Norte-americanos resistem à construção de data centers e políticos sentem pressão

16 jul 2026 - 13h31

Visto da Michigan Avenue, o município de Saline parece uma comunidade agrícola como qualquer outra, com ‌seus campos de milho e soja, silos e elevadores de grãos.

No entanto, um pouco mais adiante, guindastes se erguem acima de cercas imponentes no local de um projeto de US$16 bilhões -- um projeto que transformou essa cidade de 2.400 habitantes no mais recente ponto de tensão nos EUA em relação aos data centers de IA.

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Apelidado de "The Barn" (O Celeiro) pelo consórcio de desenvolvedores -- Oracle, OpenAI, Related Digital, Blackstone e Walbridge --, o data center Stargate deve se estender por mais de 250 acres, ou aproximadamente 1,01 milhão de metros quadrados.

A construção segue adiante, apesar da resistência dos moradores, preocupados com o impacto sobre o abastecimento de água de Saline, sua rede elétrica e seu caráter rural.

"A maioria das pessoas não está interessada em um empreendimento gigantesco por aqui", disse Tammie Bruneau, que tem liderado a oposição local. "Elas estão interessadas ⁠em proteger as terras agrícolas."

Neste país profundamente polarizado, a oposição aos data centers está entre as poucas questões que unem eleitores além das divisões ideológicas. Apenas um terço dos norte-americanos aprova o ritmo de construção ‌de data centers, de acordo com uma pesquisa da Reuters/Ipsos realizada em junho. Apenas 14% dos entrevistados apoiariam a construção de um data center em sua comunidade.

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Essa tensão é cada vez mais pronunciada em Michigan, onde pelo menos 13 data centers estão em vários estágios de planejamento. As comunidades em Saline e arredores estão se mobilizando contra isso.

Empreendedores retiraram um projeto no município de Washington depois que os moradores ‌se mobilizaram contra ele. Em Augusta, os peticionários paralisaram o empreendimento e forçaram uma votação pública sobre o rezoneamento.

À medida que ‌a reação se espalha, a disputa em torno dos data centers não se limita mais às câmaras municipais, deixando os políticos da região e de todo o país correndo para acompanhar ⁠o ritmo.

DEMOCRATAS DE MICHIGAN ENFRENTAM INDIGNAÇÃO DE ELEITORES

Com as primárias democratas de Michigan para o Senado dos EUA se aproximando em 4 de agosto -- em uma disputa que ajudará a determinar o equilíbrio de poder em Washington --, os candidatos estão ponderando os benefícios do desenvolvimento da IA diante das crescentes preocupações dos eleitores.

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Para muitos norte-americanos, a resistência aos data centers é inseparável de um mal-estar mais amplo em relação ao futuro da IA e ao poder corporativo.

"Parece que as grandes empresas de tecnologia estão meio que atropelando os cidadãos", disse Jeff Samoray, 57, um democrata que mora em Huntington Woods, nos arredores de Detroit.

Em sua campanha pela indicação democrata, Haley Stevens se apresenta como uma otimista em relação à tecnologia, chamando a IA de "revolucionária".

Em um debate na semana passada, ela associou o desenvolvimento de data centers à criação de ‌empregos, afirmando que isso colocará Michigan "na vanguarda da inovação e da indústria", ao mesmo tempo em que exortou as empresas de tecnologia a pagarem suas contas de água e serviços públicos.

Stevens, que ocupa uma cadeira na ‌Câmara dos Deputados dos EUA desde 2019, não respondeu a um ⁠pedido de entrevista da Reuters.

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Abdul El-Sayed, seu rival progressista, divulgou ⁠no mês passado uma plataforma política que exigiria que as empresas de IA operassem como corporações de benefício público, com maior supervisão governamental.

Ele não chegou a pedir uma moratória nacional sobre a construção de data centers -- como ⁠fizeram outros da ala esquerda do Partido Democrata --, mas disse à Reuters que moratórias locais podem ser necessárias.

