Trump anuncia morte do líder supremo do Irã: como Ali Khamenei controlou o poder no país por quase 4 décadas

A trajetória da pessoa mais poderosa do Irã, o poder que exerce e o papel da família na política do país que foi atacado neste sábado (28/2) pelos EUA e Israel.

28 fev 2026 - 22h21
(atualizado às 22h54)
Presidente Donald Trump anunciou a morte de Khamenei, mas autoridades iranianas ainda não tinham se pronunciado no sábado
Presidente Donald Trump anunciou a morte de Khamenei, mas autoridades iranianas ainda não tinham se pronunciado no sábado
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O presidente Donald Trump disse que o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, morreu nos ataques dos EUA e de Israel deste sábado.

"Khamenei, uma das pessoas mais perversas da história, morreu. Isto não é apenas justiça para o povo do Irã, mas também para todos os grandes americanos e para as pessoas de muitos países de todo o mundo que foram assassinadas ou mutiladas por Khamenei e seu bando de capangas sedentos de sangue", expressou Trump em um comunicado.

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Horas antes, porta-vozes do Irã disseram que tanto o líder supremo iraniano quanto o presidente do país, Masoud Pezeshkian, encontram-se "sãos e salvos" e que as informações em sentido contrário são uma "guerra psicológica" dos inimigos.

Khamenei havia sido um alvo dos ataques de Israel no passado.

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Em janeiro, o líder supremo iraniano enfrentou um dos desafios mais sérios ao seu poder desde a Revolução Islâmica de 1979, quando manifestações em massa sacudiram as ruas do país e desencadearam uma crise de legitimidade do governo.

Nos protestos antigoverno, que alcançaram um nível nunca visto nos 47 anos de história da República Islâmica, morreram milhares de pessoas pela repressão das forças de segurança.

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Trump repetidamente ameaçou uma ação militar em razão da morte dos manifestantes.

Diante dessas ameaças, o governo do Irã declarou que estava aberto a conversas com Washington, mas assegurou que o país estava "preparado para a guerra".

Mas o aiatolá Khamenei acusou os EUA de usar "mercenários traidores" para fomentar os protestos.

Nem Trump, nem o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ocultaram seu desejo de uma mudança de regime no Irã.

Durante décadas, Washington e Israel acusaram o Irã de tentar desenvolver em segredo uma arma nuclear. O Irã negou repetidamente que busque uma bomba e afirma que seu programa só tem fins pacíficos.

Este sábado (28/2), a situação teve uma mudança dramática com os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra instalações militares e governamentais do Irã.

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Trump anunciou na sua rede social a morte de Khamenei e grande parte da liderança iraniana.

"Ele foi incapaz de impedir nossa inteligência e os sistemas de rastreamento altamente sofisticados e, trabalhando em estreita colaboração com Israel, não houve nada que ele, ou os outros líderes que foram mortos junto com ele, pudessem fazer", disse Trump.

"Esta é a maior chance única para o povo iraniano retomar seu País. Estamos ouvindo que muitos dos membros de sua IRGC [Guarda Revolucionária], militares e outras forças de segurança e polícia não querem mais lutar e estão buscando imunidade", continuou.

Mas qual é a história do aiatolá Ali Khamenei e que poder exerceu no país durante quase 40 anos?

A formação religiosa

O aiatolá Ali Khamenei era apenas o segundo líder supremo do país desde a revolução islâmica de 1979. Ocupava o cargo desde 1989. Os jovens iranianos nunca viram o Irã sem ele no poder.

Khamenei, que estava no meio de uma complexa rede de poderes rivais, era capaz de vetar qualquer assunto de política pública e escolher a dedo candidatos para cargos públicos.

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Como chefe de Estado e comandante em chefe do Exército, que inclui o Corpo da Guarda Revolucionária do Irã (CGRI), sua posição o convertia em uma figura com todo tipo de poderes.

