O colapso de uma geleira causou inundações devastadoras no Nepal e no Tibete, destruindo vilarejos e projetos hidrelétricos, além de deixar centenas de moradores e turistas desaparecidos. Enquanto o Nepal usa helicópteros no resgate de trabalhadores ilhados, a China suspendeu as buscas em Gyirong devido ao risco de novo rompimento de barragem de detritos. Considerado o desastre mais letal na região desde 2015, o evento reforça os alertas sobre o impacto do aquecimento global no Himalaia.
O fenômeno destruiu vilarejos inteiros e arrastou estradas, pontes e instalações de projetos hidrelétricos. Entre os desaparecidos estão moradores, peregrinos e turistas estrangeiros de países como Índia, Ucrânia, Malásia, Reino Unido, Canadá e Austrália.
No Tibete, a situação se agravou com a suspensão temporária das operações de resgate em Gyirong. A decisão foi tomada depois que as autoridades identificaram uma grande retenção de água formada pela acumulação de detritos em altitude. O volume pode chegar a 3 milhões de metros cúbicos nos próximos dias, enquanto as chuvas contínuas elevam o nível da água e aumentam o risco de rompimento.
Segundo as autoridades chinesas, a água já começou a transbordar em direção a Gyirong. Um eventual rompimento da barreira poderia provocar uma nova inundação de grandes proporções nas áreas situadas rio abaixo. Diante do risco, as equipes de emergência receberam ordem para interromper os trabalhos e permanecer em áreas seguras.
Imagens de câmeras de segurança registraram a força da primeira onda, que atingiu o posto fronteiriço de Gyirong e, em poucos segundos, engoliu construções e pessoas. Cerca de 700 bombeiros, apoiados por drones e cães de busca, foram mobilizados na região.
O presidente chinês, Xi Jinping, determinou que fossem utilizados todos os recursos disponíveis para localizar e resgatar os desaparecidos. Segundo as autoridades chinesas, 260 dos desaparecidos no Tibete são estrangeiros. Mais de mil moradores e turistas já haviam sido retirados da área atingida.
No Nepal, as operações de socorro enfrentam condições igualmente difíceis, agravadas pelo relevo montanhoso, pelas chuvas e pela destruição da infraestrutura. O exército mobilizou helicópteros para tentar retirar mais de uma centena de trabalhadores presos em um túnel de um projeto de barragem hidrelétrica no rio Trishuli. Cerca de 350 trabalhadores e moradores já haviam sido deslocados da região.
Um dos trabalhadores resgatados relatou que conseguiu sobreviver porque estava dentro de um dos túneis quando a onda de água e lama atingiu o canteiro de obras. Segundo ele, havia pelo menos 400 trabalhadores no local.
Colapso de geleira
A origem exata do desastre ainda está sendo investigada, mas os primeiros dados apontam para o colapso de uma geleira e o desmoronamento de uma grande porção da montanha. A violência do fenômeno foi suficiente para gerar ondas sísmicas inicialmente registradas como um terremoto de magnitude 5,2.
Segundo especialistas, a massa de gelo, rochas e detritos teria bloqueado temporariamente o curso de um rio, formando uma barragem natural. Quando essa barreira cedeu, uma enorme quantidade de água e sedimentos avançou pelo vale em alta velocidade, incorporando ainda mais material ao longo do percurso.
O glaciologista Etienne Berthier afirmou à AFP que o desabamento de um bloco inteiro da montanha, que carregou consigo uma geleira, ajudou a explicar a dimensão da catástrofe. O gelo contribuiu para tornar a massa de detritos mais fluida, aumentando a velocidade e o poder destrutivo da corrente.
Mudanças climáticas
Ainda são necessários estudos para determinar qual foi exatamente a contribuição do aquecimento global para o desastre. Especialistas, porém, alertam que o aumento das temperaturas pode desestabilizar geleiras, lagos glaciais e solos permanentemente congelados nas regiões de alta montanha.
Uma das hipóteses inicialmente consideradas foi a de uma descarga súbita de um lago glacial, conhecida como GLOF (glacial lake outburst flood). Esse tipo de fenômeno ocorre quando uma grande quantidade de água acumulada é liberada de forma repentina, podendo provocar inundações extremamente destrutivas.
O risco é particularmente elevado na região do Himalaia, onde milhões de pessoas vivem nas bacias hidrográficas e onde a expansão de usinas hidrelétricas e estruturas turísticas aumenta a exposição das populações a deslizamentos e inundações.
O desastre é apontado como o mais letal no Nepal desde o terremoto de 2015, que deixou cerca de 9 mil mortos. As grandes inundações de 1993, por sua vez, provocaram mais de 1.300 mortes.
Com AFP