Temendo uma nova mobilização militar e restrições internas, muitos russos, principalmente homens com menos de 40 anos, tentam deixar o país antes de setembro. Plataformas de apoio à emigração relatam forte alta na procura por vistos e residência. Apesar de o fluxo ser menor que o pico histórico de 2022, cresce a ansiedade entre jovens em idade de recrutamento, que buscam refúgio em destinos com exigências de entrada mais acessíveis, como Armênia, Geórgia e Sérvia.
Sophia Khatsenkova, RFI.
Partir antes de setembro ou outubro por medo - é o que muitos russos têm feito há vários meses, segundo mensagens registradas na plataforma Relokatz, criada após a primeira onda de emigração desencadeada pela invasão da Ucrânia pela Rússia e a mobilização parcial de 2022.
O site reúne informações práticas sobre vistos, autorizações de residência, legalização de documentos e transporte de animais de estimação. Também oferece serviços pagos de apoio administrativo.
De acordo com Alexandra Nazarova, editora-chefe da Relokatz, o fluxo de usuários para o site e o número de consultas começaram a aumentar em fevereiro. "Entre fevereiro e abril, o tráfego para o site e o número de consultas direcionadas ao nosso chatbot de IA triplicaram", explicou ela em entrevista à RFI.
Anteriormente, a plataforma recebia entre 10 e 20 solicitações por dia. Esse número subiu para cerca de 70 em abril e quase dobrou durante o verão.
"Agora recebemos cerca de 120 solicitações por dia", afirma Alexandra Nazarova. Segundo ela, o medo da guerra é agravado pelas crescentes restrições impostas dentro do país. "Antes, as pessoas escreviam por motivos muito específicos, porque eram diretamente afetadas. Hoje, o sentimento é mais generalizado: é impossível viver na Rússia, você tem que ir embora. E, claro, há o medo do recrutamento militar obrigatório."
Os dados são autodeclarados e, portanto, não permitem uma avaliação abrangente da intenção geral de deixar o país. No entanto, o aumento acentuado nas consultas recebidas reflete uma crescente preocupação entre um segmento da população.
As buscas estão em alta, mas longe do recorde de 2022. Os dados do Google Trends fornecem outro indicador, ainda que indireto, dessa preocupação. Vários picos de buscas relacionadas à frase "como sair da Rússia" foram registrados em março e julho de 2026.
No entanto, o volume permanece significativamente menor do que o observado em 2022. O início da invasão da Ucrânia e, posteriormente, o anúncio de Vladimir Putin sobre uma mobilização parcial em setembro daquele ano desencadearam uma onda de emigração sem precedentes.
De acordo com diversas estimativas compiladas pela Deutsche Welle, entre 500 mil e um milhão de pessoas deixaram a Rússia durante 2022. O Serviço Federal de Estatísticas da Rússia (Rosstat) apresenta números mais conservadores: registrou 668 mil emigrações para todo o ano de 2022.
Contudo, essas estatísticas oficiais devem ser interpretadas com cautela, pois nem todas as emigrações registradas representam necessariamente emigração permanente.
Russos com menos de 35 anos temem a mobilização
Moscou não anunciou oficialmente nenhuma nova mobilização militar. Mas a perspectiva de uma possível convocação após as eleições parlamentares de setembro está alimentando a ansiedade, especialmente entre os homens em idade de combate.
"Cada vez mais homens escrevem dizendo que precisam sair urgentemente antes de setembro ou outubro para evitar a mobilização, caso ela aconteça", observa Alexandra Nazarova.
A plataforma também recebe mensagens de jovens de 17 e 18 anos que estão se aproximando da idade de serviço militar. Alguns procuram uma universidade no exterior para continuar seus estudos e, ao mesmo tempo, evitar uma possível convocação. A maioria das solicitações vem de pessoas com menos de 40 anos.
Segundo a organização, os pedidos são divididos quase igualmente entre homens e mulheres. No entanto, as mulheres costumam entrar em contato com a Relokatz em nome de um parente próximo: um filho, marido, companheiro ou irmão que pode ser convocado.
"Elas nos dizem: 'Ele acabou de receber uma convocação ou corre o risco de recebê-la. O que podemos fazer? Para onde podemos ir com ele?'", relata a editora-chefe.
Armênia, Geórgia e Sérvia são as principais escolhas
Os destinos mais procurados mudaram pouco desde a primeira grande onda de emigração em 2022. Armênia, Geórgia e Sérvia continuam sendo as opções preferidas devido aos requisitos de entrada e residência relativamente acessíveis.
A Armênia pode ser acessada mesmo com um passaporte interno russo, uma vantagem significativa para quem não possui passaporte internacional. A Geórgia permite que cidadãos russos permaneçam por períodos prolongados sem visto.
A Sérvia é atraente por outros motivos: oferece diversas formas de obter uma autorização de residência, incluindo emprego, abertura de um negócio, estudo ou matrícula de um filho na escola. Além disso, a presença de uma grande comunidade de língua russa facilita a chegada de novos imigrantes.
Por outro lado, a Turquia, um dos destinos mais procurados em 2022, perdeu seu apelo devido às crescentes dificuldades em obter ou renovar certas autorizações de residência.
Segundo Alexandra Nazarova, alguns potenciais emigrantes agora estão considerando destinos mais distantes, especialmente na América Latina.