O aiatolá Khamenei se encontrava no centro da estrutura de poder no Irã
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Nascido em Mashhad, a segunda maior cidade do Irã, em 1939, Khamenei era o segundo de oito filhos em uma família religiosa. Seu pai era um clérigo de médio escalão da vertente xiita do islã, o grupo religioso dominante no Irã.

Sua educação se centrou principalmente no estudo do Alcorão e obteve o título de clérigo aos 11 anos. Mas, assim como muitos líderes religiosos da época, seu papel sempre foi tanto político quanto espiritual.

Khamenei, um hábil orador, uniu-se aos críticos do xá Reza Pahlavi, o monarca que foi derrubado pela Revolução Islâmica de 1979.

Durante anos, viveu na clandestinidade e esteve detido. Foi preso seis vezes pela polícia secreta do xá, sofrendo torturas e o exílio interno.

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Um ano depois da revolução, o aiatolá Khomeini o nomeou líder da oração das sextas-feiras na capital Teerã.

Khamenei foi eleito presidente em 1981, antes de ser designado em 1989 pelos anciãos religiosos como o sucessor do aiatolá Khomeini, que tinha morrido aos 86 anos.

Khamenei reza em Teerã depois da revolução de 1979
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Tentativa de assassinato

Em junho de 1981, Khamenei sobreviveu a uma tentativa de assassinato.

Um grupo dissidente detonou uma bomba durante uma de suas conferências.

Paradoxalmente, o ataque pode ter salvado sua vida.

Khamenei foi cofundador e posteriormente líder do Partido Republicano Islâmico, que ajudou a liderança posterior à revolução a consolidar o poder. No entanto, ele se encontrava no hospital durante um grande atentado contra a sede do partido.

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Seus pulmões levaram meses para se recuperar do ataque e ele perdeu permanentemente o uso completo de seu braço direito.

Mais tarde, naquele mesmo ano, ele se tornou candidato à presidência do Irã.

O aiatolá Khomeini controlava o conselho que decidia quem podia se candidatar, e Ali Khamenei venceu com 97% dos votos.

O discurso inaugural de Khamenei marcou o tom de sua presidência, condenando o "desvio, o liberalismo e os esquerdistas influenciados pelos Estados Unidos".

Khamenei durante a recuperação da tentativa de assassinato em 1981
Foto: ​​Khamenei.ir / BBC News Brasil

A guerra com o Iraque

O vizinho Iraque invadiu o Irã meses antes das eleições.

O presidente do Iraque, Saddam Hussein, temia que a revolução iraniana enfraquecesse seu regime.

Antes de se tornar presidente, no início da guerra, Khamenei passou meses na linha de frente de batalha.

Durante oito anos de conflito, centenas de milhares morreram pelos dois lados.

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Durante o conflito, o Iraque utilizou armas químicas contra as aldeias fronteiriças do Irã e bombardeou cidades distantes, incluindo Teerã, com mísseis.

A guerra aumentou a desconfiança de Khamenei em relação aos Estados Unidos, que gradualmente fornecia apoio ao Iraque.

Khamenei em Pequim em 1989, antes de se converter em líder supremo
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Líder supremo

Em 1989, o aiatolá Khomeini morreu. A Assembleia de Peritos elegeu Khamenei como seu sucessor.

Este novo líder supremo foi visto por alguns como alguém com um histórico acadêmico religioso fraco.

"Sou uma pessoa com muitas faltas e deficiências, e verdadeiramente um modesto seminarista", admitiu em seu primeiro discurso no cargo.

"No entanto, foi depositada uma responsabilidade sobre meus ombros e utilizarei todas as minhas capacidades e toda a minha fé no Todo-Poderoso para poder assumir esta pesada responsabilidade".

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Por não ter o respeito do alto clero e da popularidade de Khomeini, Khamenei agiu com cautela no início.

Mas tarde desenvolveu redes de figuras leais no poder judiciário, na polícia, nos meios de comunicação, na elite clerical, no Parlamento, na Guarda Revolucionária e no aparato de inteligência.

