Os segredos da megarreforma da residência de Putin no Mar Negro

Imagens de satélite mostram uma grande reforma realizada durante a guerra na Ucrânia; documentos judiciais e anúncios de emprego com pagamento em dinheiro ajudam a revelar detalhes pouco conhecidos do projeto.

9 out 2026 - 09h52
Resumo
Uma investigação da BBC News Rússia revelou a reconstrução sigilosa e ampliada da residência oficial de Vladimir Putin em Sochi, às margens do Mar Negro. Apurada via imagens de satélite, disputas judiciais e anúncios de emprego, a obra começou em 2024 sob forte esquema de segurança do serviço de proteção estatal russo, após ameaças de drones ucranianos. O projeto, executado por empreiteiras ligadas a outras obras do Kremlin, expande a área do complexo com previsão de término até 2027.
Disputas judiciais, imagens de satélite e anúncios de emprego revelaram a expansão da residência oficial de Vladimir Putin em Sochi
Disputas judiciais, imagens de satélite e anúncios de emprego revelaram a expansão da residência oficial de Vladimir Putin em Sochi
Foto: BBC/Planet.com/Getty / BBC News Brasil

Disputas judiciais, imagens de satélite e anúncios de emprego que prometem a operários hospedagem à beira da piscina, refeições gratuitas e pagamento em dinheiro ajudaram a revelar a grande expansão da residência oficial do presidente da Rússia, Vladimir Putin, às margens do mar Negro.

A residência oficial de Bocharov Ruchey, localizada em Sochi, já foi usada por líderes soviéticos como Nikita Khrushchev e Leonid Brezhnev e pelo primeiro presidente da Rússia após o fim da União Soviética, Boris Yeltsin. Putin se hospedou ali pela primeira vez antes de sua posse, em maio de 2000, e desde então passou a receber com frequência líderes estrangeiros no local.

Publicidade

Em 2008, o imóvel passou a ser uma residência presidencial oficial. Isso significa que o chefe de Estado pode, ali, "se hospedar, trabalhar, morar e exercer todas as suas funções, inclusive a de comandante supremo das Forças Armadas", segundo Vladimir Kozhin, então chefe do Departamento de Administração de Propriedades da Presidência da Federação Russa.

Putin esteve em Sochi 24 vezes em 2021, um ano antes da invasão em larga escala da Ucrânia, mas fez apenas duas visitas à cidade em 2024 e 2025, segundo o jornal britânico Financial Times. A redução das viagens de Putin à região do mar Negro coincidiu com o aumento do alcance dos drones ucranianos, que passaram a atingir com mais frequência a região costeira.

Ainda assim, o governo não abandonou a residência oficial Bocharov Ruchey. Uma investigação da BBC News Rússia mostra que a residência está sendo reconstruída praticamente do zero, em escala muito maior e com um esquema de segurança mais rigoroso.

As demolições começaram em 2024, sem anúncio oficial. Em setembro de 2025, uma grande escavação já ocupava parte do terreno.

Publicidade

Neste ano, o Serviço Federal de Proteção da Rússia (FSO), responsável pela segurança de autoridades do Estado, decidiu reforçar ainda mais a proteção de Bocharov Ruchey e criar uma zona de segurança de mais de 3 km² ao redor da residência.

No outono de 2026, imagens de satélite analisadas pela BBC News Rússia já mostravam os telhados de vários prédios novos. O conjunto ocupa uma área bem maior do que a antiga residência.

Mas parte do complexo original foi preservada. O prédio Bocharov Ruchey-2, construído para os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, em 2014, continua intacto. Putin ainda recebe autoridades de alto escalão no local. Entre elas está Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que esteve ali em 2024.

Três imagens de satélite mostram a escavação do terreno e a reconstrução da residência oficial do presidente da Rússia, Vladimir Putin, às margens do Mar Negro, em Bocharov Ruchey, Sochi
Foto: BBC News Brasil

As autoridades ainda não anunciaram oficialmente a obra, mas documentos obtidos pela BBC News Rússia ajudam a reconstruir como o projeto está sendo executado.

Publicidade

Em uma decisão judicial sobre uma disputa entre empresas envolvidas na construção, a BBC News Rússia encontrou a referência a um contrato de compras do Estado para a área de defesa, identificado pelo código 2327202903572000000000000.

Os detalhes desse tipo de contrato são sigilosos, mas o próprio código permite identificar alguns dados importantes.

Os quatro primeiros algarismos indicam o ano em que o contrato foi assinado e o ano em que termina: 2023 e 2027. Os três números seguintes, 202, correspondem ao código do FSO, responsável pela contratação.

Ao consultar outras decisões judiciais envolvendo disputas com subcontratadas que trabalham em Bocharov Ruchey, a BBC News Rússia conseguiu identificar a TSI Group, registrada na Crimeia anexada, como a empreiteira principal da obra.

