Médicos questionam evidências por trás de plano do Pentágono para rastreio de testosterona

18 jul 2026 - 15h29

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, determinou nesta semana a realização de exames anuais para detectar deficiência ‌de testosterona em militares na ativa e na reserva com 30 anos ou mais, o que, segundo ele, ajudará a manter a prontidão militar.

No entanto, muitos profissionais da área médica alertam que isso pode não surtir nenhum efeito nesse sentido e, ao contrário, pode aumentar o risco de infertilidade dos militares ou acarretar outras consequências caso a testosterona seja prescrita de forma inadequada.

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A medida é uma das várias mudanças recentes na política de saúde implementadas por Hegseth e outros membros do gabinete do governo Trump que geraram debate entre especialistas e levantaram questões sobre qual base científica, se é que existe alguma, as sustenta.

Hegseth também revogou a exigência de longa data das forças armadas relativa à vacina contra a gripe, uma ⁠decisão que foi revertida após um surto de gripe, enquanto o Departamento de Saúde e Serviços Humanos removeu 17 membros de seu painel consultivo sobre vacinas e alterou suas recomendações sobre vacinação.

Cinco ‌dos seis especialistas em saúde masculina contatados pela Reuters para esta reportagem disseram estar perplexos com o anúncio sobre os exames de testosterona e preocupados com a possibilidade de isso levar a tratamentos desnecessários — ou até mesmo prejudiciais.

Hegseth afirmou que os exames seriam acompanhados de orientações para ajudar os soldados a tomar decisões sobre o tratamento, que seria voluntário.

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Os objetivos, acrescentou ‌ele, são garantir que as tropas tenham os níveis adequados de testosterona para atuarem no seu melhor e ‌melhorar sua resiliência, longevidade e desempenho, de modo a garantir a prontidão de combate das forças armadas.

Quatro dos seis médicos afirmaram que não há evidências sólidas sugerindo que ⁠o rastreio de baixos níveis de testosterona em todo o pessoal militar com 30 anos ou mais otimizaria a prontidão dos EUA para o combate.

"Ouvimos de pacientes que, quando se trata a testosterona baixa, aspectos como o estado de alerta cognitivo e a resistência melhoram. Mas as evidências não são concretas e vêm de pacientes que foram tratados porque apresentavam sintomas", disse o Dr. Kevin McVary, urologista do conselho consultivo médico da Rugiet, uma plataforma de telessaúde que fornece suplementos de testosterona.

O Pentágono se recusou a comentar o assunto além de sua breve declaração oficial.

EXAMES RECOMENDADOS EM CASO DE SINTOMAS

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A Associação Americana de Urologia e a Sociedade de Endocrinologia recomendam a suplementação de testosterona apenas para pacientes com deficiência confirmada de testosterona e sintomas ‌como redução da libido, disfunção erétil, fadiga, diminuição da massa muscular e baixa densidade óssea.

A administração de testosterona sem a presença de sintomas clínicos leva ao tratamento excessivo, disse McVary, o que ‌pode ter suas próprias consequências adversas.

Os níveis diminuem naturalmente com ⁠a idade, a partir dos 30 anos. Mas ⁠os 30 anos, por si só, não são um ponto adequado para o rastreio, disse o Dr. Haleem Mohammed, diretor médico da rede de clínicas médicas e de bem-estar masculino Gameday Health.

"Há um ⁠declínio populacional de 1% ao ano após os 30-40 anos, que se acelera à medida que se envelhece", mas os ‌padrões não são os mesmos para todos, disse Mohammed.

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A ‌maioria dos estudos sobre reposição de testosterona foi realizada em homens mais velhos, observou o Dr. Ugis Gruntmanis, endocrinologista do Dartmouth Hitchcock Medical Center, que afirmou que a nova determinação oferece uma oportunidade para coletar dados sobre homens mais jovens.

Ele acrescentou, no entanto, que a implementação generalizada do rastreio sem dados de estudos preliminares seria como colocar a carroça na frente dos bois.

FDA RETIROU ALERTA

Com base, em parte, em um estudo liderado pelo Dr. Steven Nissen, da Cleveland Clinic, envolvendo mais de 5.200 homens com ⁠idades entre 45 e 80 anos com baixos níveis de testosterona e alto risco de doenças cardíacas, a Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) dos EUA revisou os rótulos dos medicamentos à base de testosterona para remover um aviso sobre o aumento dos riscos de ataque cardíaco ou derrame.

Os participantes, no entanto, apresentaram taxas mais elevadas de arritmia atrial — um ritmo cardíaco anormal — e fraturas ósseas, um achado que pode ter implicações para as forças armadas, disse Nissen.

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Todos os especialistas contatados pela Reuters também mencionaram o grave impacto da terapia com testosterona na fertilidade masculina.

"Muitos em nossas forças armadas são homens jovens que ainda não terminaram de ‌constituir família", disse McVary. "Se você simplesmente administrar a testosterona, os testículos encolherão. E não dá para contar com segurança que eles voltarão ao normal."

Outros riscos incluem espessamento do sangue, problemas na próstata, acne, queda de cabelo, crescimento do tecido mamário e instabilidade de humor.

Em seu anúncio, Hegseth disse que um dos objetivos da nova exigência de rastreio é ⁠abordar de forma abrangente a Síndrome do Operador, que afeta combatentes das forças especiais como membros da Delta Force e dos Navy SEALs, e inclui baixos níveis de testosterona, além de lesão cerebral traumática, desregulação hormonal e metabólica, distúrbios do sono e outras doenças.

Mas os operadores das forças especiais não são representativos de todos os membros da ativa e da reserva, disse o Dr. B. Christopher Frueh, da Universidade do Havaí, cuja equipe descreveu a síndrome pela primeira vez em 2020.

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"Esses operadores estão em um extremo do espectro", disse Frueh. "Eles estão muito mais expostos a explosões, saltos de paraquedas, disparos de todos os tipos de armas, foguetes e metralhadoras."

Outros soldados podem apresentar alguns sintomas da síndrome, disse ele, "mas deveríamos examinar 100% de todos? Talvez. Não sei."

Ele acredita que muitos soldados mais jovens poderiam regular os hormônios por meio do sono, do descanso e da alimentação para elevar novamente os níveis de testosterona, em vez de recorrer à terapia de reposição.

Ainda assim, os profissionais da área médica enfatizam os benefícios potenciais de exames adequados de testosterona, assim como acontece com outras formas de exames médicos.

Mohammed, da Gameday Health, disse que reservistas militares na população em geral podem estar acima do peso, outro fator corrigível que pode contribuir para a baixa testosterona.

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"A testosterona é um dos exames de sangue mais úteis que temos para avaliar a saúde dos homens", disse Mohammed. "Um rastreio mais amplo identificaria muitos homens com causas reversíveis e alguns com deficiência real. Ambos os grupos se beneficiariam de cuidados orientados por médicos, seja corrigindo causas reversíveis ou iniciando tratamento quando for realmente necessário."

O Pentágono não forneceu orientações detalhadas sobre como os resultados anormais dos exames serão avaliados ou se os exames se aplicarão igualmente a homens e mulheres.

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