Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel
Se nas últimas eleições os campos políticos se dividiram mais claramente em torno da figura política de Benjamin Netanyahu, agora, a situação é mais concreta e envolve não promessas, mas os elementos que compõem um quadro mais amplo da sociedade israelense e também da geopolítica regional.
Diante do eleitorado há escolhas muito claras a se fazer, como aprovar a gestão do primeiro-ministro de três frentes de guerra que ainda estão abertas - Líbano, Gaza e Irã - ou, voltando ainda ao 7 de Outubro, exigir ou não uma comissão de Estado para investigar as falhas que não impediram a invasão do Hamas e a morte de 1.200 pessoas num só dia.
Ao contrário do restante da comunidade internacional, os ataques de 7 de Outubro ainda são muito presentes em Israel. Este é um tema sobre o qual se fala todos os dias, na TV, nas ruas, e nas conversas. E, desta forma, estará presente também na disputa eleitoral.
"Os israelenses não apenas serão chamados a decidir sobre quem deve governar, mas sobre a própria natureza de nossa democracia. O que está em jogo é o caráter democrático, a coesão social e o rumo do único Estado judeu do mundo e da única democracia do Oriente Médio", declarou à RFI Yohanan Plesner, presidente do centro de pesquisa Instituto de Democracia de Israel (IDI).
Liderança emergente
Entre os candidatos, alguns tem se destacado, como o ex-chefe do Estado-Maior, Gadi Eisenkot, e o ex-primeiro-ministro Naftali Bennet, que se uniu ao atual líder da oposição Yair Lapid. Mas há outros concorrentes, como o líder do bloco de esquerda Os Democratas, Yair Golan, o nome que representa a tentativa da esquerda de retomar o protagonismo no país; e também Mansour Abbas, líder árabe do partido Ra'am, que nasceu como braço político do movimento islâmico em Israel. Abbas é uma liderança pragmática e que, em 2021, uniu-se à coalizão de oposição que conseguiu derrotar Netanyahu.
Gadi Eisenkot hoje é a principal liderança emergente. Muitas das pesquisas de intenção de voto apontam o seu partido, o Yashar! (em português, algo como "direto ao ponto", em tradução livre) a frente do Likud, de Netanyahu.
As razões para a ascensão de Eisenkot
Há muitas explicações, mas Eisenkot é um fenômeno que talvez reflita muito do atual momento da sociedade israelense. Em primeiro lugar, ele ocupou o cargo de chefe do Estado-Maior do exército. E, segundo pesquisa do Instituto de Estudos de Segurança Nacional da Universidade de Tel Aviv (INSS), 73% dos israelenses expressam alta confiança no exército do país. O mesmo levantamento mostra que a confiança no governo de Israel é de 25%; e em Netanyahu, 31%.
Filho de judeus que emigraram do Marrocos na década de 1950, Eisenkot é a novidade no cenário político. Mais ainda, segundo Ronni Shaked, pesquisador do Instituto Truman da Universidade Hebraica de Jerusalém, ele é um símbolo da luta pela manutenção de Israel como uma democracia liberal.
"O público não está mais dividido entre esquerda e direita, mas entre os partidos liberais, de oposição, e a coalizão de governo fundamentalista e ultranacionalista. Eisenkot pode ser o próximo primeiro-ministro a partir desta bandeira de união do povo em torno dos valores pluralistas e democráticos de Israel", diz Shaked.
Há também uma questão familiar que repercute muito na sociedade israelense; o filho e o sobrinho de Gadi Eisenkot foram mortos enquanto combatiam como soldados na Faixa de Gaza. Já Netanyahu lamentou o "custo pessoal" de ter de adiar o casamento de seu filho mais novo durante a guerra de junho do ano passado com o Irã. E o filho mais velho de Netanyahu passou a maior parte dos últimos três anos em Miami.
Assentamentos e criação de Estado palestino
Desde o 7 de Outubro, falar em Estado palestino se tornou uma espécie de tabu, inclusive para políticos que defendem esse direito, como Yair Golan, da esquerda, e Yair Lapid, líder da oposição, de centro, que falou abertamente a favor de um Estado palestino em discurso na Assembleia-Geral da ONU, em setembro de 2022, enquanto ocupou o cargo de primeiro-ministro.
Já Eisenkot declarou em entrevista ao Canal 12 israelense que falar sobre um "Estado palestino é irrelevante depois de 7 de outubro". Na visão dele, Israel deve "fazer suas considerações a partir de uma posição de força e não ter pressa" em relação ao assunto. Ele também rejeitou a possibilidade de reconstrução de assentamentos na Faixa de Gaza, território do qual Israel se retirou integralmente em 2005.
Já em relação a assentamentos na Cisjordânia, Eisenkot se opõe à anexação de todo o território por considerar que isso poderia transformar Israel num estado binacional, ameaçando, segundo ele, a identidade judaica e democrática do país. No entanto, ele defende a manutenção do que chama de "assentamentos estratégicos".
Por enquanto, a posição de Gadi Eisenkot se opõe tanto à política expansionista da direita quanto ao desmantelamento total dos assentamentos defendido pela esquerda israelense.