Oposição israelense ataca Netanyahu após denúncia sobre alerta antes de 7 de Outubro

Segundo o jornal Haaretz, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu teria recebido um telefonema do presidente dos Emirados Árabes Unidos, o xeque Mohamed Bin Zayed, alertando-o sobre uma operação planejada pelo Hamas uma semana e meia antes dos ataques de 7 de Outubro de 2023. Especialistas, porém, avaliam que a revelação dificilmente alterará de forma significativa o resultado da eleição, servindo mais para aprofundar a polarização política em Israel.

9 set 2026 - 06h25
Resumo
A oposição israelense atacou Benjamin Netanyahu após a denúncia de que ele ignorou alertas prévios sobre o ataque de 7 de Outubro, acusando-o de negligência e prometendo investigações. O premiê negou o contato, enquanto os Emirados Árabes não desmentiram. A menos de 50 dias das eleições gerais, analistas avaliam que a revelação deve ter impacto eleitoral limitado, apenas reforçando a polarização política em um cenário onde o governo já enfrenta dificuldades para obter maioria parlamentar.

Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, encerra declaração feita à imprensa em Jerusalém, em 8 de setembro de 2026.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, encerra declaração feita à imprensa em Jerusalém, em 8 de setembro de 2026.
Foto: REUTERS - Ammar Awad / RFI

A ligação telefônica teria durado cerca de 45 minutos. O gabinete do primeiro-ministro classificou a matéria como "uma completa mentira". O comunicado divulgado à imprensa afirma que "durante o período em questão, Netanyahu não conversou com o presidente dos Emirados Árabes Unidos e não recebeu qualquer aviso dele". 

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O governo dos Emirados Árabes Unidos não negou a informação, mas preferiu não comentá-la diretamente.  

"Órgãos dos governos dos Emirados e de Israel têm mantido linha direta de comunicação desde o início da relação [entre os países] mais de cinco anos atrás. Quando necessário, toda a informação de inteligência foi e continua a ser comunicada entre os órgãos relevantes". 

Em Israel, as lideranças dos partidos de oposição partiram para o ataque.

Gadi Eisenkot, líder do partido Yashar, que neste momento ocupa a liderança em parte das pesquisas de intenção de voto para a eleição de 27 de outubro, declarou que "cada vez mais indícios apontam que Netanyahu conduziu Israel cegamente ao fracasso dos ataques de 7 de Outubro". 

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Ainda segundo Eisenkot, "Netanyahu recebeu dezenas de avisos e ignorou todos. Ele é incompetente". Ele prometeu também formar uma comissão de investigação estatal para "esclarecer o que Netanyahu sabia e o que não sabia".

O ex-primeiro-ministro Naftali Bennett, líder do partido Yahad, de centro-direita, afirmou que "a informação é verdadeira" e que "Netanyahu tem responsabilidade pessoal e direta pela omissão que levou às mortes de milhares de israelenses". 

O líder do partido de esquerda Os Democratas, Yair Golan, disse que "as desculpas de Netanyahu acabaram e que ele é culpado". Golan também prometeu formar uma comissão estatal de investigação "que revelará toda a verdade". "Por negligência, Netanyahu é responsável pelo massacre de 1.200 israelenses em 7 de Outubro", afirmou. 

Timing pode ser chave

Faltam menos de 50 dias para a eleição geral, justamente a primeira a ocorrer após o 7 de Outubro, após as guerras em Gaza, no Líbano e no Irã. 

Ainda não se sabe qual será o impacto eleitoral desta notícia. Até agora, antes da revelação, as pesquisas mostravam que os partidos que atualmente estão no governo liderado pelo primeiro-ministro Netanyahu não conseguem formar uma nova coalizão majoritária. 

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Dois especialistas ouvidos pela RFI em Israel avaliam as possíveis consequências da reportagem do Haaretz com certa cautela.

João Miragaya, mestre em história pela Universidade de Tel Aviv e cofundador do podcast 'Do Lado Esquerdo do Muro', não acredita que a revelação poderá mudar de forma decisiva o rumo das eleições

"Durante a campanha, Netanyahu decidiu voltar a 'trabalhar' o 7 de Outubro para reconstruir a narrativa sobre o papel dele. Mas a teoria de conspiração que ele buscou emplacar de que ele não teria sido acordado de propósito deu errado." 

Miragaya faz referência à madrugada entre os dias 6 e 7 de outubro, uma vez que a ofensiva do Hamas começou às 6h29 do dia 7. 

"A partir dessa reportagem, é provável que Netanyahu tente mudar de assunto. Do ponto de vista eleitoral, eu não acho que nem meio mandato vai mudar de lado devido a esta informação, por mais bombástica que ela possa parecer. Os eleitores dele não se importam com isso. Não importa a verdade, mas sim no que eles [os eleitores de Netanyahu] querem acreditar", diz Miragaya sobre as revelações da reportagem. 

Dan Orbach, historiador da Universidade Hebraica de Jerusalém, também não acredita em consequências mais dramáticas. 

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"Aqueles que odeiam Netanyahu acreditarão nisso [na informação divulgada pelo Haaretz]. Já os apoiadores do primeiro-ministro irão entender como difamação e perseguição. Acredito que o efeito sobre o eleitor marginal será pequeno. Isso vai reforçar a polarização, reforçar a adesão de ambos os lados", avalia Orbach. 

Listas eleitorais concluídas

Terminou às 22h de 8 de setembro o prazo legal para a entrega das listas de todos os partidos. Como Israel é um regime parlamentarista, os eleitores votam em partidos, não em candidatos. Assim, as listas com os nomes e as posições que cada candidato ocupa são fundamentais para que os eleitores tenham clareza sobre o processo. 

O Knesset, o parlamento israelense, tem 120 cadeiras. Para formar uma coalizão de governo é preciso obter a metade mais um dos assentos, ou seja, no mínimo de 61 parlamentares. 

A ordem apresentada por cada partido à comissão eleitoral é fundamental, pois indica ao eleitor quem são os candidatos e em que posição cada um aparece na lista.

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Por exemplo, as pesquisas apontam que o Likud, o partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, deve obter entre 22 e 25 cadeiras. O número um da lista é Netanyahu, líder da legenda. Um candidato da lista do Likud que ocupe a 30ª posição dificilmente terá assento na próxima legislatura.

Assim funciona com todos os partidos, que negociam internamente as posições de seus candidatos. Não há uma regra sobre a quantidade de membros presentes nas listas de cada partido. 

O cenário político interno de Israel é dominado por 14 partidos e coalizões. Para obter pelo menos quatro assentos no Knesset, cada um deles deverá ultrapassar a cláusula de barreira de 3,25% do total de votos válidos. 

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