A Índia pode em breve ficar muito mais magra — pelo menos em teoria.
Na sexta-feira (20/3), expira no país a patente da semaglutida, a molécula por trás dos medicamentos de sucesso para perda de peso Wegovy e Ozempic, da farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk.
Isso permitirá que as empresas farmacêuticas locais lancem cópias mais baratas, ou genéricas, desencadeando uma corrida de concorrência que pode reduzir os preços em mais da metade e ampliar rapidamente o acesso para as pessoas na Índia e, eventualmente, em outros países. No dia 20/3, a patente da semaglutida também expirará no Brasil, mas as expectativas em relação aos futuros preços não são tão otimistas (leia mais abaixo).
O banco de investimento Jefferies chamou o momento de um possível "momento da pílula mágica" para a Índia, prevendo que o mercado de semaglutida no país pode chegar a US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5 bilhões) no mercado interno, dependendo dos preços e da adoção do medicamento.
Os analistas esperam que cerca de 50 versões genéricas de semaglutida com marca entrem no mercado nos próximos meses — um padrão comum na altamente competitiva indústria farmacêutica indiana. Quando a patente do medicamento para diabetes sitagliptina expirou em 2022, cerca de 30 versões com marca apareceram em um mês e quase 100 em um ano.
A indústria farmacêutica da Índia, atualmente avaliada em cerca de US$ 60 bilhões (aproximadamente R$ 300 bilhões), deve dobrar de tamanho até 2030. Grande parte desse crescimento se baseia na produção de genéricos, uma capacidade de fabricação que agora prepara o terreno para uma forte concorrência em torno da semaglutida. O que até agora era uma injeção cara, em grande parte restrita a pacientes mais ricos, poderá em breve se tornar muito mais comum.
Originalmente desenvolvidos para tratar diabetes, esses medicamentos agora são considerados revolucionários no tratamento da obesidade, oferecendo resultados que poucos tratamentos anteriores conseguiram alcançar. A semaglutida pertence a uma classe de medicamentos conhecida como agonistas do receptor de GLP-1, que imitam um hormônio responsável por regular o apetite e o nível de açúcar no sangue.
Ao estimular a liberação de insulina e retardar o esvaziamento do estômago, esses medicamentos fazem com que a pessoa se sinta saciada mais rapidamente e permaneça satisfeita por mais tempo. Criados inicialmente para tratar diabetes, esses medicamentos se tornaram alguns dos tratamentos para perda de peso mais procurados no mundo.
Várias farmacêuticas indianas já se preparam para entrar nesse mercado. Segundo Sheetal Sapale, vice-presidente da empresa de pesquisa Pharmarack, grandes companhias como Cipla, Sun Pharma, Dr Reddy's Laboratories, Biocon, Natco, Zydus e Mankind Pharma estão preparando versões genéricas com marca, e muitas outras devem seguir o mesmo caminho. A expectativa é de que os preços caiam de forma acentuada.
Atualmente, os custos mensais do tratamento são elevados: o Ozempic costuma ser vendido por 8.800 a 11.000 rúpias (cerca de R$ 500 a R$ 630), enquanto o Wegovy pode custar de 10.000 a 16.000 rúpias (cerca de R$ 560 a R$ 900). Sapale estima que a concorrência dos genéricos possa reduzir esse valor para cerca de 3.000 a 5.000 rúpias por mês (cerca de R$ 170 a R$ 285).
Preços mais baixos podem transformar o mercado.
O setor de medicamentos contra a obesidade na Índia, que inclui tanto injeções quanto medicamentos orais, cresceu rapidamente, passando de cerca de US$ 16 milhões (aproximadamente R$ 80 milhões) em 2021 para quase US$ 100 milhões (cerca de R$ 500 milhões) atualmente, segundo a Pharmarack. A demanda acelerou após o lançamento do Rybelsus em 2022, a primeira versão oral da semaglutida.
Esse crescimento reflete uma mudança mais ampla no perfil de saúde da população.
A Índia já tem mais de 77 milhões de pessoas com diabetes tipo 2 e uma das maiores populações de adultos com sobrepeso do mundo. Estilos de vida urbanos, dietas ricas em carboidratos e hábitos sedentários ajudaram a impulsionar essas duas condições.
Para médicos e outros especialistas, medicamentos GLP-1 mais baratos podem em breve se tornar uma nova e poderosa ferramenta de tratamento.
Os remédios para perda de peso também estão indo além das clínicas de endocrinologia. Cardiologistas os utilizam para ajudar pacientes a perder peso antes de procedimentos como angioplastia, cirurgiões ortopédicos para reduzir o estresse nas articulações antes de cirurgias no joelho, e pneumologistas para tratar condições como a apneia obstrutiva do sono.
Muffazal Lakdawala, cirurgião bariátrico de Mumbai (Índia), afirma que esses medicamentos podem ampliar de forma significativa o tratamento para a grande população indiana com diabetes e obesidade.
