O Salão do Automóvel de Paris igualou pela primeira vez a presença de marcas chinesas e europeias, impulsionado pelo foco da China na Europa após restrições nos EUA. Com preços competitivos, alta tecnologia e garantias longas, montadoras como BYD, Chery e Li Auto já detêm 10% do mercado europeu. Esse rápido avanço gerou preocupação na União Europeia, que estabeleceu um teto anual de importação de 350 mil híbridos chineses para proteger os fabricantes locais da concorrência desleal.
Não é preciso andar muito para constatar essa "invasão" chinesa: já no primeiro pavilhão, nomes ainda pouco conhecidos no continente, como a Li Auto, buscam ganhar espaço no mercado europeu.
"Essa é a nossa primeira vez no Salão de Paris e também na Europa. Estamos muito empolgados. Trouxemos os nossos melhores modelos", celebra Lisa Xu, porta-voz da montadora. "Este aqui, o i6, foi especialmente pensado nos nossos clientes europeus, e todo o chassi, a experiência dinâmica e a parte de software são daqui."
Depois do fechamento do mercado norte-americano, o continente virou uma prioridade para a expansão das marcas chinesas de carros elétricos. As exportações de veículos híbridos para a UE triplicaram no primeiro semestre do ano, atingindo US$ 7,5 bilhões.
Focada na gama premium para famílias e na condução autônoma, a Li Auto é a número 1 dos carros elétricos e híbridos de luxo na China - que ainda têm pouca penetração na clientela europeia. "Nós entendemos esse tipo de estereótipo, mas vamos provar a nossa capacidade com os nossos produtos", diz Xu.
Grandes estandes
Marcas com presença mais consolidada, como SAIC, Chery e a BYD, que dominam 90% das vendas de veículos chineses no bloco europeu, chegam ao Salão do Automóvel com grandes estandes e uma dezena de modelos cada. Lionel French Keogh, diretor operacional do Grupo Chery na França, nota que os preços mais competitivos, apesar das tarifas de importação impostas pela União Europeia, levam os carros da China a conquistarem cada vez mais espaço.
"Teremos meio milhão de pessoas passando aqui e vai ser uma oportunidade para mostrarmos os nossos produtos e as nossas tecnologias, para que os clientes franceses compreendam que hoje os carros chineses são, pelo menos, tão bons quanto as montadoras tradicionais com as quais eles estão acostumados", afirma.
"Chegamos aqui com todos os carros eletrificados, muito seguros e com tabelas de preços mais acessíveis que as dos fabricantes europeus tradicionais. Isso dá às pessoas a chance de comprar um veículo bom e novo, algo que muitos clientes não conseguiam mais", sublinha Keogh.
Os carros chineses já representam 10% das vendas de veículos na Europa. A estratégia de penetração na região passa por fabricar uma parte crescente dos carros no próprio continente, mas também inclui prazos longos de garantia (sete anos no caso da Chery), ampla rede de assistência técnica e estoques de peças.
Avanço da Geely
Além disso, a Geely promoveu uma ambiciosa campanha de aquisição ou associação a marcas tradicionais europeias, como Volvo, Aston Martin e Smart. No ano passado, o grupo chinês comprou 26% da Renault do Brasil - o terceiro mercado mais importante da marca francesa.
"Nós, como Renault no Brasil, temos acesso à tecnologia da Geely. Estamos produzindo a nova plataforma e no ano que vem vamos ter um carro Renault em cima de uma plataforma da Geely: um carro totalmente Renault, com a cara Renault, com design Renault e utilizando uma tecnologia híbrida disponível da marca Geely. É realmente um ganha-ganha para o consumidor brasileiro", justifica Caique Ferreira, diretor de comunicação da fabricante no país.
"O objetivo é produzir no Brasil. Podemos completar a gama com carros importados, mas estamos caminhando para nacionalizar o máximo, produzir no Brasil, gerar empregos no Brasil, gerar impostos no Brasil. Aqui na Europa, a Renault segue sozinha e aberta a algumas parcerias, mas sempre com a Renault liderando a parte de tecnologia", complementa.
Acordo para limitar importação
Na Europa, onde a indústria automotiva tem maior peso na economia, o avanço chinês é visto com preocupação. Bruxelas acaba de finalizar um acordo com Pequim que inclui um limite de 350 mil unidades híbridas e híbridas plug-in importadas da China por ano.
Nos pavilhões do salão nesta segunda-feira, o presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu a medida como "uma forma de proteger" a indústria do bloco "da concorrência desleal".
"A concorrência faz parte do jogo. O importante sempre é ter regras claras", observa Caique Ferreira. "Já tivemos concorrência no passado, a chegada dos americanos, dos japoneses e dos coreanos. Agora, é dos chineses."