A língua como acolhimento ao imigrante: pesquisadora avalia desafios no Brasil e na Europa

Para um imigrante que acaba de chegar a um novo país - muitas vezes em situação de crise, sem planejamento e sem domínio do idioma local -, a comunicação é o primeiro passo para sobreviver, acessar direitos e reconstruir a vida. No Brasil, essa necessidade deu origem ao conceito de "língua de acolhimento", abordagem pedagógica voltada para as urgências práticas do recém-chegado.

5 mar 2026 - 12h15

Em entrevista à RFI, a professora e pesquisadora Nukácia Araújo, da cátedra Sérgio Vieira de Mello, criada pela Unesco na Universidade Estadual do Ceará (UECE), explica os desafios que as cidades brasileiras enfrentam para facilitar a integração de imigrantes. Ela faz atualmente um pós‑doutorado na Universidade Sorbonne Nouvelle (Paris 3), onde acompanha iniciativas brasileiras e francesas de acolhimento linguístico. 

A linguista Nukácia Araújo, professora da Universidade Estadual do Ceará.
A linguista Nukácia Araújo, professora da Universidade Estadual do Ceará.
Foto: © RFI/Adriana Moysés / RFI

Essa forma de ensinar o idioma do país receptor leva em consideração que quem chega em uma situação de crise não pode esperar por longos cursos tradicionais. Segundo Nukácia, a língua de acolhimento é, na verdade, uma forma de ensinar a língua para quem migra compulsoriamente e precisa dela para questões de urgência.

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"É uma maneira de ensinar voltada para a sobrevivência, para que a pessoa obtenha direitos básicos rapidamente."

No Brasil, isso significa priorizar vocabulário prático e situações reais do cotidiano: tirar documentos, acessar o sistema de saúde, matricular filhos na escola, procurar emprego. O foco inicial são temas do dia a dia assim que se chega. São necessidades urgentes que determinam a permanência e a segurança dessas pessoas no país.

A experiência brasileira e a crítica ao modelo português

O conceito de língua de acolhimento chega ao Brasil por volta de 2012, importado de Portugal. Mas, para a pesquisadora, as realidades dos dois países diferem muito.

"Em Portugal, a política linguística é de assimilação: há um certo apagamento da cultura e dos saberes do migrante para que ele se integre. No Brasil, criticamos esse modelo, apesar de usarmos o nome 'língua de acolhimento'."

Cidades como Brasília, São Paulo e capitais do Sul já desenvolviam ações anteriores ao aumento do fluxo migratório no Ceará, que se intensificou com a chegada de venezuelanos em 2017. As dificuldades, porém, se repetem em todos os estados: documentação, emprego, acesso a serviços públicos.

"Sem o domínio mínimo da língua, a pessoa não tem como abrir uma conta no banco para receber auxílio, (...) não consegue explicar sintomas em um posto de saúde, (...) não passa por uma entrevista de trabalho. Essa dificuldade é a mesma no Brasil e aqui na França", observa a pesquisadora.

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Quando a língua de integração apaga a identidade

Nukácia observa que o termo língua de acolhimento não existe na política pública francesa. O equivalente seria o ensino de língua de integração, que tem outro foco.

"A integração, pelo próprio nome, pressupõe que eu preciso me tornar como um francês para estar nessa sociedade. Isso dificulta demais para quem chega, especialmente migrantes do mundo árabe, que não conhecem nem o alfabeto latino, diz a pesquisadora."

O ensino de francês para estrangeiros prioriza estrutura, gramática e fonemas desde o início, o oposto do que propõe a abordagem brasileira. "Aqui, as questões gramaticais são extremamente importantes. Ensina-se francês escolar para quem precisa, primeiramente, de francês para viver", destaca a especialista.

Multilinguismo como política pública

Um dos pontos mais defendidos pela pesquisadora é o reconhecimento das diversas línguas presentes no processo migratório. "As múltiplas línguas das pessoas precisam ser consideradas no ensino e nos serviços públicos. Não podemos esperar que alguém resolva toda a sua documentação sem um mediador linguístico."

Para ela, equipes multilíngues ou ao menos tradutores deveriam estar distribuídos em instituições que atendem migrantes, desde bancos até postos de saúde.

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Da França, Nukácia prepara publicações sobre o tema, ao lado do professor Leonardo Tonus, também da Sorbonne Nouvelle. Um dos estudos traz um título que resume bem as tensões presentes no ensino de línguas a imigrantes.

"O artigo se chama 'A língua que acolhe também é a língua que exclui'. Porque acolhe quando considero como o outro fala e sua história. Mas exclui quando não reconheço isso e torno tudo mais difícil porque a pessoa não sabe a língua", conclui a pesquisadora.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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