Segundo a ONG Iran Human Rights (IRH), pelo menos 648 manifestantes teriam sido mortos desde 28 de dezembro, início do movimento de contestação contra o regime. A realidade pode ser ainda mais grave, teme a IHR, que menciona relatos ainda não confirmados com números que chegam a 6.000 mortos. A ONG Hrana, sediada nos Estados Unidos, informa que houve 10 mil prisões pelas forças de segurança.
Donald Trump anunciou nesta segunda-feira (12) que qualquer país que comercializar com o Irã será atingido por tarifas de 25%. A decisão é definitiva" e "entra em vigor imediatamente", escreveu o presidente norte-americano em sua rede Truth Social. A medida pode atingir, entre outros, a China, principal parceiro comercial do Irã.
Resposta chinesa
Pequim afirmou nesta terça-feira (13) que vai defender "com firmeza" seus interesses diante do anúncio de Trump.
"Sempre entendemos que não há vencedores em uma guerra comercial, e a China vai salvaguardar de forma resoluta seus direitos e interesses legítimos", disse a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mao Ning, durante sua entrevista coletiva diária.
Os Estados Unidos e a China travaram, em 2025, após o retorno de Trump à Casa Branca, uma dura guerra comercial com impactos globais. Pequim respondeu às tarifas norte-americanas com impostos e medidas de retaliação, antes de uma trégua ao menos temporária firmada em outubro.
A porta-voz Mao Ning reiterou que a China é contrária a eventuais operações militares dos Estados Unidos no Irã. Questionada sobre a segurança de cidadãos chineses que vivem no país e de turistas chineses que viajam para lá, ela afirmou que Pequim acompanha "atentamente a evolução da situação".
"Tomaremos todas as medidas necessárias para proteger a segurança dos cidadãos chineses", disse a porta-voz.
Bloqueio da internet e repressão
O bloqueio da internet imposto pelas autoridades iranianas em 8 de janeiro já dura mais de quatro dias e meio, informou na manhã desta terça-feira a ONG de monitoramento de cibersegurança Netblocks. "Um corte nacional da internet no Irã que isola os iranianos do resto do mundo e também uns dos outros", afirmou a organização.
A repressão às manifestações no Irã atinge um povo "sem defesa", que precisa do apoio da comunidade internacional para "dar fim" ao poder vigente, afirmou o cineasta iraniano Jafar Panahi, vencedor da Palma de Ouro no último Festival de Cannes.
"O povo iraniano está hoje indefeso e, apesar de tudo, está nas ruas", disse o diretor à rádio France Inter nesta terça, ao denunciar a brutalidade da repressão.
O chanceler alemão, Friedrich Merz, avaliou nesta terça-feira que o regime no Irã vive seus "últimos dias e semanas".
Ontem, na tentativa de retomar o controle das ruas, as autoridades iranianas organizaram atos de apoio de grande porte em várias partes do país. Atendendo a um chamado do presidente Massoud Pezeshkian, milhares de pessoas se concentraram, segundo imagens da TV estatal, na praça da Revolução, no centro de Teerã, em apoio ao regime, que enfrenta um de seus maiores desafios desde a proclamação da República Islâmica, em 1979.
A mobilização representou um "aviso" aos Estados Unidos, reagiu o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. Na capital, entre bandeiras da República Islâmica e gritos de "morte à América", a multidão fez orações em homenagem a integrantes das forças de segurança mortos no que o governo chama de "distúrbios". Dezenas morreram, segundo a imprensa iraniana.
O Irã trava uma guerra contra "terroristas", afirmou no local o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, que ameaçou impor a Donald Trump uma lição "inesquecível" em caso de ataque norte-americano.
Atos semelhantes ocorreram em várias cidades, de acordo com a mídia oficial, enquanto o governo decretou três dias de luto nacional.
Forçados a fazer propaganda oficial do governo
Desde o corte das telecomunicações imposto pelo regime, as únicas informações disponíveis vêm de veículos alinhados ao governo. Segundo a organização Repórteres sem Fronteiras, esses meios difundem exclusivamente a propaganda oficial do Estado.
Mas o uso da mídia pelo regime vai além. De acordo com a Anistia Internacional, há duas semanas o governo iraniano vem obrigando famílias de vítimas da repressão a aparecer nos veículos oficiais para atribuir as mortes a acidentes ou aos próprios manifestantes. A prática não é nova: a Federação Internacional de Direitos Humanos registrou mais de 860 confissões forçadas de opositores ou conteúdos difamatórios exibidos por esses meios entre 2009 e 2019. São confissões encenadas, cujo objetivo é silenciar vozes dissidentes e justificar a repressão.
Com o bloqueio das comunicações, as poucas informações não oficiais chegam de forma esparsa e com atraso de até 24 horas, segundo o diretor da ONG Iran Human Rights. Ele teme, assim como outras organizações, que esteja em curso um massacre a portas fechadas.
Prontos para a "guerra"
Ao mesmo tempo, denuncia a ONG Iran Human Rights (IHR), a repressão ao movimento iniciado em 28 de dezembro contra a crise econômica — e que agora desafia abertamente o regime — se intensifica.
Em um vídeo autenticado no domingo pela AFP, aparecem dezenas de corpos envolvidos em sacos pretos diante de um necrotério da capital, além do que parecem ser iranianos à procura de parentes desaparecidos.
O Centro para os Direitos Humanos no Irã (CHRI), com sede em Nova York, afirmou no domingo que os hospitais estão "sobrecarregados" com a chegada de manifestantes feridos e que os estoques de sangue diminuem rapidamente.
Em Paris, o presidente francês, Emmanuel Macron, condenou a "violência de Estado" que "atinge cegamente" os manifestantes. Londres classificou a repressão como "horrível" e pediu a "cessação imediata das violências". A União Europeia afirmou que avalia "novas sanções, mais severas" contra o Irã.
Em sintonia com Teerã, Moscou denunciou as "tentativas de ingerência externa". A Espanha convocou nesta terça-feira o embaixador iraniano para "condenar" a situação atual, anunciou o governo espanhol.
As autoridades iranianas convocaram na segunda-feira (12) os embaixadores ou encarregados de negócios da Alemanha, França, Itália e Reino Unido em Teerã para protestar contra o apoio demonstrado aos manifestantes. Parte do pessoal diplomático não essencial da embaixada da França deixou o país, segundo duas fontes a par do assunto.
Após as reiteradas ameaças de Donald Trump, o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, afirmou que seu país "não busca a guerra", mas está "plenamente preparado" para ela, ao mesmo tempo em que manteve aberta a possibilidade de negociações.
Com AFP