"Muitas vezes, as comunidades locais ‌simplesmente não têm capacidade para suportar a pressão que grandes ‌corporações podem exercer sobre elas", disse ele em entrevista. No entanto, em última instância, as salvaguardas precisam vir do governo federal, acrescentou.

Samoray acredita que nenhum dos candidatos está assumindo uma posição suficientemente firme.

"É uma retórica bonita, mas não sei se isso realmente vai acontecer", disse ele, caracterizando o setor de IA como "um trem descontrolado".

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Até mesmo o governo Trump, que priorizou o rápido desenvolvimento da IA para competir com a China, percebeu a mudança no sentimento dos eleitores.

A Reuters noticiou em 13 de julho que a Casa Branca está trabalhando com empresas de serviços públicos e ⁠desenvolvedores de centros de dados em um compromisso voluntário para proteger os contribuintes de arcarem com os custos da expansão da IA.

Políticos de ambos os partidos estão "com opiniões muito divergentes", disse Lisa Wozniak, presidente da Liga de Eleitores pela Conservação de Michigan.

"FORÇADOS A ADOTAR ESSA POSIÇÃO"

A disputa em Saline ilustra tanto a intensidade da oposição pública quanto a dificuldade de encontrar soluções políticas.

Após meses de reuniões públicas controversas, o conselho municipal votou por 4 a 1, em setembro, contra a alteração do zoneamento para o data center Stargate. Dois dias depois, os desenvolvedores e proprietários de terras entraram com uma ação judicial contra o município.

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Diante de um litígio oneroso, as autoridades chegaram a um acordo judicial em outubro, permitindo que a construção prosseguisse.

O ‌acordo previu cerca de US$14 milhões em benefícios para a comunidade, incluindo preservação de terras agrícolas e serviços de combate a incêndios, além de restrições ao uso da água e ao ruído. Os opositores contestaram o acordo na Justiça.

As obras foram iniciadas em 1º de junho, com a presença da governadora democrata Gretchen Whitmer e do diretor executivo da OpenAI, Sam Altman.

O projeto criará mais de ⁠2.500 empregos sindicalizados na construção civil, 1.500 empregos em todo o condado, mais de 450 empregos permanentes e bilhões em receita tributária, segundo os incorporadores.

Mas a oposição local continua forte.

"Nós realmente não achamos justo que nosso conselho tenha sido forçado a assumir essa posição", disse a ativista comunitária Bruneau, que nunca havia se envolvido na política local antes.

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Ela se preocupa com a contaminação das águas subterrâneas e com os custos de eletricidade.

Bruneau não está sozinha, disse ela, já que a oposição ultrapassa as divisões partidárias: "Encontramos pessoas da extrema direita e da extrema esquerda, e também do centro."

Beverly Kincaid, 56, republicana que mora perto do município, disse que os data centers serão uma questão central para ela quando for votar em novembro.

Em Saline, disse ela, "o dinheiro pesou na decisão".

Um porta-voz da Related Digital, empresa de desenvolvimento e investimento em data centers, afirmou em um email que a empresa está "comprometida com o desenvolvimento responsável", incluindo "a proteção da água de Michigan por meio do uso de sistemas de resfriamento a ar em circuito fechado" e a preservação de "750 acres de terras agrícolas, pântanos e florestas".

Em um comunicado, um porta-voz da Oracle afirmou que a empresa financiará toda a energia e infraestrutura necessárias para o data center, "garantindo que não haja impacto nas contas dos consumidores locais nem na confiabilidade da rede elétrica".

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Sandy Baruah, presidente da Câmara Regional de Detroit, disse que os críticos não estão enxergando o quadro geral: "Para nós que estamos envolvidos nos esforços para fazer a economia de Michigan crescer e criar mais empregos, isso é realmente intrigante."

Laura Dennison vê os dois lados da questão. A moradora de Royal Oak, de 42 anos, se preocupa com o impacto dos data centers na agricultura. Mas os pesquisadores também estão usando IA para entender melhor a condição médica rara de seu filho.

"Não importa se você é a pessoa concorrendo a um cargo público ou se é a pessoa afetada por isso", disse ela. "Há muitas incógnitas."

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