Jean-Baptiste Breen, da redação da RFI em Paris
O evento gerou forte contestação popular. A principal acusação é que algumas empresas presentes estariam oferecendo imóveis situados na Cisjordânia ocupada, ou seja, em assentamentos israelenses considerados ilegais pelo direito internacional. Um dos principais indícios foi a menção, no site do evento, à região de Gush Etzion como área de interesse para potenciais compradores interessados em se estabelecer em Israel.
Localizado ao sul de Jerusalém e a oeste de Belém, Gush Etzion é um conjunto de assentamentos ilegais cuja expansão nas últimas duas décadas tem progressivamente isolado as cidades palestinas da região.
Diante das críticas, os organizadores removeram rapidamente essa menção do site e afirmaram que os expositores iriam apenas "fornecer informações sobre propriedades dentro da Linha Verde", fronteira estabelecida após a guerra de 1948-1949 que delimita o território de Israel. A presença israelense contínua além dessa linha foi declarada "ilegal" pela Corte Internacional de Justiça em 2024.
Apesar desse 'detalhe', o evento em Londres reuniu empresas imobiliárias promovendo imóveis nos territórios ocupados. Esse é, aliás, um fenômeno recorrente, que vem ganhando importância e visibilidade nos últimos anos. O site do evento londrino prometia "ofertas exclusivas" e exibia um mapa de Israel sem as fronteiras da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.
Diversos veículos, como Declassified UK, Middle East Eye e Sky News, obtiveram materiais promocionais distribuídos aos visitantes. Esses panfletos, também divulgados por ativistas nas redes sociais, identificam alguns expositores e contradizem o discurso dos organizadores.
Um deles promovia a empresa Harey Zahav, que já havia sido criticada em 2023 por divulgar projetos de construção na Faixa de Gaza. No evento em Londres, a empresa apresentou casas em áreas como Kfar Eldad e Teneh Omarim, que são, na realidade, assentamentos ilegais.
Esses empreendimentos também aparecem no site da empresa, que afirma se especializar em construções na "Judeia-Samaria", termo bíblico usado em Israel para designar a Cisjordânia e evitar a palavra colonização. A Sky News também identificou a presença da empresa Yigal Realty, que promovia uma "casa dos sonhos" em Givaat Zeev, outra colônia em expansão próxima a Jerusalém.
Jerusalém Oriental à venda
Outra empresa presente, a Jerusalem Real Estate Company, oferecia imóveis em Jerusalém, incluindo bairros situados em Jerusalém Oriental.
Embora a parte ocidental da cidade seja administrada por Israel, Jerusalém Oriental foi anexada de forma unilateral após a guerra de 1967, e a instalação de colonos ali também é considerada ilegal pelo direito internacional. Mesmo assim, panfletos distribuídos promoviam imóveis em colônias como French Hill e Ramat Eshkol. O site da empresa confirma a venda de vários imóveis nessas áreas.
Também presente no evento, a empresa Tivuch Shelly divulgou projetos imobiliários em colônias como Ramat Eshkol e Givat Hamatos. Uma publicação nas redes sociais sugere que materiais promocionais ocultavam referências a outras colônias ilegais, como Ma'ale Adumim. Procuradas, as empresas e patrocinadores do evento não responderam às solicitações da imprensa.
Número de eventos aumenta
Essas feiras não são excepcionais. Segundo o organizador Gidon Katz, da IMP International, 18 exposições foram realizadas em 2024, com previsão de até 20 em 2025. Esse crescimento é significativo em relação a apenas algumas por ano anteriormente.
Desde 2021, o evento se expandiu dos EUA para outros países, com edições em cidades como Nova York, Miami e até no Canadá. Empresas como Yigal Realty, Tivuch Shelly, Noam Homes e Selling Israel participam com frequência. Essas companhias oferecem imóveis em diversas colônias, como Efrat, Ariel e Mitzpe Yericho, e se apresentam como facilitadoras da "aliyah", a imigração de judeus para Israel.
A expansão geográfica desses eventos inclui também países como Austrália e Panamá. A França também recebe salões semelhantes, com participação de empresas que promovem imóveis tanto em Israel quanto nos territórios ocupados.
Motivações econômicas e críticas
Segundo a pesquisadora Clarisse Genton, esses eventos incentivam a imigração judaica ao apresentar oportunidades imobiliárias que são muitas vezes mais baratas nos assentamentos devido ao custo reduzido da terra, frequentemente obtida por expropriação de palestinos.
Ela estima que cerca de 70% dos colonos vivem nessas áreas por razões econômicas. A expansão dos assentamentos, afirma, cria um "fato consumado", tornando a situação potencialmente irreversível e moldando o território por meio da arquitetura e do urbanismo. Apesar de protestos, esses eventos raramente têm consequências políticas e evidenciam uma forma de impunidade diante da violação do direito internacional.
Com agências