A disputa pelas Malvinas voltou ao foco sob Javier Milei, impulsionada pela iminente exploração de petróleo na região por empresas estrangeiras, o que levou a Argentina a anunciar sanções. O tema ganha força pela pressão política interna antes das eleições e pelo alinhamento ideológico com Donald Trump, que indicou rever o apoio histórico dos EUA ao Reino Unido na esteira de atritos com Londres, abrindo espaço para fortalecer a reivindicação de soberania de Buenos Aires no cenário internacional.
O tom em relação à disputa das Ilhas Malvinas vem se acirrando na Argentina desde muito antes do pronunciamento do presidente Javier Milei sobre as sanções, feito na última semana.
É tentador ver uma representação visual da tensão nos jogadores argentinos eufóricos comemorando a suada vitória sobre a Inglaterra na Copa do Mundo da FIFA, segurando uma faixa com os dizeres "Las Malvinas son Argentinas" - as Ilhas Malvinas (Falkland, para os britânicos) são argentinas, diante de seus torcedores em êxtase. No entanto, o ressentimento já vinha se acumulando há muito mais tempo.
O presidente Milei iniciou seu discurso de quinta-feira com um breve histórico das Ilhas Malvinas, sob a perspectiva argentina. Ele repetiu o argumento central da posição do país: as ilhas "pertencem por direito" à Argentina. Os britânicos invadiram e ocuparam as ilhas em 1833, disse ele, tomando o território à força das mãos da Argentina.
O governo britânico diria que ele convenientemente ignorou alguns detalhes: as ilhas - cujo controle havia sido alternado entre as potências europeias ao longo dos séculos 17 e 18 - estavam desabitadas quando os britânicos reocuparam o território.
O assentamento argentino havia sido expulso dois anos antes, não pelos britânicos, mas pelos americanos. Um navio de guerra, o USS Lexington, destruiu um forte ali estabelecido em dezembro de 1831, em meio a uma disputa sobre os direitos locais de pesca e caça de focas.
Ainda assim, se os americanos tiveram participação na expulsão dos argentinos há dois séculos, agora podem desempenhar um papel central no fortalecimento da reivindicação argentina. O presidente Milei certamente pensa assim.
"Ventos de mudança" estavam soprando, assegurou ele ao povo argentino, depois que o presidente Trump disse que estava "reavaliando" a posição dos EUA sobre as ilhas.
Tradicionalmente, essa posição tem sido de neutralidade, embora reconhecendo o domínio britânico sobre o território. "Neutro" é um termo relativo, claro, visto que o presidente Reagan forneceu apoio material a Margaret Thatcher durante a Guerra das Malvinas em 1982 - um ato que reforçou a aliança de longa data entre Londres e Washington em tempos de conflito.
Para Trump, no entanto, esse apoio mútuo - a "Relação Especial" - foi corroído por Keir Starmer quando o governo do Reino Unido optou por não se juntar à guerra dos EUA contra o Irã.
"Você não estava lá para me ajudar", retrucou o presidente em entrevista à GB News esta semana.
As Ilhas Malvinas ficavam "muito longe", disse ele. Seus habitantes - que votaram quase unanimemente para permanecerem um território ultramarino britânico em 2013 - argumentariam que a distância entre Londres e as Malvinas é ligeiramente menor do que a distância entre Washington e o território americano de Guam, no Pacífico Ocidental.
Ainda assim, as palavras de Trump sem dúvida galvanizaram Milei. Assim como as pesquisas de opinião. Ele precisa urgentemente de um impulso antes da eleição presidencial do ano que vem, na qual uma de suas adversárias, sua ex-vice-presidente, Victoria Villarruel, se apresentou como uma defensora mais firme da soberania nacional e criticou a abordagem diplomática de Milei sobre as Malvinas, considerando-a um fracasso.
A política interna raramente pode ser descartada quando a questão das Malvinas volta à tona. No entanto, Buenos Aires argumenta que o assunto se tornou urgente: "Um perigo claro e iminente", como disse Milei.
Com duas empresas de energia - a israelense Navitas Petroleum e a britânica Rockhopper Exploration - prestes a iniciar trabalhos no campo petrolífero de Sea Lion, na costa das Ilhas Malvinas, dentro de dois anos, a questão ganha novo ímpeto. A Argentina "não pode permitir" que as empresas "se apropriem das reservas de petróleo sob o nosso mar", afirmou. "Não ficaremos de braços cruzados", acrescentou.
Na manhã de sábado, o gabinete de Milei anunciou no X que estava iniciando um processo de sanções contra 45 pessoas e empresas. O anúncio não identificou os alvos e ainda não está claro qual será o impacto das medidas.
Em seu discurso, Javier Milei descreveu a Argentina como uma parceira confiável e "digna de confiança" de Washington, e goza do apoio de Trump, tanto ideológico quanto pessoal.
Os dois homens são aliados próximos em uma visão para o Hemisfério Ocidental que Trump chama de "Doutrina Don-roe", um trocadilho com a "Doutrina Monroe" do século 19, que exercia domínio americano sobre o continente. Em essência, os dois presidentes querem ver apenas líderes com ideias semelhantes no poder nas Américas.
Dentro de uma parceria tão inovadora e de uma reordenação das esferas de influência, é mais do que concebível que Trump favoreça o líder argentino em detrimento do primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, mesmo que as questões em jogo transcendam a personalidade e a política partidária.
Talvez a questão fundamental para os próximos meses seja se a força da chamada "Doutrina Don-roe" supera a longa história da "Relação Especial".