Casado duas vezes e pai de três filhas, o romancista havia superado o câncer em três momentos, enquanto continuava escrevendo, em média, quase um livro por ano, apesar de ter deixado de publicar novas obras recentemente.
"Foi com profunda tristeza, e ainda a recuperar do choque, que recebemos a notícia, esta manhã, da morte de António Lobo Antunes, nome maior da literatura portuguesa, autor de romances que ficarão para sempre na memória dos seus leitores e admiradores", lamentou em um comunicado a editora Leya, que publicou seu último livro, "O Tamanho do Mundo", em 2022.
Conhecido ao longo de sua trajetória como um cronista da sociedade portuguesa contemporânea, Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 1° de setembro de 1942. Formou-se em Medicina, pela Universidade de Lisboa em 1969, especializando-se em Psiquiatria, que mais tarde exerceu no Hospital Miguel Bombarda.
Em 1985, optou de vez pela escrita em tempo integral para combater a depressão que dizia ser comum a todas as pessoas, sendo reconhecido como um autor que mistura romance, poesia e autobiografia em um estilo barroco e metafórico.
Condecorado com Prêmio Camões
Seu primeiro livro, "Memória de Elefante", foi publicado em 1979, seguido por "Os Cus de Judas", no mesmo ano. Obras marcadas pela experiência da guerra e pelo exercício da Psiquiatria, que logo o tornaram um dos mais lidos em Portugal.
Alguns críticos comparam seu trabalho ao do grande escritor luso Eça de Queiroz, autor de um retrato corrosivo do país no século XIX.
Em entrevista à agência Lusa, em 2004, António Lobo Antunes disse que "nunca soube verdadeiramente fazer outra coisa que não escrever". Naquela época, já havia vencido o Prêmio União Latina (2003) e em 2007 recebeu o Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa.
Além disso, Portugalo condecorou com o Grande Colar da Ordem de Sant'Iago da Espada, em 2004 e, em 2019, com a Ordem da Liberdade. A França, por sua vez, deu a ele o grau de "Comandante" da Ordem das Artes e Letras, em 2008.
Um autor "radical"
Em entrevista à RFI, seu tradutor na França nos últimos 15 anos, Dominique Nédellec, descreveu António Lobo Antunes como um autor "radical", que fez uma "revolução estilística".
"Ele frequentemente dizia que ninguém escrevia como ele, nem sequer ele próprio. Ele desmontou tudo, foi um golpe terrível no estilo normal, habitual, tradicional. Ele inventou um estilo próprio, conseguiu elaborar uma língua sem equivalente", resumiu Nédellec.
Anne Lima, sócia da Livraria Portuguesa & Brasileira, em Paris, explica que António Lobo Antunes é "um dos escritores lusos mais conhecidos na França" e "uma presença em praticamente todas as livrarias francesas, as grandes e as independentes", ao lado de nomes como Fernando Pessoa e José Saramago.
Um autor de "um grande modernismo", com "um tipo de escrita que é um fluxo de consciência permanente", que falou sobre a guerra colonial e sobre o Portugal pós-25 de Abril "sem compromissos".
RFI com agências