Na primeira eleição após os ataques de 7 de outubro de 2023, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu encara forte cobrança popular e queda nas pesquisas pelo pior fracasso de segurança do país. Sobreviventes, como os do kibutz Be'eri, exigem sua saída do poder, enquanto ele rejeita a culpa e defende suas ofensivas militares. Contudo, a falta de consenso entre os partidos de oposição indica que, mesmo enfraquecido, Netanyahu pode seguir no cargo em meio a um provável impasse político.
Gal Cohen caminha ao longo de um muro memorial onde estão gravados os nomes dos homens, mulheres e crianças mortos no ataque do Hamas ao seu kibutz, em 7 de outubro de 2023. Para ele, a ideia de que o homem que liderava Israel naquela época — e continua liderando desde então — possa ser reeleito na terça-feira é dolorosa.
Um em cada dez moradores de seu kibutz, Be'eri, estava entre as 1.200 pessoas mortas no ataque surpresa do Hamas. Dezenas estavam entre os 251 reféns levados para Gaza. Foi o dia mais sangrento da história de Israel.
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu deveria ter assumido a responsabilidade e renunciado, disse Cohen, de 61 anos, para quem o fato de ele ter cumprido um mandato completo no cargo é um tapa na cara. A eleição de terça-feira, disse ele, é crucial para Israel.
"Se este governo permanecer, muitos corações e mentes ficarão despedaçados. Será realmente difícil seguir em frente", declarou Cohen.
Muitos dos oponentes de Netanyahu veem a eleição como uma oportunidade, finalmente, de fazer um acerto de contas há muito adiado pelo pior fracasso de segurança em gerações. Mas mesmo que o primeiro-ministro mais longevo de Israel perca sua maioria, ele pode muito bem escapar do veredicto decisivo que seus adversários buscam.
Netanyahu rejeitou a culpa pela falha e resistiu aos apelos por uma investigação independente. Ele afirma que as guerras de Israel contra o Hamas em Gaza e seus aliados no Líbano e no Irã resultarão em um Oriente Médio mais pacífico.
A tarefa só estará completa com a queda dos governantes clericais do Irã, afirmou Netanyahu durante a campanha eleitoral, e somente ele tem a convicção e a credibilidade para concretizar isso.
As pesquisas de opinião vêm apontando há meses uma queda acentuada para o partido Likud, de Netanyahu. Mas uma aliança rival de partidos da direita, da esquerda e do centro, que busca destituí-lo, também não tem um caminho claro para o poder, sugerindo meses de impasse político com Netanyahu potencialmente à frente de um governo interino.
"DOIS PASSOS À DIREITA"
Nos dias seguintes a 7 de outubro, Be'eri estava repleta de soldados israelenses patrulhando casas queimadas e destruídas, com pisos manchados de sangue e portas perfuradas por buracos de bala. Em alguns pontos, o fedor de cadáveres ainda pairava no ar.
Os sons de bombardeios e de aviões de guerra israelenses sobrevoando Gaza eram incessantes.
Três anos depois, o kibutz está em pleno funcionamento e os sons da construção de casas novinhas em folha ecoam por toda parte nos terrenos verdejantes. Espera-se que a maioria dos membros, que agora residem em outro kibutz, retorne até o verão.
Uma comunidade coletiva fundada em 1946, hoje com cerca de 1.000 moradores, Be'eri exemplifica os valores socialistas que dominaram a política de Israel em suas primeiras décadas. Quase todos os seus votos foram para a centro-esquerda na eleição anterior de 2022, quando apenas cerca de 4% votaram em partidos da coalizão nacionalista-religiosa de Netanyahu.
O ataque fez com que os moradores questionassem as crenças de longa data de que poderia haver paz com os palestinos nesta geração.
"Todos em Be'eri deram dois passos à direita. Mas ainda acho que a maioria de nós vai ficar com a oposição, os partidos que querem substituir este governo", disse ele.
Miri Gad Messika, 48, da terceira geração em Be'eri, ainda não decidiu em quem votar. Mas não será em Netanyahu.
"Ele falhou como líder tantas vezes. E não deveria mais estar na política", declarou ela. "Estou procurando um líder. Infelizmente, é difícil enxergar algum líder em Israel no momento."
"Quero ser otimista", acrescentou ela, "e só posso esperar por uma mudança para melhor".