Os adolescentes que ensaiavam para formatura quando ocorreram os terremotos na Venezuela — e que os pais ainda procuram por conta própria

María Lourdes Pérez mora em uma das regiões da Venezuela mais devastadas pelos terremotos de 24 de junho. Ela conta que só deixará de buscar seu filho e suas amigas quando os encontrar em meio aos escombros.

7 jul 2026 - 18h49
María Lourdes Pérez em uma das regiões mais devastadas pelos terremotos de 24 de junho na Venezuela
María Lourdes Pérez em uma das regiões mais devastadas pelos terremotos de 24 de junho na Venezuela
Foto: Gentileza María Lourdes Pérez / BBC News Brasil

Houve um momento em que María Lourdes Pérez sentiu um desejo arrebatador. Ela queria ter mais um filho.

E conseguiu, aos 41 anos de idade. Cinco anos depois que ela teve Santiago, nasceu Gonzalo.

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"O mais velho era meu braço direito. Ele me ajudava em absolutamente tudo", conta ela, sobre seu filho de 21 anos.

"O menor era muito amistoso", em referência ao jovem de 16. "Ele queria estar em todas."

Ao lado de um grupo de colegas de escola, ele preparava o ato de formatura. Gonzalo iria interpretar Michael Jackson (1958-2009).

Pérez mandou fazer um traje no estilo do cantor, com lantejoulas, jaqueta brilhante e luvas.

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Para evitar que a roupa sofresse danos ou ficasse suja, ela pedia que ninguém a vestisse. Após anos de bailes escolares, esta era a "dinâmica" definida para cuidar das prendas até o dia da apresentação.

No dia 24 de junho, a poucos dias da apresentação, Gonzalo foi ensaiar a coreografia com suas colegas.

"Desta vez, ele levou o traje escondido."

'Queriam impressionar'

Pérez estava familiarizada com os ensaios. Eles se reuniam frequentemente no seu apartamento para ensaiar.

"Na minha casa, eles tinham a cenografia, tinham tudo, queriam impressionar", relembra ela.

A escola era o Colégio La Merced de Caraballeda, no Estado venezuelano de La Guaira. Mas aquela quarta-feira (24/6) era feriado no país. Por isso, ela estava fechada.

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Eles decidiram ensaiar em uma área entre o salão de festas e a piscina, em um edifício no loteamento de Tanaguarena, também em La Guaira.

Não se sabe exatamente quantas meninas compareceram ao ensaio. Acredita-se que podem ter sido cerca de 15.

"Aos 16 anos, elas dizem: 'mamãe, vou com Pedro e com María'. Mas, depois, surgem Miguel, Raúl e Ramón."

Mas Pérez acredita que, naquele dia, talvez o grupo estivesse reduzido, pois elas "queriam fazer um baile surpresa".

'Fiquei sem razão de viver, eles eram tudo para mim', lamenta María Lourdes Pérez
Foto: Gentileza María Lourdes Pérez / BBC News Brasil

Gonzalo não gostava só de dançar. Ele também tocava teclado e adorava jogar futebol, voleibol e correr maratona.

"No colégio, ele era muito querido porque, além de ser academicamente muito bom, ele colaborava, apitava jogos de kickball [uma mistura de baseball e futebol] e voleibol, nunca parava quieto", relembra Pérez.

"Se houvesse uma atividade social, ele ia. Não ficava em casa um único minuto."

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"Ele ia se formar bacharel. Na verdade, esta era a razão do baile. Ele tinha uma vaga para entrar na Universidade Católica Andrés Bello, para estudar engenharia mecatrônica."

O filho mais velho

Naquele dia 24 de junho, Santiago, o filho mais velho, ficou em casa.

"Minhas amigas o chamavam de Bambam", conta Pérez. "Ele media 1,81 m, pesava 94 kg e calçava 45."

Santiago ia se formar como administrador de transporte na Universidade Simón Bolívar, na Venezuela.

