunciou durante a Vigília pela Paz, em 11 de abril, os "delírios de onipotência" e pediu que os responsáveis políticos se engajem em processos de paz.

O gatilho de Trump

Um fator relevante pode ter desencadeado a reação explosiva do presidente americano. No domingo à noite, três cardeais dos Estados Unidos participaram de uma entrevista em um dos programas jornalísticos de maior audiência do país. Ao assistir à transmissão dedicada à Igreja de Leão XIV, Trump reagiu impulsivamente e publicou uma série de ataques ao papa em sua rede social.

Na entrevista ao programa 60 Minutes, da CBS, os três cardeais defenderam de forma conjunta as posições do pontífice. O cardeal Robert McElroy, arcebispo de Washington, descartou categoricamente que o conflito no Irã possa ser considerado uma "guerra justa" segundo a doutrina católica. O cardeal Blase Cupich, arcebispo de Chicago, criticou vídeos divulgados pela Casa Branca e afirmou que eles "desumanizam as vítimas ao transformar o sofrimento em entretenimento".

Já o cardeal Joseph Tobin, arcebispo de Newark, reiterou sua definição do Serviço de Imigração e Alfândegas dos Estados Unidos como uma "organização sem lei". Ele também destacou que a participação nas missas em espanhol em sua arquidiocese caiu 30 por cento em apenas um ano.

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Trump quer controlar Leão XIV

Para o padre Giulio Albanese, chefe da Comunicação do Vicariato de Roma, Trump ataca o papa porque não consegue controlá-lo. Em entrevista à agência Ansa, Albanese afirmou que as declarações do presidente americano "não apenas ofendem a Igreja, mas revelam uma mentalidade perturbadora, a ideia de que até o papado deve se curvar ao poder político e oferecer agradecimentos".

Segundo ele, "em um mundo onde os líderes parecem cada vez mais reféns do consenso, da propaganda e da conveniência, o papa Leão representa hoje o único verdadeiro estadista que resta no cenário internacional". Para o missionário, o chefe da Igreja Católica é "uma figura capaz de falar com clareza, exigir responsabilidade e defender a paz e a dignidade humana sem transformar tudo em um palco eleitoral".

"É precisamente por isso", enfatizou, "que Trump o ataca, porque não consegue controlá-lo, não consegue domesticá-lo, não consegue usá-lo."

Diplomacia do Vaticano

A diplomacia do Vaticano não costuma responder a ataques diretos. A Santa Sé é observadora permanente nas Nações Unidas desde 1964, com status de não membro. Essa posição permite participação nas sessões da Assembleia Geral, acesso a documentos e a manutenção de uma missão permanente, sem direito a voto.

Durante um encontro com jornalistas no voo de Roma a Argel, primeira etapa da viagem africana, o papa afirmou que não tem "nenhuma intenção de entrar em debate" com Donald Trump.

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Leão XIV tem formação acadêmica em matemática e estudos em filosofia, o que se reflete no tom analítico de suas intervenções. Ele pertence à tradição agostiniana e adotou como lema papal a expressão latina "In Illo uno unum", que significa "no único Cristo somos um", inspirada em Santo Agostinho, nascido na atual Argélia, primeiro destino da viagem apostólica à África.

Reações na Itália

Mais do que o papa, os ataques do presidente americano repercutiram entre seu próprio eleitorado nos Estados Unidos e no governo italiano, um dos principais aliados europeus de Washington. Na segunda-feira (13), a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, afirmou que as declarações de Trump sobre Leão XIV "são inaceitáveis" e ressaltou que é "correto e natural que o papa peça paz e condene todas as formas de guerra".

Na terça-feira (14), Trump criticou Meloni por defender o pontífice. Em entrevista por telefone ao Corriere della Sera, declarou estar "chocado" com a postura "inaceitável" da primeira-ministra. "Pensava que ela tivesse coragem, mas me enganei. Ela é muito diferente do que eu imaginava", afirmou.

As declarações provocaram um movimento inédito no Parlamento italiano. Pela primeira vez nesta legislatura, o principal partido de oposição de centro-esquerda, o Partido Democrático, manifestou solidariedade à premiê Giorgia Meloni, líder de uma coalizão de extrema direita.

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Viagem à África

As críticas de Trump acabaram ofuscando a longa viagem apostólica que o papa realiza de 13 a 23 de abril pelo continente africano. O giro começou pela Argélia e segue nesta quarta-feira aos Camarões, com uma mensagem de paz dirigida a uma região marcada por conflitos há quase uma década.

Angola e Guiné Equatorial serão os últimos países visitados. O pontífice deve se pronunciar em quatro idiomas e abordar temas como paz, meio ambiente, migração, família, juventude e colonialismo. Não estão previstas medidas especiais de segurança.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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