'Se ninguém fizer nada, este lugar se tornará uma terra morta': o alerta de morador que voltou para Fukushima, 15 anos após o desastre

BBC visita cidades e vilarejos no entorno de usina atômica que, em 11 de março de 2011, foi palco de pior acidente nuclear no mundo desde Chernobyl por causa de tsunami que devastou o Japão.

11 mar 2026 - 08h26
(atualizado às 09h01)
Isuke Takakura aceitou liderar um projeto simbólico — reconstruir o santuário xintoísta da comunidade, destruído pelo tsunami
Isuke Takakura aceitou liderar um projeto simbólico — reconstruir o santuário xintoísta da comunidade, destruído pelo tsunami
Foto: Ewerthon Tobace/ BBC / BBC News Brasil

Quando Isuke Takakura voltou para Futaba, a cidade já não existia como ele lembrava. As ruas continuavam ali. Os postes também. Algumas casas permaneciam de pé — silenciosas, vazias, com janelas fechadas havia mais de uma década.

O que havia desaparecido eram as pessoas.

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Antes do desastre de 11 de março de 2011, Futaba tinha cerca de 7,2 mil habitantes. Hoje, quinze anos depois, apenas cerca de 190 moradores vivem oficialmente na cidade, segundo dados da prefeitura local — uma redução de mais de 97% da população.

Takakura é um deles.

Ele caminha devagar pelas ruas que conhece desde criança, passando por casas abandonadas e terrenos onde a vegetação cresceu sem controle. "Sinto raiva às vezes. E tristeza também", diz. A frase sai tranquila, quase sem emoção. Talvez porque tenha sido repetida muitas vezes ao longo destes anos.

Mas ele continua: "Se ninguém fizer nada, este lugar se tornará uma terra morta."

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Foi por isso que decidiu voltar.

Quinze anos depois do terremoto, do tsunami e do acidente nuclear na famosa usina local que transformaram Fukushima em sinônimo de desastre em todo o mundo, a região vive um processo lento e incerto de reconstrução. Algumas cidades continuam quase vazias. Outras tentam reinventar sua economia com novas indústrias, tecnologia e projetos experimentais.

Em Futaba e nas cidades vizinhas, moradores que decidiram retornar convivem com uma pergunta que ainda não tem resposta clara: é possível reconstruir uma comunidade depois que quase todos foram embora?

A cidade que parou no tempo

Futaba fica na costa da província de Fukushima, voltada para o Pacífico. Durante décadas, viveu bem perto — a cerca de 4 quilômetros — da usina nuclear de Fukushima Daiichi, operada pela companhia elétrica TEPCO.

Em 2011, um terremoto de magnitude 9.0 — o mais forte já registrado no Japão — desencadeou um tsunami gigantesco que atingiu o litoral nordeste do país.

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Mais de 20 mil pessoas morreram ou desapareceram naquele desastre, segundo o governo japonês.

O tsunami destruiu cidades inteiras ao longo da costa. E, ao inundar a usina nuclear, provocou uma sequência de explosões e falhas de resfriamento que levaram ao maior acidente nuclear no mundo desde Chernobyl.

Futaba estava no centro dessa história.

Durante anos, toda a população da cidade foi obrigada a evacuar. Casas ficaram abandonadas, com objetos ainda sobre as mesas e carros parados nas garagens. Em muitos bairros, o tempo parecia simplesmente ter parado.

Tsunami há 15 anos deixou mais de 26 mil mortos e um rastro de destruição pelo país, como na cidade pesqueira de Morioka, na costa do Pacífico na ilha de Honshu
Foto: ROSLAN RAHMAN/AFP via Getty Images / BBC News Brasil

O santuário

Seis anos depois da evacuação total da cidade, o governo japonês começou a retirar gradualmente as ordens de evacuação em algumas áreas. Mas isso não significou que as pessoas voltariam.

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Na verdade, a maioria não voltou.

Takakura observava aquela paisagem vazia e se fazia uma pergunta simples: "se ninguém retornar, o que resta de uma cidade?"

Foi então que ele aceitou liderar um projeto simbólico — reconstruir o santuário xintoísta da comunidade, destruído pelo tsunami.

Durante séculos, santuários foram o centro espiritual das aldeias japonesas. Festivais, cerimônias e encontros aconteciam ali. Era o lugar onde a comunidade se reunia.

Sem o santuário, dizia ele, Futaba não teria alma. "Se não houver algo para as pessoas voltarem, elas simplesmente não voltam", reflete.

O novo santuário foi concluído há quatro anos. Não trouxe a população de volta. Mas trouxe algo que talvez seja ainda mais raro em uma cidade quase vazia: a sensação de que aquele lugar ainda pode continuar existindo.

Novas indústrias

Mas memória e símbolos, sozinhos, não sustentam uma cidade. Reconstruir um lugar exige algo mais simples — e mais difícil: trabalho e empregos.