Mas, naquele dia, às 18h04 (hora local), dois terremotos, com 39 segundos de diferença, sacudiram principalmente o norte da Venezuela.

Foram dois tremores de 7,2 e 7,5 graus de magnitude que deixaram, segundo as informações oficiais de domingo passado (5/7), 3.342 mortos e 16.740 feridos.

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Mapa dos terremotos de 24 de junho de 2026 na Venezuela
Foto: BBC News Brasil

Outras fontes calculam que há dezenas de milhares de desaparecidos neste terremoto que foi o mais mortal a atingir a Venezuela no último século. Mas não se tem certeza a respeito.

Uma das regiões mais devastadas é Tanaguarena, de onde María Lourdes Pérez conversa por chamada de vídeo com a BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

"O mais triste é que encontrei meu filho com vida", ela conta. "Eu estava no mesmo apartamento que ele."

"Tentamos retirá-lo, o pai dele, um colega de trabalho do papai, dois amigos meus, por 10 horas. Eu dei água para ele por um canudinho."

Pérez relembra que os bombeiros tentaram ajudar.

"Eles não ficaram nem três minutos. O túnel onde estava meu filho estava livre de terra, eles martelaram toda aquela área, que se encheu de pó e, é claro, meu filho se foi."

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"A via crucis não acabou ali", prossegue Pérez. "Passamos 16 horas para tentar retirar o corpo, a mesma equipe outra vez: o papai, amigos dele, amigos meus, com as ferramentas que tínhamos em casa."

"Quando finalmente retiramos o corpo do meu filho, seu pai e seu tio o levaram [para a assistência social], já que aqui não há um serviço que estenda a mão."

"Aqui, há cadáveres que permanecem por 10, 12, 14 horas e são protegidos pelos vizinhos."

Outra via crucis

Assim que pôde, Pérez correu para a região onde sabia que seu outro filho, Gonzalo, estava ensaiando com suas amigas.

Sua casa e aquele local ficam ambos na rua La Playa, a cerca de 150 metros de distância.

Pérez conta que, nos minutos que se seguiram aos terremotos, cinco meninas conseguiram sair do local, sem ferimentos graves.

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'Não saio daqui até encontrar as amigas do meu filho porque, se ele estivesse aqui, ficaria comigo sem descansar'
Foto: Gentileza María Lourdes Pérez / BBC News Brasil

"Outra menina saiu depois de 36 horas, pela parte de cima do edifício", ela conta.

"Encontramos o corpo de uma amiguinha que fazia parte do grupo e também outra menina, que conseguimos manter viva por 10 horas."

"Seu pai saiu e me disse: 'Mary, tenho Isabella com 80% do corpo fora, só me falta uma parte.' As pessoas, os amigos e nós mesmos ajudamos e não veio ninguém ajudar."

"A mesma história se repete centenas de vezes. Ninguém do Estado veio colaborar conosco", lamenta ela.

"Sabe quem foram os socorristas nestes lugares? Nós mesmos."

"As pessoas não sabem ser socorristas, não sabem como entrar nos escombros, mas eu também fiz isso."

Pérez destaca que as equipes de resgate chegaram àquela região no quinto dia após a tragédia.

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"Algumas delegações, mexicana, colombiana, americana, estiveram por aqui, mas é muito pouco", ela conta.

"Eles não podem com tudo, são todos os edifícios, são muitas pessoas, a tragédia é muito grande."

'Tudo se deslocou'

O desespero de María Lourdes Pérez, como de tantos outros pais e mães nesta tragédia, é indescritível.

"Eu me ofereci para alugar uma máquina. Todos os dias, de madrugada, paro para tentar alugar máquinas."

Caraballeda é uma região tradicionalmente turística que foi uma das áreas mais devastadas pelos dois terremotos no Estado venezuelano de La Guaira
Foto: Miguel MEDINA/POOL/AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Na quinta-feira (2/7), chegou uma máquina alugada por ela própria.

"É uma Jumbo, uma máquina grande com várias funções, um gancho, uma broca, é como uma retroescavadora."

