"Recebemos alertas de mísseis no celular": brasileiro narra rotina de tensão preso em navio em Dubai

A viagem de férias em família do paulista João Ricardo Karamekian acabou sendo transformada pela guerra no Oriente Médio. O ator de 29 anos está neste momento retido dentro de um navio de cruzeiro no porto de Dubai, onde cerca de 350 brasileiros ficaram ancorados desde o dia 28 de fevereiro. Metade deve partir na madrugada de sábado (7) de volta para o Brasil.

6 mar 2026 - 17h18

Maria Paula Carvalho, da RFI

O aeroporto de Dubai está operando de forma parcial, com voos reduzidos. A rota de saída dos brasileiros, de maneira segura, ainda estava sendo definida pela operadora turística, em contato estreito com o consulado brasileiro nos Emirados Árabes Unidos, quando a reportagem da RFI entrevistou João Ricardo por telefone. Ele conta que se tornou uma espécie de porta-voz do grupo e que tenta manter a calma para não aumentar a tensão já existente.

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"Dá um certo pavor às vezes, mas eu procuro ter autocontrole e serenidade, pois sou um porta-voz dos brasileiros e quero passar calma para eles e para a minha mãe", disse. "Há crianças e idosos a bordo. É muita tensão, mas a ideia é que eu consiga transmitir calma para os que estão próximos", completa.

Chegada a Dubai antes da escalada dos ataques

João Ricardo, o irmão e a mãe dele, de 55 anos, estão a bordo de um navio de cruzeiro da empresa MSC, ancorado no porto de Dubai. Eles chegaram à cidade mais populosa e principal centro econômico e turístico dos Emirados Árabes Unidos na terça-feira (24), antes do início da guerra.

A família passou três dias fazendo passeios em Dubai antes de embarcar no navio, no sábado (28), para um cruzeiro programado de sete dias que deveria passar pelo Catar, Bahrein e Abu Dhabi, antes de voltar para Dubai.

Navio paralisado e risco crescente

Contudo, os ataques de Israel e dos Estados Unidos ao Irã mudaram os planos. O navio acabou não zarpando e eles estão há seis dias no barco, que permanece atracado. Ele conta que não está autorizado a deixar a zona portuária, pois as autoridades locais consideram o risco elevado. O Irã tem atacado diversos aliados dos Estados Unidos no Oriente Médio, incluindo Dubai.

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"O cruzeiro está fazendo o máximo possível para o nosso bem-estar. Alimentação, limpeza das cabines, tudo está funcionando. Nós podemos usufruir da estrutura completa do cruzeiro sem nenhuma restrição", completa.

Em entrevista à RFI, ele conta que ficou aliviado de o navio não ter zarpado, "pois a situação poderia ter sido muito pior se chegássemos ao Catar, onde a represália iraniana foi mais forte". O Catar tem sido alvo direto de mísseis e drones lançados pelo Irã. Dois mísseis conseguiram atingir a base aérea de Al Udeid, que abriga a maior instalação militar dos EUA no Oriente Médio.

Emirados sob ataque: alertas no celular e tensão crescente

Mas os Emirados Árabes Unidos também não foram poupados. A federação situada na orla do Golfo foi alvo de mais de 800 drones e 2.000 mísseis em apenas alguns dias. O brasileiro conta que as autoridades locais enviam alertas em mensagens por telefone sobre os ataques.

"No primeiro dia, recebemos alertas de mísseis no celular, assim como recebemos alertas de tempestade no Brasil", compara.

Segundo João Ricardo, a situação pareceu se acalmar entre segunda-feira (2) e terça-feira (3), mas a tensão voltou a subir na quinta-feira (5). "Ontem, começaram a vir mais alertas de bombas. Todos estavam muito preocupados, pois ainda não havia nenhuma previsão de voltar para casa", continua.

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O brasileiro João Ricardo Karamekian, que também é produtor de conteúdo, tem relatado a situação em sua conta no Instagram, seguida por quase 50 mil pessoas. Em um dos vídeos, ele mostra o saguão do navio lotado e os momentos de tensão, assim como uma reunião com o consulado e os cidadãos brasileiros a bordo.

Tentativa de fuga pela fronteira de Omã

O grupo chegou a cogitar "pegar carona" com espanhóis que partiram de ônibus durante a noite em direção a Omã, para depois embarcar para Madri. "A proposta era sair de ônibus para o aeroporto internacional de Mascate. Mas são cinco horas de travessia terrestre, e o próprio Itamaraty alertou que era perigoso", disse à reportagem.

"É claro que tudo isso é um pouco decepcionante, pois a gente queria muito fazer a rota", lamenta. "Mas, pelo menos, não estamos no caos, e Dubai tem se mostrado um lugar mais seguro, com vários níveis de proteção, como interceptação de drones", conclui o ator brasileiro, ainda sem data para voltar para casa.

Alerta do Itamaraty e monitoramento da situação

O Itamaraty emitiu alertas consulares oficiais após a escalada entre Estados Unidos, Israel e Irã, desaconselhando viagens de brasileiros a 11 países do Oriente Médio (entre eles Irã, Israel, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Bahrein, Jordânia, Iraque, Líbano, Palestina e Síria). Quem já está na região foi orientado a seguir rigorosamente as instruções das autoridades locais, evitar aglomerações, monitorar canais das embaixadas e procurar as companhias aéreas em caso de cancelamentos de voos.

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Na quarta-feira (4), a chancelaria também afirmou não haver brasileiros entre as vítimas da onda de ataques e disse acompanhar a situação com preocupação, mantendo contato com as comunidades e divulgando orientações por meios oficiais. Paralelamente, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, tratou com o chanceler dos Emirados Árabes Unidos a situação de brasileiros retidos em Dubai e Abu Dhabi diante do fechamento parcial do espaço aéreo. O Ministério das Relações Exteriores reforça que presta apoio à comunidade brasileira e segue monitorando a situação no Oriente Médio.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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