A intervenção dos EUA na Venezuela, com a captura de Nicolás Maduro, enfraquece a Rússia politicamente e economicamente na América Latina, mas especialistas avaliam que o impacto geopolítico e econômico geral para Moscou será limitado.
O Ministério das Relações Exteriores da Rússia denunciou a intervenção americana na Venezuela como "um ato de agressão profundamente preocupante e condenável". Moscou considera a Venezuela um de seus principais aliados entre os países do Sul Global.
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Com a intervenção dos Estados Unidos, o Kremlin perde um parceiro estratégico na América Latina. "A Rússia havia recebido apoio de países como Brasil e Venezuela na Assembleia Geral da ONU, que se traduziu em abstenções ou votos que não condenavam a invasão da Ucrânia", lembra Cyrille Bret, especialista do Instituto Montaigne.
"A Venezuela também era um instrumento para pressionar os Estados Unidos e garantir, em uma região onde a influência americana é extremamente forte, um ponto de apoio", acrescenta Bret.
Perda de um aliado
Moscou perde não apenas um apoio político, mas também um parceiro econômico. Russos e venezuelanos assinaram acordos, principalmente no setor petrolífero.
"Esse é um dos principais vetores de cooperação entre os dois países", afirma Igor Delanoë, diretor-adjunto do Observatório Franco-Russo e pesquisador associado ao IRIS (Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas).
Há também cooperação militar e técnica, já que a Venezuela comprou da Rússia, há alguns anos, equipamentos militares, aviões de combate e sistemas de defesa antiaérea. Os investimentos russos, no entanto, permanecem limitados, com Moscou apostando mais em parceiros como a China.
No setor de petróleo, a Venezuela, com sua produção significativa, poderia permitir à Rússia "abrir ou restringir o fluxo de hidrocarbonetos (…) para manter preços elevados e sustentar o esforço de guerra na Ucrânia", acrescenta Bret. O especialista pondera, no entanto, que "a intervenção americana na Venezuela não é nem uma catástrofe geopolítica, nem uma catástrofe geoeconômica para a Rússia".
Lógica russa de influência
A operação americana na Venezuela e a captura espetacular do presidente Nicolás Maduro não seria, aliás, uma má notícia para Moscou. "Donald Trump fez na Venezuela o que Vladimir Putin queria fazer em 2022 na Ucrânia: mudar o chefe de Estado, provavelmente eliminá-lo e estabelecer em Kiev um governo favorável a Moscou", acredita Bret.
Volodymyr Zelensky reiterou várias vezes ter sido diretamente ameaçado. Ao reagir ao sequestro de Nicolás Maduro, o presidente ucraniano ironizou sobre a forma como os "ditadores" são tratados. "Os Estados Unidos sabem o que devem fazer depois", declarou, em uma referência clara a Vladimir Putin.
Contudo, muitos temem que a operação americana na Venezuela encoraje a Rússia a continuar sua ofensiva contra a Ucrânia, impunemente. "O que os Estados Unidos fizeram se encaixa em uma lógica perfeitamente compreensível para os russos", analisa Igor Delanoë.
"A Doutrina Monroe, reivindicada por Trump, significa que a América é o quintal americano, no qual Washington tem direito de supervisão e veto sobre o que acontece nos assuntos internos dos Estados soberanos de sua zona de influência. Essa é uma linguagem que os russos entendem, pois é exatamente o que reivindicam para si, especialmente no espaço pós-soviético", compara o pesquisador do IRIS.
Condenação moderada para preservar o diálogo
Por isso, a Rússia evitou criticar duramente os Estados Unidos. A condenação da operação na Venezuela foi moderada e veio apenas do Ministério das Relações Exteriores, não do Kremlin.
Moscou pensa no próximo passo. No caso ucraniano, existe "uma agenda bilateral russo-americana, ligada à cooperação econômica", conclui Igor Delanoë, "e Moscou não quer provocar mais uma das tradicionais reviravoltas de Trump".