"Fizemos alguns movimentos e abrimos alguns espaços, como galerias", ela conta.

Pérez relembra que os socorristas internacionais disseram que "ainda sentiam calor, que há possibilidades de vida".

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Ela pede ajuda e explica como é complexo o processo de retirar escombros naquela região.

"É que tudo se deslocou, tudo se moveu, estamos escavando absolutamente todo o edifício."

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) calculou, com base em avaliações preliminares, que os terremotos geraram cerca de 1,2 milhão de toneladas de escombros nas regiões mais atingidas de La Guaira.

A Nasa publicou um mapa preliminar, indicando que "é provável que 58.870 edifícios tenham sido danificados ou destruídos na região atingida". Mas a agência alerta que esta é uma projeção de referência, com dados que não foram validados no terreno.

'Foram crianças felizes'

Ao longo da entrevista, María Lourdes Pérez tem a voz embargada, chora, toma fôlego e prossegue.

"Queira Deus que esta entrevista sirva de aprendizado. Não quero que outra mãe passe pelo que estou vivendo."

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Santiago José Márquez Pérez e Gonzalo José Márquez Pérez, ao lado da sua mãe
Foto: Gentileza María Lourdes Pérez / BBC News Brasil

Ela conta que não se esquece de algo que seus filhos lhe diziam.

"Sobretudo o menor porque, como saía tanto e se inscrevia em tantas coisas, ele me dizia: 'Mamãe, você é forte.' E estou fazendo jus a isso que ele sempre me falava."

"Mamãe, você é forte", repete ela.

"Eu me sinto tranquila porque eles foram crianças felizes, muito felizes. Agora, penso que Deus me concedeu dois anjos, um com 21 anos e outro, com 16."

"Não vou sair daqui até encontrar as amigas do meu filho porque, se ele estivesse aqui, estaria comigo sem descanso."

"Ele era muito amigo dos seus amigos e também preciso fazer isso, é um compromisso que tenho com ele", conta Pérez. "Tomara que Deus me permita encontrá-lo."

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"Infelizmente, os pais de uma das meninas que está aqui faleceram e, agora, alguns familiares estão em contato conosco. A situação é muito complicada."

'Amor que não se parece com nada'

A região mais devastada pelos terremotos foi sempre o lar de María Lourdes Pérez.

"Sou de La Guaira, por toda a vida", ela conta.

"Vivi a tragédia de Vargas de 1999, o deslizamento", que matou entre 10 mil e 30 mil pessoas. "Naquela vez, perdemos absolutamente tudo o que era material, mas a família estava completa."

"Conseguimos nos recuperar do zero. Havíamos ficado sem casa, sem carro, sem trabalho e sem negócio."

Mapa das zonas mais afetadas pelos terremotos da Venezuela em 24 de junho de 2026
Foto: BBC News Brasil

"Acreditei ter aprendido a lição", ela conta. "Não pensei que fosse possível viver duas tragédias na vida, mas eu estava errada."

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"Você sabe que o amor que temos pelos filhos não se parece com nada e eu perdi meus dois filhos. Fiquei sem razão de viver, eles eram tudo para mim."

"Agora, não sei o que vou fazer", lamenta Pérez. "Imagino que tenho forças porque tenho o compromisso de encontrar o mais novo."

"Eu estava tentando formar homens de bem, úteis, estudiosos, bons com a sua comunidade, bons amigos, bons filhos, sobrinhos, era o que eu fazia."

"Como fui mãe mais velha, eu os orientava o melhor que podia, pois sempre apostei no seu sucesso. E estava tranquila porque sentia que estava conseguindo."

"De um só golpe, eu os perdi", prossegue ela.

"Por isso, gostaria de fazer um pedido. Eu aproveitei os meus filhos, mas gostaria que as pessoas que não estão desfrutando ao máximo, que o façam, que não percam tempo."

"A vida muda em um minuto. Se você tiver filhos, não deixe de abraçá-los, de agradá-los, e permita que eles o agradem."

