Segundo informações divulgadas recentemente pela organização policial internacional sediada em Lyon, mais de 45 mil endereços IP e servidores maliciosos foram neutralizados em uma operação global que teve como alvo redes de fraude online e de invasões informáticas.
A cibercriminalidade continua a se afirmar como uma das principais ameaças para os Estados e para a economia mundial. Uma ampla operação internacional coordenada pela Interpol revelou a dimensão das infraestruturas digitais utilizadas por redes criminosas.
A operação, chamada Synergia III, ocorreu entre julho de 2025 e janeiro de 2026 e mobilizou forças policiais de 72 países, com o apoio de empresas especializadas em cibersegurança. Os investigadores desmontaram parte relevante da infraestrutura digital usada em atividades como phishing, disseminação de softwares maliciosos, golpes financeiros pela internet e também algumas modalidades de ataques com ransomware (tipo de software malicioso - malware - usado por criminosos para bloquear ou criptografar os dados de um computador ou sistema e depois exigir um resgate em dinheiro para liberar o acesso).
De acordo com as autoridades policiais internacionais, as plataformas eram usadas para hospedar sites fraudulentos que imitavam bancos, órgãos públicos ou plataformas de comércio eletrônico, com o objetivo de enganar vítimas e obter dados pessoais ou bancários.
Entre 8 de dezembro e 30 de janeiro, forças policiais de 16 países africanos prenderam 651 cibercriminosos suspeitos de integrar redes que extorquiram quase € 38 milhões de centenas de vítimas, informou a Interpol em fevereiro.
Nove tipos de fraude
O relatório detalha nove tipos de fraudes digitais impulsionadas pelo avanço da inteligência artificial e por grandes vazamentos de dados pessoais na internet.
"A proliferação de ferramentas baseadas em inteligência artificial (…) reduziu as barreiras de entrada, permitindo acesso amplo a recursos sofisticados de fraude", além de favorecer a criação de "cenários de golpe extremamente convincentes", por exemplo com o uso de "deepfakes".
Como consequência, a Interpol observa uma expansão geográfica dos centros de golpes. Esses centros, que empregam — voluntariamente ou sob coerção — trabalhadores encarregados de organizar fraudes, estavam inicialmente concentrados no Sudeste Asiático. Agora, novas estruturas começam a surgir no Oriente Médio, na América Central e na África Ocidental.
Os resultados da operação dão uma dimensão da escala do problema. As forças de segurança efetuaram a prisão de 94 pessoas e identificaram mais de uma centena de suspeitos adicionais. Durante as operações realizadas em vários países, centenas de equipamentos eletrônicos foram apreendidos. As infraestruturas desmanteladas faziam parte de uma rede complexa que conectava centros de atividade localizados em diferentes regiões do mundo, incluindo Ásia, África e Europa.
Falsos sistemas bancários
Na região administrativa especial de Macau, na China, as autoridades identificaram dezenas de milhares de sites fraudulentos, muitos deles criados para reproduzir a aparência de portais bancários ou de plataformas administrativas. Usuários eram levados a inserir suas credenciais e informações financeiras, posteriormente exploradas por redes criminosas. O phising é um golpe digital em que criminosos tentam enganar pessoas para que forneçam informações confidenciais, como senhas, dados bancários ou números de cartão de crédito, fingindo ser uma entidade confiável.
Em outros países, as investigações revelaram centros dedicados a fraudes digitais, nos quais membros das organizações criminosas dividiam funções como invasão de contas em redes sociais, aplicação de golpes amorosos ou extorsão pela internet.
Para os responsáveis pela luta contra a cibercriminalidade dentro da Interpol, a operação evidencia uma transformação profunda da criminalidade internacional. As redes criminosas passaram a operar como verdadeiras empresas transnacionais, utilizando infraestruturas tecnológicas sofisticadas e atuando simultaneamente em várias jurisdições.
A rápida disseminação de ferramentas digitais e o relativo anonimato proporcionado pela internet permitem que essas organizações alcancem vítimas em todo o mundo, ao mesmo tempo em que dificultam o trabalho das autoridades judiciais.
Ciberciminalidade faz parte de amplo ecossistema
Especialistas destacam ainda que a cibercriminalidade já não se limita a ataques informáticos tradicionais. Ela faz parte de um ecossistema mais amplo que envolve fraude financeira, lavagem de dinheiro e crime organizado.
As infraestruturas digitais frequentemente funcionam como porta de entrada para outras atividades ilegais, incluindo golpes em grande escala, manipulação de identidades digitais e financiamento de redes criminosas.
Diante dessa evolução, a Interpol enfatiza a importância de reforçar a cooperação internacional. A organização, que reúne 196 países membros, tem apostado cada vez mais no intercâmbio rápido de informações e na coordenação de operações transnacionais para desmantelar redes criminosas.
Segundo a Interpol, a operação Synergia III é um exemplo recente dessa estratégia. Ao atingir não apenas indivíduos, mas também as estruturas técnicas utilizadas por redes criminosas, as autoridades buscam enfraquecer de forma duradoura organizações envolvidas em fraudes digitais.
Especialistas alertam, no entanto, que o combate a esses grupos continuará sendo um desafio prolongado, em um ambiente tecnológico que evolui de forma constante.
Com AFP