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Nos últimos anos, a região de Futaba e das cidades vizinhas começou a atrair pequenos projetos industriais e tecnológicos — iniciativas que tentam responder à pergunta que paira sobre Fukushima desde 2011: como reconstruir uma economia em um território marcado por um desastre nuclear?

Quinze anos depois do acidente nuclear, a palavra radiação ainda provoca apreensão — dentro e fora do Japão. Para muitos japoneses, Fukushima continua associada a um risco invisível. Em várias cidades da região, medidores de radiação foram instalados em praças, escolas e prédios públicos, exibindo em tempo real níveis que, segundo o governo japonês e organismos internacionais como a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), hoje são comparáveis aos de grandes cidades ao redor do mundo.

Grande parte das áreas evacuadas foi gradualmente reaberta após extensos trabalhos de descontaminação. Milhões de metros cúbicos de solo contaminado foram removidos de campos, jardins e áreas urbanas, armazenados temporariamente em instalações especiais.

Mesmo assim, o medo persiste. Muitos antigos moradores hesitam em voltar — não apenas por causa da radiação em si, mas também pela perda de infraestrutura, empregos e laços comunitários que existiam antes do desastre.

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Do ponto de vista científico, estudos conduzidos pelo governo japonês, pela ONU e por pesquisadores independentes indicam que, para a população em geral, os níveis atuais de exposição são baixos e não devem causar impactos significativos à saúde.

Mas o medo nem sempre segue o mesmo ritmo dos dados científicos. Ele aparece, por exemplo, na relação com a comida. Fukushima sempre foi uma região agrícola importante, conhecida pelo arroz, pelas frutas — como pêssegos e maçãs — e por produtos frescos que abasteciam mercados em todo o Japão. Depois do acidente, esses alimentos passaram a carregar um estigma difícil de apagar.

Embora os produtos da região estejam entre os mais testados do país — com controles rigorosos de radiação realizados pelo governo e por cooperativas agrícolas — muitos agricultores dizem que ainda enfrentam desconfiança. Alguns consumidores evitam comprar alimentos produzidos ali, mesmo quando os níveis registrados estão muito abaixo dos limites de segurança.

Para quem vive da terra, reconstruir a confiança talvez seja um dos desafios mais longos da reconstrução. Afinal, a radiação não tem cheiro, não tem cor, não pode ser vista — e essa invisibilidade ajuda a explicar por que, mesmo quando os números apontam segurança, o medo pode levar muito mais tempo para desaparecer.

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Startup japonesa produz peixes em terra firme usando água salgada artificial
Foto: Ewerthon Tobace / BBC News Brasil

Em Namie, outro município do entorno da usina nuclear, uma startup japonesa está tentando reinventar a aquicultura.

Dentro de uma espécie de trailer discreto, tanques circulares produzem peixes em terra firme usando água salgada artificial, sensores e monitoramento digital. O sistema permite criar espécies de águas quentes em regiões frias — e em espaços muito menores do que os da aquicultura tradicional.

"Estamos testando se esse tipo de cultivo pode funcionar mesmo em um lugar como este", explica Koyo Takenoshita, um dos responsáveis pelo projeto.

"O ambiente aqui é severo. Mas se conseguirmos provar que funciona aqui, então pode funcionar em qualquer lugar do Japão."

A lógica é transformar um território considerado frágil em laboratório para novas indústrias.

Transformar o estigma

Outras empresas apostam em um caminho semelhante: transformar o estigma ambiental da região em motor de inovação.

Em outra parte de Namie, uma fábrica produz plástico usando arroz descartado ou que não pode ser consumido.

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O material mistura grãos com polímeros industriais para criar um bioplástico que não seria nocivo ao meio ambiente.

"Fukushima ficou marcada como um lugar associado ao desastre nuclear", diz Shohei Iida, proprietário da empresa. "Queremos mudar essa imagem. Mostrar que daqui também podem surgir tecnologias boas para o meio ambiente."

Parte do arroz usado na produção vem de estoques governamentais que seriam descartados. Outra parte vem de agricultores locais que ainda enfrentam dificuldades para vender seus produtos.

"Alguns agricultores não conseguem vender arroz para consumo porque as pessoas ainda têm medo", explica. "Então compramos esse arroz para produzir o material. Assim ajudamos os agricultores e criamos um novo mercado."

A região ainda tem locais com rastros da destruição deixada pelo tsunami há 15 anos, como nessa sala de aula de uma escola abandonada em Namie
Foto: Ewerthon Tobace/ BBC / BBC News Brasil

Plantar uvas onde havia ruínas

Nem todas as iniciativas, porém, vieram da indústria. Algumas nasceram de uma ideia simples: voltar a cultivar a terra.

Em Tomioka, cidade vizinha a Futaba, uma pequena vinícola surgiu justamente dessa vontade de reconstruir o território.

