Reconhecimento internacional da Palestina não freia expansão de assentamentos na Cisjordânia

Um ano após França, Reino Unido e outros países ocidentais reconhecerem o Estado da Palestina, sua criação continua paralisada, em meio a restrições impostas por Israel, violência de colonos e o enfraquecimento da Autoridade Palestina.

18 set 2026 - 13h03
Resumo
Apesar do crescente reconhecimento diplomático da Palestina por mais de 150 países na ONU, a situação na Cisjordânia segue se deteriorando. Sob o governo de Benjamin Netanyahu, Israel intensificou a expansão de assentamentos ilegais, instalou barreiras e avançou no controle do território palestino. Críticos apontam que o apoio externo virou mero slogan, pois não freia a ocupação israelense nem alivia o enfraquecimento político e a grave crise financeira da Autoridade Palestina.

"Fiquei contente quando soube", conta Adam Bader, empresário palestino de 27 anos, lembrando-se da Assembleia Geral das Nações Unidas de setembro de 2025. Na ocasião, outros 11 países anunciaram o reconhecimento da Palestina como Estado de pleno direito, totalizando depois 157, ou mais de 80% dos membros da ONU.

"Mas, um ano depois, não vemos nenhum progresso. Pelo contrário, a situação piora um pouco mais a cada dia."

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Na época, 142 países haviam apoiado a Declaração de Nova York, favorável a uma solução de dois Estados para o conflito no Oriente Médio, com a notável exceção de Israel e de seu principal aliado, os Estados Unidos.

A iniciativa tornou a solução de dois Estados "uma realidade política (...), mas, no terreno, a situação continua dependendo do comportamento ilegal de Israel", afirmou à AFP Omar Awadallah, vice-ministro das Relações Exteriores da Autoridade Palestina.

Embora o reconhecimento diplomático de um Estado palestino seja uma prioridade para o presidente Mahmoud Abbas, Israel se opõe à iniciativa e multiplica os esforços para isolar as lideranças palestinas no cenário internacional.

Washington voltou a negar um visto a Abbas este ano para que ele participasse da Assembleia Geral da ONU.

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"Slogan diplomático"

"A solução de dois Estados se tornou um slogan diplomático que permite evitar encarar a realidade", avalia, por sua vez, Ines Abdel Razek, analista política palestina.

Para ela, o reconhecimento é inútil se não vier acompanhado de medidas para apoiar a existência do Estado palestino e impedir as ações de Israel destinadas a evitar sua criação.

Desde o início de seu atual mandato, em dezembro de 2022, o governo de Benjamin Netanyahu, um dos mais à direita da história de Israel, legalizou um número recorde de 104 novos assentamentos na Cisjordânia, considerados ilegais pelo direito internacional.

E, em mais um passo rumo à anexação de fato do território palestino por Israel, segundo especialistas, o ministro israelense da Defesa, Israel Katz, avalia transferir do Exército para a polícia israelense todas as competências de manutenção da ordem relacionadas aos colonos.

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Nas colinas da Cisjordânia, milhares de bandeiras israelenses margeiam as estradas utilizadas pelos colonos, e frases como "Não há futuro na Palestina" foram pintadas em muros para incentivar os palestinos a partir.

Para reforçar seu controle sobre a região, Israel instalou, no início de 2025, cerca de mil barreiras nas entradas de quase todas as aldeias e cidades.

Os palestinos também denunciam a política de "máximo de terras, mínimo de árabes", expressão usada para descrever ações destinadas a expulsar os habitantes de suas casas, enquanto os ataques de colonos aumentam.

'Sob controle iraniano'

Diante dessa violência, cujos autores quase nunca são levados à Justiça, Reino Unido, França e Canadá anunciaram recentemente sanções contra o comércio com os assentamentos, mas seu alcance é sobretudo simbólico, segundo especialistas.

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Israel respondeu com uma série de contramedidas, entre elas o fechamento do consulado britânico em Jerusalém.

Para Benjamin Netanyahu, permitir a criação de um Estado palestino equivaleria a "recompensar o terrorismo", após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, o mais letal da história de Israel, ao qual o Exército israelense respondeu com uma guerra devastadora em Gaza.

"Enquanto eu for primeiro-ministro, não haverá Estado palestino sob controle iraniano, nem em Gaza nem na Judeia-Samaria [nome bíblico da Cisjordânia]", declarou ele em agosto, enquanto o Irã, que apoia o Hamas, é o principal inimigo de Israel.

A Autoridade Palestina, por sua vez, enfraquecida e acusada de corrupção, é regularmente pressionada pela comunidade internacional a implementar reformas.

Com sede em Ramallah, a instituição também enfrenta uma grave falta de recursos financeiros - em parte devido à decisão de Israel de deixar de repassar as receitas alfandegárias que arrecada em seu nome.

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O Estado hebraico congelou essas transferências para impedir que os recursos fossem utilizados em benefício das famílias de autores de ataques contra israelenses.

Sameh, engenheiro de informática em Nablus, quer ver na Declaração de Nova York "um sinal positivo". Mas "isso não é suficiente", afirma, reivindicando também "ações mais concretas, capazes de mudar a realidade em que os palestinos vivem".

"Ainda há um longo caminho a percorrer para que o reconhecimento internacional se concretize no terreno", conclui.

com AFP

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