Karim Sadjadpour, pesquisador do Carnegie Endowment for International Peace em Washington, disse à BBC News que o poder de Khamenei dependia de um "cartel estreitamente unido de clérigos de linha dura e guardas revolucionários enriquecidos após a revolução".

Os meios estatais iranianos o retrataram como alguém que vivia de maneira frugal em Teerã junto a sua esposa, filhos e netos.

Protestos esmagados

Khamenei esmagou a oposição.

Em 1999, os protestos estudantis foram reprimidos.

Uma década depois, uma revolta contra eleições supostamente fraudadas teve manifestantes atingidos com spray de pimenta, espancados e baleados.

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In 2019, o aumento vertiginoso do preço do combustível provocou protestos nas ruas, e as autoridades bloquearam a internet.

A Anistia Internacional afirma que a polícia disparou contra manifestantes, provocando mortes.

As mulheres que faziam campanha contra o uso obrigatório do hijab foram torturadas e mantidas em confinamento solitário.

Uma advogada defensora dos direitos humanos foi condenada a penas que somavam 38 anos de prisão e 148 chicotadas.

Em 2022, um dos maiores desafios chegou após a morte sob custódia policial de Mahsa Amini, uma mulher curda de 22 anos, presa por não usar o hijab.

A agência iraniana de direitos humanos com sede nos Estados Unidos, Human Rights Activists News Agency (HRANA), disse ter recebido os nomes de mais de 400 pessoas mortas nos protestos posteriores.

No final de 2025 e começo deste ano, uma série de protestos provocados pelos problemas econômicos foram reprimidos.

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Khamenei admitiu que milhares de pessoas morreram, mas acusou seus inimigos de organizar a violência.

"Aqueles que estão vinculados a Israel e aos Estados Unidos causaram enormes danos e mataram vários milhares", disse, acrescentando que incitaram o caos.

A HRANA assinalou que a resposta do governo envolveu o uso de "força letal".

Informou que mais de 7 mil pessoas morreram, a maioria delas manifestantes, e que pouco mais de 200 dos mortos eram "membros das forças militares e governamentais".

Manifestantes en Teerã depois das eleições de 2009
Foto: AFP / BBC News Brasil

Mortos da covid

Uma investigação de 2022 do serviço persa da BBC estimou que a covid-19 matou 300 mil pessoas no Irã durante a pandemia, mais do que o dobro da cifra oficial de mortos naquele momento.

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Sem apresentar provas, Khamenei afirmou: "Uma parte deste vírus foi projetado especificamente para o Irã, utilizando conhecimentos sobre a genética iraniana".

Quando a distribuição mundial de vacinas teve início — liderada em grande medida por companhias farmacêuticas dos Estados Unidos e Europa —, ele proibiu a importação de vacinas americanas e britânicas.

Posteriormente, relatórios indicaram que o próprio Khamenei recebeu uma das várias vacinas fabricadas no Irã.

Inimigo dos EUA

Pouco depois da revolução de 1979, estudantes universitários leais a Khomeini ocuparam a embaixada dos Estados Unidos, tomando diplomatas e funcionários como reféns em protesto pelo fato de os EUA terem dado asilo ao xá deposto.

A tomada de reféns durou 444 dias e ajudou a consolidar uma postura antiamericana e antiocidental como política oficial do Estado.

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Após os atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos, o presidente George W. Bush incluiu o Irã no chamado "Eixo do Mal".

O Irã apoiou o Hezbollah — o grupo xiita armado no Líbano — como sua força adjacente em um conflito quase permanente com Israel.

Reféns americanos com vendas durante a invasão à embaixada americana em Teerã
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O programa nuclear

Khamenei classificou as armas nucleares como contrárias ao islã e em 2003 emitiu uma fatwa (interpretação da lei islâmica) contra o seu desenvolvimento.

No entanto, Israel e o Ocidente acreditavam que o Irã utilizava seus programas de energia nuclear e de mísseis sofisticados como cobertura para desenvolver capacidade armamentista nuclear.

