Premiê britânico desafia Trump e tenta redesenhar o Reino Unido

Após uma década marcada por turbulência política e sucessivas trocas de governo, o novo primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, já imprime sua marca no Reino Unido ao prometer a maior transformação do país em 40 anos. Na política externa, ele indicou que não evitará divergências públicas com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sempre que considerar que os interesses britânicos estão em jogo. Em política interna, uma das grandes mudanças pretendidas é a descentralização do poder para o norte da Inglaterra, uma vez por semana.

27 jul 2026 - 13h40

Yula Rocha, correspondente da RFI em Londres

O novo primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, procura transmitir uma mensagem mais positiva do que seu antecessor, Keir Starmer.
O novo primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, procura transmitir uma mensagem mais positiva do que seu antecessor, Keir Starmer.
Foto: © Richard Pohle / POOL/AFP / RFI

Andy Burnham chegou ao poder com atitude e imagem completamente diferentes das de seu antecessor, Keir Starmer. Burnham trouxe garra, mais otimismo, pelo menos nesse primeiro momento, e introduziu medidas que, embora pareçam pequenas, são um respiro, como ele chamou, para os ingleses.

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Os anúncios da primeira semana incluíram o congelamento da passagem de ônibus, isenção de impostos na conta de luz e a promessa de moradia e cuidado para quase cinco mil britânicos que vivem em situação de rua, o maior número da história do país.

O chamado "Rei do Norte" não por acaso terminou a sexta-feira trabalhando de casa, em Manchester, no norte da Inglaterra, na nova Number 10 Norte, em referência ao endereço oficial do primeiro-ministro em Londres - o número 10 da Downing Street. É de Manchester que ele pretende governar, com parte de seu gabinete, uma vez por semana. O gesto não é simbólico; visa uma ruptura com 40 anos do modelo político do Reino Unido. Burnham promete a descentralização do poder, como ocorreu com a construção de Brasília para além do eixo Rio-São Paulo, a nacionalização da economia e a reindustrialização de comunidades.

Desafios na política externa

O primeiro telefonema que Andy Burnham fez como primeiro-ministro foi para o presidente norte-americano, Donald Trump, que o havia chamado de "prefeitinho" de uma pequena cidade da Inglaterra. Em entrevista no fim de semana, Burnham disse que está preparado para discordar de Trump e já o convidou para conhecer Manchester, que, junto com Liverpool, foi o centro da histórica Revolução Industrial que mudou o mundo. Como gesto de cooperação, Burnham autorizou os Estados Unidos a usar bases militares no Oriente Médio, o que pode facilitar a movimentação americana contra o Irã.

O novo primeiro-ministro vai ter que lidar com os altos preços do petróleo que afetam a economia mundial por conta da guerra e ainda terá de se posicionar sobre a redução da dependência de combustíveis fósseis diante da crise climática. Ed Miliband, seu secretário do Exterior e ex-ministro de Energia, quer manter a agenda climática progressiva e o multilateralismo; já o equivalente ao ministro da Fazenda, John Healey, responsável pelo orçamento e pelas despesas do governo, quer priorizar verba maior para as Forças Armadas, mas tem como desafio financiar a missão de Burnham, que é reduzir o custo de vida dos britânicos. De onde vem o dinheiro para tanto? Cresce o movimento e a pressão para sobretaxar os mais ricos e milionários.

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Sobre a relação com a União Europeia, o novo governo deve dar andamento à reaproximação iniciada por Keir Starmer, mas vai enfrentar as mesmas barreiras. Burnham é pró-Europa, mas não vai abrir o vespeiro do Brexit. Especialmente porque ele representa um eleitorado que votou a favor no referendo.

Ele também surpreendeu ao lidar com outro ponto importante e sensível em boa parte da Europa e dos Estados Unidos: a imigração. Burnham manteve a secretária de Starmer na pasta, responsável por dificultar a obtenção de vistos de residência e apertar o cerco aos imigrantes que chegam ou estão no país sem documentos.

Premiê corre contra o tempo e a paciência dos eleitores

O mandato no Reino Unido é de até cinco anos. Starmer cumpriu dois dos primeiros anos e restam a Burnham três anos como primeiro-ministro e líder do Partido Trabalhista, se tudo correr bem. A oposição diz que ele não tem um mandato legítimo porque chegou ao poder sem o escrutínio de uma eleição e o critica por governar com a cabeça de prefeito. Mas ele tem planos bem mais ambiciosos para os próximos 10 anos, que vão ser anunciados no outono do hemisfério norte, primavera no Brasil.

Com o Parlamento em recesso e seu maior rival, Nigel Farage, focado em sua campanha eleitoral após renunciar em meio a denúncias de corrupção, Burnham vai usar o primeiro mês de governo para rodar o país e ouvir os britânicos. Além do tête-à-tête, Burnham faz uso das redes sociais para comunicar suas intenções. Já foi comparado ao prefeito de Nova York, Zohan Mandani, pela sua informalidade e carisma. Dentro ou fora do TikTok, o sétimo primeiro-ministro britânico em dez anos vai ter que convencer os eleitores de que a qualidade de vida deles vai melhorar - e logo.

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