Escassez de combustível afeta a Rússia, mas será suficiente para fazer Putin mudar de estratégia na Ucrânia?

Mesmo em Moscou, as autoridades não conseguem garantir o abastecimento. Mas a pressão econômica levará a negociações ou a uma escalada da guerra?

18 jul 2026 - 19h04
A crise de combustíveis na Rússia tem provocado longas filas diárias nos postos de gasolina
A crise de combustíveis na Rússia tem provocado longas filas diárias nos postos de gasolina
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Se você quiser entender como a crise de combustíveis atinge a Rússia, basta passar um dia dirigindo por Moscou, a capital do país. Em praticamente todos os postos de gasolina por onde a BBC passou havia filas de carros e caminhões. Algumas eram longas, outras curtas; algumas mal andavam, enquanto outras avançavam aos poucos.

Quando não havia fila, era porque o posto tinha ficado sem combustível e estava fechado.

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Vale lembrar: esta é Moscou, a rica e populosa capital russa que concentra boa parte dos recursos do país. Mesmo ali, as autoridades não conseguem garantir gasolina e diesel suficientes para manter os motoristas abastecidos.

Nas filas, havia mais frustração do que revolta. Yekaterina disse que estava "insatisfeita" e que havia "pânico porque todo mundo acha que o combustível vai acabar". Mas, segundo ela, tudo ficará bem. "Só precisamos reorganizar a distribuição de combustível."

Para Elmar, a situação era "muito ruim". Ele reclamou da alta dos preços à medida que os estoques diminuem. "Você perde horas para conseguir abastecer", afirmou. "Estou planejando uma viagem para o Daguestão, mas não sei se devo ir de carro por causa de todos esses problemas com combustível."

Perguntei a ele quem era o responsável pela situação. "No nosso país, não se pode dizer o que é culpado nem quem é culpado", respondeu, com um sorriso malicioso.

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Na Rússia, criticar em público o presidente, Vladimir Putin, ou mesmo o Kremlin, sede e metonímia do governo russo, não é algo que a maioria das pessoas se sinta à vontade para fazer.

Valery disse achar estranho enfrentar filas em um país que produz tanto petróleo. Para ele, a culpa é tanto da falta de preparação da Rússia quanto dos mísseis ucranianos. "Não quero me acostumar com filas", afirmou. "Espero que a situação mude logo e não continue assim."

Para muitos russos, a guerra está ficando cada vez mais próxima do cotidiano.

Putin tem se esforçado para poupar a maior parte da população das consequências do que chama de "operação militar especial" (no caso, a invasão em larga escala da Ucrânia), que já entra em seu quinto ano. Nas ruas de Moscou, há poucos sinais de conflito, apenas alguns cartazes exaltando soldados apresentados como heróis.

Drones e mísseis ucranianos têm atacado refinarias de petróleo na Rússia, incluindo unidades próximas a Moscou
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Mas o que tem sido mais difícil para as autoridades ignorarem é o número cada vez maior de ataques ucranianos com drones e mísseis em pleno território russo. Os alvos incluem refinarias de petróleo, enquanto explosões já escureceram o céu de Moscou e de São Petersburgo.

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A isso se somam os bloqueios da internet, que restringem a circulação de informações, e, agora, a escassez de combustíveis.

A Rússia, um dos maiores produtores de petróleo do mundo, enfrenta dificuldades para refinar combustível suficiente para atender à demanda interna.

Andrei, que enfrentava a fila pela primeira vez ao lado da esposa, Yekaterina, atribuiu a crise ao que chamou de "geopolítica" e reconheceu que a situação pode piorar.

"Esperamos que todos os lados comecem a se aproximar e discutam as condições para um acordo de paz", afirmou. "Mas, infelizmente, não vemos isso por parte dos nossos parceiros europeus. Então talvez a situação só piore."

Mesmo assim, ele se mostrou resignado. "Nós sobrevivemos aos anos 1990. Lembramos de tempos muito mais difíceis. Isso não nos assusta."

Andrei acredita que a situação pode piorar e atribuiu a crise à "geopolítica"
Foto: BBC News Brasil

As redes sociais estão repletas de imagens de motoristas em filas para abastecer. Em alguns casos, os congestionamentos se estendem por quilômetros. Há também publicações que mostram brigas entre motoristas.

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Na cidade turística de Anapa, às margens do Mar Negro, cossacos que integram grupos paramilitares tradicionais ligados ao Estado russo foram mobilizados para manter a ordem nas filas.