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A Agência Venezuelana de Notícias informou no domingo (5/7) que o governo calcula que haja 17.345 pessoas sem moradia devido à tragédia
Foto: Miguel MEDINA/POOL/AFP via Getty Images / BBC News Brasil

'As pessoas sentem muita dor'

María Lourdes Pérez também perdeu sua mãe, que era espanhola.

"Perdi tudo", ela conta. "Se tivesse meus filhos, não teria nenhum problema para começar a fazer minha vida nova."

"Mas, aqui, não há ajuda nenhuma. Os psicólogos deveriam estar aqui aos montes, ajudando todo mundo."

"As pessoas têm muita dor. Há quem chore, quem o manifesta, quem se contém. Todos nós precisamos de psicólogos."

Centenas de famílias continuam buscando seus entes queridos
Foto: Cem Tekkesinoglu/Anadolu via Getty Images / BBC News Brasil

Na quarta-feira (1/7), Pérez conseguiu um médico para examinar suas feridas. "Onde estou ficando, não há luz, o sinal [de celular] vai e vem."

"Finalmente conseguimos alguém que pode nos fornecer internet, pois não temos nesta parte leste do Estado", disse ela, assim que começamos a conversar.

De fato, a nossa comunicação foi interrompida várias vezes.

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'Professora, perdi minha mãe'

Consegui conversar com a irmã mercedária Neyda Rojas quando ela regressou de Caraballeda para a casa provincial em Caracas, para buscar insumos e doações recebidas.

Ela pertence à Ordem de Nossa Senhora das Mercês — mais precisamente, à missão das religiosas que fundou o Colégio La Merced (a escola de Gonzalo), em 1955.

'Nada é pequeno quando o amor é grande, uma palavra, um abraço', segundo a irmã Neyda Rojas, ao regressar a Caracas vinda de Caraballeda, para buscar insumos e retornar
Foto: Gentileza Neyda Rojas / BBC News Brasil

Quando ocorreram os terremotos, Rojas estava em Mérida, no oeste do país. Ao saber do ocorrido, ela se dirigiu a Caraballeda.

Ela levou mais tempo que o planejado para chegar àquela região. No trajeto, Rojas encontrou estradas rachadas e obstruídas.

A via aérea não estava disponível. No dia dos terremotos, o aeroporto mais próximo foi fechado, devido a graves danos causados à sua infraestrutura.

"Tudo está destruído", ela conta. "O pouco que ficou de pé, ficou revirado. Grande parte do nosso pessoal faleceu, há crianças desaparecidas."

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"A diretora do colégio presenciou enterros de alunos, de famílias inteiras. E, quando ela está nos funerais, vêm outras crianças e dizem: 'Professora, perdi minha mãe', 'Professora, não sei onde está o meu pai.' Tudo isso, sem falar no que você já carrega dentro da sua própria família."

"Existe muito medo das réplicas, as pessoas ficam muito assustadas", prossegue Rojas. "Nem toda a ajuda conseguiu chegar a Caraballeda. Falta muita água, você chega lá e todos querem água."

"Existem idosos que conseguiram descer para as praças, para as ruas. E, quando alguém passa, eles não querem que lhes deem coisas, mas sim, eles abraçam, pedem a bênção."

Para Rojas e outras religiosas, não é fundamental apenas levar alimentos, água, insumos básicos, mas também tentar ajudar na parte espiritual. "Acompanhar com a fé, a esperança de que Deus nos dê forças para seguirmos adiante."

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As palavras são insuficientes

A irmã Rojas conta sobre os jovens que ensaiavam para o seu baile de formatura e da angústia de mães como María Lourdes Pérez e muitíssimas outras que procuram seus filhos.

"É muito difícil porque você não tem palavras neste momento, as palavras são insuficientes. É preciso estar ali só pela presença, para que elas sintam que não estão sozinhas, que nós as sustentamos, que estamos vivendo a dor como elas."