As sanções resultantes contribuíram para empobrecer o país.

Em 2015, o Irã, Estados Unidos, Reino Unido, França, China, Rússia e Alemanha alcançaram um acordo para limitar o enriquecimento de urânio iraniano.

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No entanto, Donald Trump retirou os EUA do pacto durante seu primeiro mandato presidencial (2017-2021).

O Irã insistiu que seu programa nuclear era pacífico e que a Agência Internacional de Energia Atômica da ONU havia verificado seu cumprimento.

O ex-presidente Barack Obama, que assinou o acordo, escreveu que o pacto funcionava.

Ao se aproximar o final da presidência de Trump em 2020, os Estados Unidos mataram o alto oficial da Guarda Revolucionária Qasem Soleimani.

Khamenei jurou vingança e se alinhou mais estreitamente com a Rússia e a China.

Em 2025, Israel empreendeu ações militares contra o programa nuclear do Irã, seus cientistas, instalações militares e altos funcionários, incluindo ataques em zonas residenciais.

O Irã respondeu lançando mísseis contra Israel e os Estados Unidos uniram-se aos ataques israelenses.

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Khamenei prometeu jamais se render, mas parecia mais debilitado do que nunca, algo que os EUA e Israel aproveitaram este sábado para atacar novamente e acabar com ele.

Khamenei em uma instalação nuclear em 2023
Foto: Reuters / BBC News Brasil

O poder dos filhos

Mojtaba Jamenei é conhecido pela sua influencia no Irã
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Ali Khamenei que raramente viajana para o exterior e, segundo relatos, vivia frugalmente em um complexo no centro de Teerã com sua esposa.

Falava-se de seu gostopor jardinagem e poesia. É sabido que fumou na juventude, o que é incomum para uma figura religiosa no Irã. Ele perdeu o movimento do braço direito em uma tentativa de assassinato na década de 1980.

Ele e sua esposa, Mansoureh Khojasteh Baqerzadeh, têm seis filhos — quatro meninos e duas meninas.

A família Khamenei raramente aparece em público ou na mídia, e informações oficiais e verificadas sobre a vida privada de seus filhos são limitadas.

De seus quatro filhos, Mojtaba, o segundo, é o mais conhecido por sua influência e pelo papel significativo que desempenha no círculo íntimo de seu pai.

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Meysam é o mais novo dos filhos de Khamenei
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Mojtaba estudou na Escola Secundária Alavi, em Teerã, uma escola cujos alunos tradicionalmente incluem filhos de altos funcionários da República Islâmica.

Ele é casado com a filha de Gholam-Ali Haddad-Adel, uma proeminente figura conservadora, numa época em que ainda não havia se tornado clérigo e planejava iniciar seus estudos no seminário em Qom. Iniciou seus estudos religiosos formais no Seminário de Qom - o seminário xiita mais importante do Irã - aos 30 anos.

Em meados dos anos 2000, a influência de Mojtaba na esfera política se tornou mais evidente, embora isso raramente tenha sido reconhecido pela mídia.

Mojtaba ganhou destaque após uma polêmica eleição presidencial em 2004, quando Mehdi Karroubi - um candidato proeminente - o acusou publicamente de interferência nos bastidores para favorecer Mahmoud Ahmadinejad, em uma carta aberta dirigida ao aiatolá Khamenei.

A partir da década de 2010, ele passou a ser amplamente considerado um dos indivíduos mais poderosos da República Islâmica, e relatos sugerem que ele é o candidato preferido de Khamenei para substituí-lo. Algumas fontes oficiais, no entanto, negaram esses relatos.

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Embora Ali Khamenei não seja rei e não possa simplesmente passar o trono para seu filho, Mojtaba detém poder significativo dentro dos círculos linha-dura de seu pai, incluindo o poderoso gabinete do líder supremo, que ofusca os órgãos constitucionais.

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