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A Tomioka Winery começou em 2016, cinco anos após o desastre. A ideia nasceu de um morador local, Shubun Endo, que passou anos vivendo como deslocado e temia que sua cidade desaparecesse.

"Ele começou a pensar que, se nada fosse feito, Tomioka poderia se tornar uma cidade sem vida", conta Junichiro Hosokawa, gerente do projeto.

A solução encontrada foi plantar vinhas.

Não era uma tradição da região. Mas havia uma razão prática. "Em muitos países do mundo sempre existe uma bebida local — cerveja ou vinho", explica Hosokawa. "Percebemos que aqui não tínhamos isso."

Junichiro Hosokawa, gerente da Tomioka Winery
Foto: Ewerthon Tobace / BBC News Brasil

No início, dez pessoas decidiram voltar para tentar o projeto. Nenhuma delas era especialista em viticultura.

Plantaram cerca de 200 mudas de uva.

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Nos primeiros anos, quase tudo deu errado. Pragas, doenças e o solo alterado pelo tsunami dificultavam o cultivo.

Mas eles persistiram.

No terceiro ano, conseguiram colher as primeiras uvas. Produziram apenas algumas dezenas de garrafas de vinho. Foi o suficiente para convencê-los de que o projeto poderia sobreviver.

Este ano, a vinícola espera produzir cerca de 10 mil garrafas.

As uvas hoje crescem em um terreno que, anos antes, havia sido devastado pelo tsunami.

A economia da reconstrução

Há também quem veja na reconstrução uma oportunidade.

Uma empresa têxtil instalou uma fábrica na região para produzir fios especiais usados na fabricação de toalhas e tecidos.

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Masami Asano, fundador da empresa, acredita que o próprio passado da região pode se transformar em vantagem.

"Quando chegamos aqui, nos disseram que reconstruir esta cidade era impossível", afirma. "Mas acreditamos que este lugar vai se tornar uma cidade extraordinária."

Segundo ele, existe uma força particular em lugares que passaram por grandes tragédias. "Quando um lugar enfrenta algo tão difícil, surge também uma força de reação. É daí que nasce algo novo."

Entre os funcionários dessas novas empresas está uma geração que cresceu com a memória do desastre.

Masami Asano CEO da Super Zero
Foto: Ewerthon Tobace / BBC News Brasil

Uma geração que voltou

Riona Okada tinha apenas cinco anos quando o terremoto começou. "Minha mãe pegou meu irmão e eu no colo e nos levou para fora de casa", lembra. "Esperamos ali até o tremor parar."

Naquela noite, a família ainda dormiu em casa.

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Na manhã seguinte, porém, veio a notícia do acidente na usina nuclear. "Meus pais não sabiam exatamente o que estava acontecendo. Só sabiam que precisávamos ir embora."

A família dirigiu por cerca de uma hora rumo às montanhas. Dias depois, acabaria se mudando para outra província.

Durante anos viveram distantes do lar. "Ficamos em casas de parentes, depois em apartamentos alugados. Foram muitas mudanças."

Riona Okada tinha apenas cinco anos quando o terremoto começou
Foto: Ewerthon Tobace / BBC News Brasil

Ela voltou para a região alguns anos depois. Hoje trabalha em uma das empresas que tentam reconstruir a economia local. "No começo eu tinha um pouco de medo de trabalhar aqui", admite.

Mas havia também outro sentimento. "Quando penso no que aconteceu, lembro que muitas pessoas ajudaram nossa família naquele momento. Então eu queria fazer algo de volta pela minha região."

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Os pais ficaram preocupados quando ela decidiu trabalhar em Futaba. Mesmo assim, ela não mudou de ideia. "Se ninguém fizer nada, nada vai mudar."

Riona sorri quando fala sobre o futuro. "Meu sonho é um dia me tornar presidente da empresa."

O silêncio que permanece

Quinze anos depois do desastre, Fukushima continua sendo um território em transição. Há novas empresas, novos projetos e algumas famílias retornando. A maioria, porém, são de novos moradores. Gente de outras regiões que quer ajudar na recuperação do local.

Mas o ritmo da reconstrução é lento. E o vazio ainda domina grande parte da paisagem.

Em Futaba, o silêncio continua sendo a presença mais constante.

No fim da tarde, Takakura costuma caminhar pelas ruas vazias da cidade. O vento que vem do Pacífico atravessa terrenos onde antes havia casas, passa por lotes cobertos de mato e segue até o antigo centro da cidade.

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"Quero ver com meus próprios olhos até onde esta cidade consegue chegar", diz.

Talvez Futaba nunca volte a ser a cidade que era antes. Mas Takakura continua ali — caminhando pelas ruas silenciosas, observando cada pequeno sinal de retorno.

Ele olha ao redor para a cidade quase vazia e repete a frase que diz desde que decidiu voltar. "Se ninguém fizer nada… este lugar se tornará uma terra morta."

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