Até recentemente, ele observa, o acesso era limitado: os medicamentos injetáveis de GLP-1 eram caros e difíceis de obter, enquanto o medicamento oral Rybelsus era a única opção amplamente disponível.
"É ótimo que eles se tornem mais baratos, para que uma parcela maior da população indiana com diabetes e obesidade possa ter acesso", diz.
Mas ele faz um alerta: "A qualidade dos medicamentos produzidos aqui precisa ser rigorosamente regulada."
Essa cautela reflete uma realidade mais ampla da indústria farmacêutica da Índia, uma potência global na produção de medicamentos genéricos de baixo custo.
O país é o maior fornecedor mundial de genéricos, produzindo cerca de 60 mil marcas em mais de 60 categorias terapêuticas e respondendo por aproximadamente 20% do fornecimento global desse tipo de medicamento.
A sua reputação como a "farmácia do mundo" se baseia, em grande parte, na capacidade de transformar remédios caros em produtos acessíveis para o mercado de massa.
O exemplo mais celebrado ocorreu há duas décadas, quando empresas indianas ajudaram a reduzir drasticamente o preço dos antirretrovirais contra o HIV, ampliando de forma significativa o acesso ao tratamento em países da África e em países em desenvolvimento.
Hoje, a Índia fornece medicamentos para mais de 200 países, atendendo a mais da metade da demanda africana por genéricos, cerca de 40% dos genéricos usados nos Estados Unidos e aproximadamente um quarto dos medicamentos consumidos no Reino Unido.
"O potencial de exportação dos medicamentos genéricos indianos para perda de peso é enorme", afirma Namit Joshi, presidente do Conselho de Promoção das Exportações Farmacêuticas da Índia.
"O mercado dos EUA sozinho pode chegar a US$ 10 bilhões (cerca de R$ 50 bilhões) em poucos anos, à medida que as taxas de obesidade impulsionam a demanda."
Isso representaria um acréscimo significativo ao comércio farmacêutico da Índia: atualmente, as exportações de medicamentos genéricos do país somam US$ 30,46 bilhões (aproximadamente R$ 152 bilhões), sendo que os EUA já são o seu maior mercado.
Ainda assim, o entusiasmo entre os médicos permanece moderado pela cautela.
Os medicamentos GLP-1 são poderosos, mas não estão isentos de riscos. Os efeitos colaterais podem incluir náusea, vômito e problemas digestivos; complicações mais raras incluem cálculos biliares ou pancreatite. A perda de peso rápida, sem ingestão adequada de proteínas ou sem exercícios, também pode levar à perda de massa muscular.
Médicos dizem que muitos pacientes não compreendem bem o papel desses medicamentos. Alguns esperam uma perda de peso dramática em poucas semanas, influenciados pelo entusiasmo nas redes sociais e por recomendações de celebridades.
Rahul Baxi, especialista em diabetes de Mumbai (Índia), afirma que o sucesso depende não apenas do medicamento, mas da "seleção adequada do paciente".
Os médicos analisam mais do que o Índice de Massa Corporal (IMC), uma medida básica que relaciona peso e altura, observando também condições associadas, como diabetes ou colesterol alto. O estilo de vida também importa: se a alimentação do paciente continua pouco saudável, o medicamento sozinho pode não ser suficiente.
Muitos pacientes chegam em busca de uma solução rápida. "As pessoas vêm pedindo para perder 10 kg em três meses", diz Baxi.
A perda de peso acelerada também pode ter efeitos negativos. Se ocorrer rápido demais, o paciente pode perder gordura do rosto, do pescoço, dos braços e das coxas, ficando com aparência fragilizada.
"Perda de peso gradual, aumento lento da dose e foco na ingestão de proteínas, exercícios e treinamento de força são fundamentais para resultados mais saudáveis", afirma Baxi.
Outro desafio é que a perda de peso costuma ser revertida quando o uso do medicamento é interrompido. O apetite pode voltar com força, já que o corpo reage à perda de gordura.
"Se você interrompe o uso do medicamento, o apetite volta de forma voraz", diz Baxi.
Também há preocupações sobre o uso indevido à medida que os preços caem.
Os médicos relatam casos de pacientes que recebem prescrição de doses altas por treinadores de academia, clínicas de estética ou nutricionistas sem autoridade para isso. E farmácias online às vezes fornecem os medicamentos após consultas superficiais. Profissionais de estética já anunciam "pacotes" de emagrecimento rápido para casamentos ou eventos sociais.
Essas práticas podem se espalhar à medida que genéricos mais baratos se tornem mais amplamente disponíveis.
"Mais acesso a medicamentos baratos significa maior risco de uso indevido", afirma Bhaumik Kamdar, pneumologista de Mumbai (Índia). "Mais acesso exige mais responsabilidade, e regulação mais rigorosa. Estou cautelosamente otimista em relação a esses medicamentos."
