O presidente da Conferência Episcopal Alemã, Heiner Wilmer, declarou que a ideologia etnonacionalista da Alternativa para a Alemanha (AfD) é incompatível com a Igreja e a fé. A reação ocorre após o partido de extrema direita vencer as eleições na Saxônia-Anhalt, marco inédito desde o pós-nazismo. Wilmer criticou a política de segregação da legenda e defendeu a dignidade humana, enquanto o chanceler Friedrich Merz classificou a proposta do partido de expulsar imigrantes como "limpeza étnica".
O presidente da Conferência Episcopal Alemã, Heiner Wilmer, afirmou nesta quarta-feira (9) que não há espaço na Igreja Católica para a ideologia do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), que provocou um terremoto político no país ao vencer as eleições estaduais na Saxônia-Anhalt.
Com isso, a AfD pode se tornar a primeira legenda de extrema direita a governar um estado alemão desde o fim da era nazista.
"As eleições na Saxônia-Anhalt mostraram, sem meias palavras, como um partido radical foi legitimado democraticamente pela vontade dos eleitores", afirmou Wilmer, também bispo de Munster, em um discurso.
"Fiquei sem palavras diante desse resultado eleitoral, em um primeiro momento. Mas estou determinado a prosseguir com meu trabalho", acrescentou. Segundo o chefe dos bispos alemães, ficou claro que a AfD tem um caráter "etnonacionalista", mas "não há espaço para essa ideologia baseada no nacionalismo étnico nem dentro, nem fora da casa de Deus, nem no cristianismo, nem no judaísmo, nem no islamismo", salientou.
Pesquisas apontam que a Saxônia-Anhalt é o estado menos religioso da Alemanha, com mais de 80% da população se declarando não pertencente a nenhum credo, enquanto os católicos representam cerca de 3% do total.
Apesar disso, dom Wilmer afirmou esperar que a "verdade" se imponha sobre "promessas eleitorais privadas de fundamento na realidade".
"Como Igreja, não vamos recuar. Ao contrário, nos opomos quando o medo é colocado contra a solidariedade, quando as pessoas são colocadas umas contra as outras, quando as instituições democráticas são enfraquecidas. Isso não é de esquerda nem de direita, mas a nossa régua não é a política partidária nem a ideologia, e sim o Evangelho e a dignidade inalienável de cada ser humano", disse o prelado.
A AfD venceu as eleições na Saxônia-Anhalt com as promessas de abolir a taxa que financia a radiodifusão pública, promover medidas para aumentar o "orgulho" de ser alemão, criar turmas separadas para crianças refugiadas nas escolas e cortar repasses a igrejas. Em âmbito nacional, o partido prega a bandeira da "remigração", ou seja, a expulsão em massa de imigrantes.
"A remigração nada mais é do que uma limpeza étnica", declarou nesta quarta o chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, que tem sido pressionado por conta do avanço da extrema direita sob seu governo. O partido de Merz, a União Democrata Cristã (CDU), de centro-direita, comanda a Saxônia-Anhalt desde 2002, mas viu seu eleitorado se reduzir pela metade nas eleições de domingo (6). .