O racionamento já é adotado em muitas regiões, e várias delas proibiram o uso de galões para armazenar combustível. Em uma cidade da Sibéria, o prefeito providenciou banheiros químicos para os motoristas que aguardam para abastecer. Em algumas áreas, serviços de ônibus e de coleta de lixo foram reduzidos. Agricultores temem que a crise comprometa a colheita deste verão.

A preocupação é real e disseminada.

Mas será que os líderes da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) reunidos na Turquia podem esperar que essa turbulência econômica se transforme em pressão política sobre a Rússia?

Essa é, certamente, a expectativa da Ucrânia, onde estrategistas apostam que os russos ficarão tão exasperados que passarão a pressionar Putin a encerrar a guerra.

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A Rússia acompanha a situação de perto. Putin demonstrou preocupação suficiente para abordar publicamente a escassez de combustíveis na TV estatal. Ele reconheceu que os ataques ucranianos "obviamente estão criando problemas", mas insistiu que a situação "não é crítica".

Ainda assim, as autoridades não querem correr riscos. O governo já começou a aumentar as importações de combustíveis, subsidiar os preços e autorizar a venda de combustíveis de qualidade inferior, que, segundo alguns especialistas, podem danificar os motores.

Putin e seus assessores também sabem que a crise está influenciando a opinião pública.

A pesquisa mais recente do instituto independente Centro Levada mostra que a aprovação de Putin caiu para cerca de 74%. O levantamento também indica que a parcela dos russos que acredita que o país está no caminho certo recuou de 61%, em maio, para 52%.

Na semana passada, o instituto Gallup apontou que os russos estão mais pessimistas em relação à economia do que em qualquer outro momento dos últimos 20 anos. Segundo a pesquisa, 60% dos entrevistados afirmaram que as condições econômicas na região onde vivem estão piorando.

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Até mesmo o instituto nacional de pesquisas de opinião da Rússia, o Vtsiom, ligado ao governo, indicou que a confiança em Putin caiu 3,4 pontos percentuais em apenas uma semana, para 73%.

Para Christopher Weafer, diretor da consultoria Macro Advisory, a crise dos combustíveis pode representar um "divisor de águas" para o crescimento da economia russa.

"Os custos da guerra estão aumentando", afirma Weafer. "Embora o impacto total da crise dos combustíveis só deva aparecer nas estatísticas de julho, a possibilidade de que ela se prolongue reduz significativamente as perspectivas de crescimento para o restante do ano."

Nina Khrushcheva afirma que a esperança de países europeus de forçar Putin a negociar é uma fantasia
Foto: BBC News Brasil

Mas será que tudo isso vai se traduzir em pressão política sobre a Rússia para mudar de rumo?

Nina Khrushcheva, professora de relações internacionais da The New School, em Nova York, nos Estados Unidos, disse em entrevista à BBC que é pouco provável que Putin recue.

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"Quanto mais pressionado ele se sentir, maior a probabilidade de agir de forma agressiva e repressiva", afirmou Khrushcheva. "Acho que a situação é séria, mas a expectativa no Ocidente de que os russos simplesmente derrubem o regime está muito distante da realidade."

Segundo Khrushcheva, os russos sentem muita raiva e desespero, mas também "muita resignação diante do que está acontecendo". Para ela, a esperança de governos europeus de que conseguirão forçar Putin a negociar "é uma fantasia, isso simplesmente não acontece".

Pelo contrário, todos os sinais indicam que Putin está endurecendo ainda mais a sua posição.

Na última sexta-feira (3/7), Putin apareceu usando uniforme militar durante uma reunião com comandantes, na qual afirmou que as tropas russas estão obtendo vitórias na linha de frente e prometeu conquistar ainda mais território.

"As Forças Armadas da Rússia continuam mantendo, com confiança, a iniciativa estratégica na zona da operação militar especial", declarou Putin.

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Em seguida, Putin orientou seus comandantes a analisar o envolvimento dos aliados europeus da Ucrânia no que chamou de "ações reais de combate", que, segundo ele, estariam prolongando a guerra. "Precisamos dessa análise para tomar decisões responsáveis no futuro", afirmou, sem dar mais detalhes.

A declaração chamou a atenção de diplomatas e analistas militares.

A pergunta que circula nas capitais ocidentais é: qual será o próximo passo de Putin? Ele vai escalar o conflito? E, em caso afirmativo, de que forma?

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