O alerta ecoa as preocupações de Lakdawala, cirurgião bariátrico, sobre os padrões de fabricação.
"São medicamentos muito benéficos", diz. "Não queremos que os efeitos colaterais causados por produtos de baixa qualidade acabem dando má reputação à própria molécula."
O governo também tenta conter o entusiasmo. Em um comunicado divulgado na semana passada, a agência reguladora de medicamentos da Índia alertou empresas farmacêuticas contra a promoção direta ao consumidor de medicamentos para perda de peso que exigem prescrição, como os fármacos da classe GLP-1.
Publicidade que promete resultados dramáticos ou minimiza a necessidade de dieta e exercício pode ser considerada enganosa, disseram autoridades, destacando que esses medicamentos devem ser usados apenas sob supervisão médica.
Para reguladores e médicos, os próximos meses podem testar se a Índia conseguirá equilibrar preços mais acessíveis com fiscalização adequada.
Baxi, especialista em diabetes, afirma que pede aos pacientes que primeiro melhorem o estilo de vida e a alimentação antes de prescrever medicamentos para perda de peso.
Mesmo assim, eles são inicialmente colocados em uma dieta com maior ingestão de proteínas, com acompanhamento de um nutricionista, diz. As evidências atuais sugerem que os medicamentos podem precisar ser usados por longos períodos. Ainda assim, muitos pacientes chegam pedindo uma "solução rápida depois de ver vídeos no Instagram", o que aumenta a pressão sobre os médicos.
Ainda assim, os ganhos potenciais podem ser significativos. Um medicamento que antes custava dezenas de milhares de rúpias por mês pode se tornar acessível a milhões de pessoas, e talvez, no futuro, à pacientes muito além da Índia.
"Na verdade, tenho escrito nas receitas para muitos pacientes: voltem a me procurar depois de 20 de março, quando os preços devem cair", diz Baxi.
'Ozempic brasileiro'
A patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic, cairá em 20/3 no Brasil.
Mas a expectativa de comprar a caneta emagrecedora por um preço mais baixo não deve se concretizar neste mês, devido a dificuldades regulatórias e industriais.
A esses fatores somam-se os planos da Novo Nordisk, criadora do Ozempic, de se manter relevante no Brasil, seu oitavo maior mercado no mundo. A farmacêutica dinamarquesa passará a produzir em Minas Gerais suas canetas, hoje importadas.
A empresa ainda avalia recorrer da decisão judicial que negou a extensão de sua patente, solicitada sob a justificativa de compensar os anos levados para conceder o registro — no Brasil, o prazo de 20 anos começa a contar a partir do pedido, e não da concessão.
Após derrotas no Superior Tribunal de Justiça (STJ), o laboratório pode levar a discussão ao Supremo Tribunal Federal (STF). Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, porém, consideram improvável uma vitória, já que a medida poderia afetar não apenas o Ozempic, mas toda legislação de patentes do país.
De toda forma, é um cenário que pode resultar em um nível de concorrência ainda limitado entre as empresas brasileiras, o que levaria à prática de preços não muito abaixo do que já é visto hoje, segundo analistas do setor.
As aprovações para a produção da semaglutida no Brasil devem começar a ser concedidas nas próximas semanas, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas a falta de regulação às vésperas da queda da patente pode levar a atrasos nos lançamentos.
Ao todo, 14 pedidos para a produção de semaglutida são avaliados pela agência reguladora, que concederá no máximo três autorizações por semestre — um trabalho, portanto, que deve se estender até meados de 2028.
A EMS, maior farmacêutica do país e uma das primeiras que receberá o aval, diz que suas canetas chegarão às farmácias, na melhor das previsões, três meses após a obtenção do registro. A empresa, portanto, espera iniciar as vendas no segundo semestre.
A estimativa do Itaú BBA, setor do banco voltado a investidores, que tem se debruçado sobre este mercado, é de que o lançamento só aconteça em agosto.
"Só faremos qualquer produção após sair o registro. Podemos nos antecipar, mas só com a compra de matéria-prima", diz Marcus Sanchez, vice-presidente da EMS.
"Um medicamento de menor complexidade poderíamos colocar no mercado em 30 ou 45 dias após a queda de patente, mas este a gente acredita que em menos de 90 dias não é possível."
A previsão se ancora na experiência de ter produzido as primeiras canetas emagrecedoras brasileiras — a Olire e a Lirux, cujo princípio ativo é a liraglutida, o mesmo usado no Saxenda e no Victoza, da Novo Nordisk.
Mas o lançamento pode atrasar caso surjam intercorrências, principalmente ligadas à importação de insumos e à distribuição para as farmácias, uma dificuldade constante em um país de dimensões continentais.
*Reportagem adicional de Pedro Martins