Uma dessas disputas envolveu o instituto de projetos Voenmorproekt-30, de Sebastopol, que começou a atrasar o cronograma poucos meses depois do início das obras, no começo de 2025.

Publicidade

Também foram encontradas irregularidades na construção das paredes da chamada "casa principal", serviço entregue a uma empresa de Orenburg.

Mapa mostra a residência oficial do presidente da Rússia, Vladimir Putin, às margens do Mar Negro, em Bocharov Ruchey, Sochi, no Território de Krasnodar
Foto: BBC News Brasil

A BBC News Rússia também encontrou, em redes sociais e sites de emprego, anúncios para contratar trabalhadores da construção civil, entre eles pedreiros, montadores de estruturas de aço e profissionais especializados em concreto. Alguns citavam diretamente Bocharov Ruchey.

"Uma residência está sendo construída", dizia um dos anúncios. "Bocharov Ruchey — acesso controlado." Outro alertava: "A instalação é estratégica."

Um dos anúncios, publicado em janeiro de 2025, procurava com urgência trabalhadores para a construção de um prédio de dois andares em Sochi, "em uma área de acesso restrito, com entrada mediante autorização", e oferecia pagamento em dinheiro.

Outro anúncio, publicado no fim do ano, mencionava um prédio de quatro andares em uma área com controle de acesso e verificação de documentos.

Vladimir Putin (à direita) se exercita em sua academia particular em Bocharov Ruchey, em 2015, ao lado de Dmitry Medvedev, então primeiro-ministro da Rússia
Foto: Kremlin / BBC News Brasil

No início, as vagas eram abertas apenas a cidadãos russos sem antecedentes criminais. "É necessário passar por uma verificação de antecedentes", dizia um dos anúncios.

Publicidade

Mais tarde, as exigências foram flexibilizadas e passaram a ser aceitos também candidatos de Belarus, Cazaquistão e Quirguistão. Entre os benefícios oferecidos estavam a hospedagem — por exemplo, "em um alojamento com piscina" — ou apartamentos, três refeições por dia, ferramentas e roupas de trabalho gratuitas.

Havia preferência por equipes completas, "com engenheiro e encarregado próprios", mas trabalhadores autônomos contratados por turnos também eram aceitos.

"A fiscalização técnica não é rígida", dizia um dos anúncios. "Os serviços de segurança interna da Rússia acompanham o fluxo de dinheiro, então tudo é correto e transparente."

Em 2026, as vagas já eram para serviços de acabamento interno, como instalação de luminárias, encanamento e portas.

"O volume de trabalho é muito grande, precisamos de muita gente, mas tem que ser gente especializada", escreveu um recrutador, acrescentando que o local era de "acesso restrito" e que todos os funcionários precisavam passar por uma checagem de segurança.

Publicidade
Irek Faizullin (à esquerda), do Ministério da Construção, Habitação e Serviços Públicos da Rússia, e Alexei Fomenko, da TSI, discutem a reconstrução do centro infantil internacional Artek
Foto: Minstroy RF / BBC News Brasil

A TSI e o grupo Transstroiinvest, ao qual é ligada, já participaram de outras obras para o governo russo e para órgãos de segurança.

Antes de Bocharov Ruchey, a Transstroiinvest já havia trabalhado na construção de outra residência de Putin. Em 2019, o veículo independente russo de jornalismo investigativo Project revelou que a empresa participava da construção de uma residência estatal em Oliva, no litoral sul da Crimeia anexada. O terreno abrigava antigas dachas (residências de campo) usadas pela elite do Partido Comunista soviético e, mais tarde, por autoridades ucranianas de alto escalão.

A BBC News Rússia encontrou decisões judiciais que confirmam a participação da empresa na obra, além de documentos de processos que identificam o local como uma "residência presidencial".

A Transstroiinvest também continua atuando em territórios ucranianos ocupados pela Rússia. Entre as obras está a restauração do Pobeda, o cinema mais antigo de Mariupol, cidade ocupada pela Rússia em 2022.

Entre 2022 e 2025, a TSI recebeu ainda 54 contratos para reconstruir o centro infantil internacional Artek, na Crimeia ocupada. Segundo o registro estatal de contratos, os acordos somavam cerca de US$ 330 milhões (R$ 1,65 bilhão).

Publicidade

A BBC News Rússia enviou perguntas sobre as obras em Bocharov Ruchey a representantes da Transstroiinvest; ao empresário do setor imobiliário Alexei Fomenko, de 47 anos, apontado como beneficiário da TSI; a Arkady Rotenberg, associado de Putin e ligado a Fomenko; e ao porta-voz da Presidência russa, Dmitry Peskov. Nenhum deles respondeu.

BBC News Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita da BBC News Brasil.
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações