Mafioso diz que Cosa Nostra quis culpar esquerda por ataques para favorecer Berlusconi

Giovanni Brusca fez revelações sobre atentados contra Falcone e Borsellino

9 set 2026 - 10h10
(atualizado às 11h13)
Resumo
Em depoimento à Justiça, o mafioso Giovanni Brusca afirmou que a Cosa Nostra planejou culpar a esquerda pelos atentados de 1992 e 1993 na Itália, que mataram os juízes Falcone e Borsellino, para favorecer a ascensão política de Silvio Berlusconi. Ele declarou que a máfia tentou usar os ataques como ferramenta eleitoral em troca de apoio futuro do empresário, intermediado por aliados. Há décadas a Justiça apura supostas ligações com o ex-premiê, cujos familiares negam qualquer relação criminosa.

O mafioso italiano Giovanni Brusca afirmou nesta quarta-feira (9), durante uma audiência judicial em Florença, que a Cosa Nostra considerou culpar a esquerda italiana pelos atentados de 1992 e 1993, na qual, entre outras coisas, os promotores Giovanni Falcone e Paolo Borsellino foram assassinados, com o objetivo de favorecer a ascensão política do empresário e magnata da comunicação Silvio Berlusconi.

    Brusca prestou depoimento por videoconferência, a partir de um local protegido, no julgamento de Salvatore Baiardo, acusado de difamação contra o apresentador de televisão Massimo Giletti.

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    A declaração ocorreu quando o promotor Leopoldo De Gregorio questionava o ex-mafioso sobre as relações entre a Cosa Nostra e o mundo político.

    "Após os atentados de 1992 e 1993, em conversas com [o chefe da Cosa Nostra que estava preso, Leoluca] Bagarella, dissemos que deveríamos usá-los como ferramenta política, como se tivessem sido sugeridos pela esquerda", afirmou Brusca.

    Segundo ele, a intenção seria "ajudar Berlusconi e direcionar sua entrada na política". Ele situou essas conversas em 1994.

    A campanha de atentados mencionada por Brusca ocorreu após a confirmação, pela Suprema Corte italiana, das condenações de mais de 300 integrantes da máfia no chamado Maxi-Processo contra a Cosa Nostra. Entre os episódios mais violentos estavam os assassinatos dos magistrados Falcone e Borsellino.

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    Brusca afirmou ainda que Vittorio Mangano, mafioso que mantinha relações com o círculo de Berlusconi, teria servido como intermediário para transmitir uma mensagem ao empresário.

    De acordo com o depoimento, Mangano informou aos chefes mafiosos que havia conseguido estabelecer contato com Berlusconi, diretamente ou por meio de Marcello Dell'Utri, então próximo do empresário.

    Brusca disse ainda que, de acordo com o relato recebido, Berlusconi teria agradecido e afirmado que ajudaria a organização assim que pudesse.

    O ex-mafioso acrescentou que a Cosa Nostra também teria feito uma ameaça indireta: caso Berlusconi não colaborasse, a organização poderia realizar novos atentados com o objetivo de prejudicá-lo politicamente.

    Brusca, entretanto, afirmou que não tinha conhecimento direto das transações financeiras do ex-premiê antes de 1993 e disse que posteriormente ouviu, de maneira geral e por meio de conversas com outros chefes mafiosos, informações sobre negócios e investimentos do empresário.

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    Durante o depoimento, o mafioso também mencionou um projeto político denominado "Sicilia Libera", criado na Sicília entre 1993 e 1994, no qual chegou a participar inicialmente da iniciativa, mas decidiu abandoná-la depois que duas pessoas de sua confiança investigaram o projeto e lhe transmitiram informações negativas.

    Brusca afirmou ter sabido posteriormente que Giuseppe Graviano, um dos mais importantes chefes da Cosa Nostra, havia aderido inicialmente ao projeto. Ele também citou conversas envolvendo Matteo Messina Denaro, outro dos principais líderes mafiosos da organização.

    Segundo o italiano, após a prisão de Bagarella, em 1995, integrantes da Cosa Nostra se reuniram e, durante uma partida de pôquer, Messina Denaro teria contado que Graviano havia visto Berlusconi usando um relógio avaliado em 500 milhões de liras.

    Brusca relatou que essa foi a primeira vez que ouviu falar de um contato entre Graviano e Berlusconi.

    O depoimento também abordou o paradeiro dos irmãos Giuseppe e Filippo Graviano após os atentados de 1992. Brusca afirmou que viu os dois até o período do atentado de Capaci, no qual Falcone foi assassinado, e até dois ou três dias antes do massacre de Via D'Amelio, que matou Borsellino.

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    Depois disso, segundo ele, Messina Denaro revelou que os irmãos estavam no norte da Itália e levavam uma vida confortável.

    Brusca também relatou episódios relacionados à tentativa de localizar Balduccio Di Maggio, outro integrante da máfia que havia deixado a Sicília. Segundo seu relato, informações sobre o paradeiro de Di Maggio teriam sido obtidas por intermédio de um vendedor de sorvetes na região de Borgomanero.

    A semelhança entre a descrição desse vendedor e Salvatore Baiardo, que também trabalhava como vendedor de sorvetes na região, levou a juíza Anna Favi a pedir esclarecimentos durante a audiência. Brusca respondeu que não conhecia pessoalmente o homem e que só tomou conhecimento dele posteriormente.

    Há décadas, investigações e processos tentam esclarecer eventuais relações entre Berlusconi, Dell'Utri e integrantes da Cosa Nostra.

    Em junho, após um tribunal rejeitar uma investigação em Florença relacionada às alegações sobre a origem política dos atentados, Marina Berlusconi, filha mais velha do ex-primeiro-ministro, criticou a hipótese de que a violência mafiosa dos anos 1990 teria contribuído para a criação e a ascensão da Força Itália (FI).

    Ela classificou essa interpretação como uma teoria que alimentou décadas de "suspeitas, insinuações e campanhas difamatórias" contra seu pai e Dell'Utri.

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    Segundo Marina, as investigações produziram uma grande quantidade de documentos, mas não comprovaram as acusações.

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