Os venezuelanos, dentro e fora do país, demonstraram sua solidariedade com as vítimas dos terremotos de diferentes formas
Foto: MARTIN BERNETTI/AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Por tudo isso, a religiosa se deparou várias vezes com as mesmas perguntas: Por que isso? O que fizemos? Por que outra vez conosco?

Apesar do tempo decorrido, Rojas não quer perder a esperança de que possam ser encontradas outras pessoas com vida.

"Nós caminhamos sobre escombros, mas sabemos que existe vida ali embaixo. Existem edifícios que podem ter vida no porão, pois eles caíram para um dos lados."

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'Ensinamento'

Em entrevista coletiva no dia 2 de julho, a presidente em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, defendeu a reação do seu governo à catástrofe.

"Ativamos imediatamente o Estado venezuelano como um todo", afirmou ela.

"Nossa primeira ação, poucas horas depois do ocorrido, foi emitir um decreto para atender a esta situação de emergência e deslocamos imediatamente o sistema de proteção civil, o sistema de defesa pública."

A Agência Venezuelana de Notícias informou, no dia 5 de julho, que o governo deslocou 29.567 trabalhadores operacionais para atender à emergência. A elas se uniram os grupos de socorristas internacionais.
Foto: Maryorín Méndez/AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Mas os enviados especiais da BBC à Venezuela puderam comprovar cada vez mais denúncias de muitos venezuelanos sobre o que eles qualificam de reação insuficiente por parte das autoridades.

Para María Lourdes Pérez, é fundamental que, "de tudo isso", se tire "uma lição".

"Um ensinamento para as pessoas do governo, para algum organismo que mude e pense que estes cenários podem se apresentar a qualquer momento e é preciso estar preparado."

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Ela conta situações denunciadas por outros cidadãos.

"Enquanto eu tentava retirar o corpo do meu filho mais velho, entraram quatro grupos de ladrões no edifício onde eu estava."

Ela pede "dignidade para os mortos" e seus parentes.

"Para reconhecer seu familiar, na melhor das hipóteses, você precisa levantar os lençóis de pessoas que estão destruídas, porque chegaram ali, pelo menos, 10, 12, 14, 16 horas depois de ficarem jogados na rua."

Refúgio

Pérez conta que procura refúgio nas recordações que ela tem dos seus filhos.

"Eu me sinto orgulhosa porque muita gente gostava deles", ela conta.

O mais velho tinha déficit de atenção e hiperatividade. Ele adorava matemática.

María Lourdes Pérez, vestida com calça e camisa marrom e gorro bege, em frente a uma montanha de escombros, cimento, pedras e partes de uma edificação
Foto: Gentileza María Lourdes Pérez / BBC News Brasil

"Sabe como eles o chamavam?", pergunta ela, olhando-me nos olhos. "NotiSantiago, pois se inteirava de absolutamente todas as notícias."

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"Devido à sua hiperatividade, eles o chamavam para perguntar sobre trajetos e linhas aéreas. Era amigo de muita gente."

"Ele me ajudava em absolutamente tudo, movimentava as contas bancárias, me ajudava a fazer compras."

"Como estas crianças têm uma memória espetacular, concentração incrível, quando eu precisava procurar algo, não precisava mover um dedo porque ele encontrava tudo."

Gonzalo tinha dias muito atarefados pela frente.

Na jornada conhecida no seu colégio como "manhã esportiva", ele iria apresentar o baile ao lado das colegas. Depois, ele defenderia seu trabalho de conclusão de curso e, no dia 30 de julho, seria sua formatura.

"Era um menino cheio de sonhos, um grande sonhador", conta sua mãe.

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Sua foto circula na internet, em um cartaz destacando que ele estava no edifício Marianamar: "GONZALO JOSÉ MÁRQUEZ PÉREZ. 16 ANOS. PROCURA-SE".

Sobre a roupa de Michael Jackson que ela mandou fazer, María Lourdes Pérez responde:

"Acho que ele conseguiu usar."

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