'Situação explosiva' na Cisjordânia ocupada ajuda Netanyahu a 'retomar as rédeas', diz analista

A escalada da violência na Cisjordânia ocupada, após os confrontos mortais entre palestinos e colonos israelenses na localidade de Tell, na sexta-feira (24), reflete uma deterioração da situação que já vinha sendo observada desde outubro de 2023. Para Denis Charbit, professor de ciência política da Universidade Aberta de Israel, a combinação entre a fragilidade da autoridade militar israelense na região e o contexto eleitoral interno ajuda a explicar a resposta do governo de Benjamin Netanyahu.

27 jul 2026 - 14h46

Segundo o analista, a atenção das forças israelenses esteve concentrada nos últimos anos em outras frentes de conflito, como Gaza, o sul do Líbano e, mais recentemente, o Irã. Nesse cenário, a Cisjordânia teria sido, em certa medida, deixada nas mãos dos colonos israelenses.

"A Cisjordânia foi um pouco entregue aos colonos, que entraram repetidamente em aldeias palestinas sem que houvesse uma reação significativa", afirma Charbit à RFI.

Publicidade

De acordo com ele, os palestinos vinham pedindo uma presença mais ativa do Exército israelense para garantir a ordem pública, responsabilidade exercida pelas autoridades militares desde a ocupação do território em 1967. Os confrontos de Tell marcaram, na avaliação do pesquisador, uma nova etapa da crise, já que uma incursão de colonos sem coordenação com os militares terminou com a morte de dois israelenses e quatro palestinos.

Para Charbit, o endurecimento da postura de Netanyahu também deve ser analisado à luz das eleições legislativas antecipadas. O primeiro-ministro tenta demonstrar capacidade de reação após ser amplamente criticado pela falha de segurança que permitiu os ataques do Hamas em outubro de 2023.

"Tudo o que Netanyahu faz desde o 7 de outubro é dizer: 'Eu não previ o 7 de outubro, mas agora estou presente em todas as frentes e envio imediatamente forças militares'", resume.

Israel realiza eleições legislativas em outubro

O especialista questiona, porém, se parte dessa estratégia não tem motivações eleitorais. Segundo ele, o governo enfrenta dificuldades para mobilizar reservistas, espalhados simultaneamente por diversas frentes de conflito, uma situação relativamente rara para Israel.

A margem de manobra de Netanyahu também estaria limitada por sua coalizão governamental, que inclui os ministros de extrema direita Bezalel Smotrich e Itamar Ben Gvir, ambos defensores da expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia.

Publicidade

No tema dos assentamentos, Charbit considera que há pouca diferença entre Netanyahu e seus aliados mais à direita. "Não há praticamente nenhuma diferença entre eles nesse assunto", afirma.

Ao mesmo tempo, o cientista político observa que parte do eleitorado tradicional do Likud, partido de Netanyahu, começou a se incomodar com a falta de controle sobre as ações dos colonos. Embora muitos apoiem os assentamentos, também defendem que a autoridade militar permaneça acima de qualquer grupo civil.

"Netanyahu joga uma partida muito delicada. De um lado, precisa proteger os colonos. De outro, precisa reafirmar que apenas a autoridade militar deve ser obedecida", explica.

Segundo Charbit, essa estratégia ocorre em grande medida às custas da população palestina e pode produzir consequências difíceis de controlar. Embora considere relativamente limitadas as atuais formas de mobilização palestina organizada, ele alerta para o risco de uma escalada caso operações militares atinjam civis.

Publicidade

Demonstração de poder de Netanyahu 

Para o pesquisador, cada nova operação militar oferece ao primeiro-ministro uma oportunidade de demonstrar autoridade e retomar o controle, em um momento em que Netanyahu é acusado de multiplicar frentes de conflito sem conseguir encerrá-las de forma definitiva.

"A situação é realmente explosiva, mas, do ponto de vista da autoridade de Benjamin Netanyahu, quando há uma operação militar, para ele, isso é uma forma de retomar as rédeas", diz.

O analista acredita que a restauração da autoridade do Estado não é, em si, uma medida que provoque forte rejeição na sociedade israelense. A principal preocupação estaria em outro ponto: a possibilidade de a operação lançada pelo governo desencadear uma mobilização palestina mais ampla e abrir uma nova frente de violência na Cisjordânia.

"É isso que está em jogo", conclui Charbit. "A questão é saber se essa operação poderá provocar uma reação palestina muito mais intensa do que a observada nos últimos três anos".

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações