As delegações dos Estados Unidos e do Irã se preparam para as negociações de paz previstas para este fim de semana no Paquistão, em meio a expectativas sobre um possível avanço diplomático, mas também dúvidas sobre se há condições para um acordo entre as partes.
As conversas acontecem após o início de um cessar-fogo de duas semanas anunciado pelos dois países na última terça-feira (7/4) e mediado pelo Paquistão.
O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, afirmou que as conversas serão um momento de "tudo ou nada" para uma possível resolução da guerra.
Em um discurso transmitido em rede nacional nesta sexta-feira (10/4), Sharif disse que representantes dos dois países estarão em Islamabad, capital do Paquistão, para iniciar as conversas no sábado.
Ele afirmou que a cúpula é um momento de orgulho não apenas para o país, que media as conversas, mas para o "mundo muçulmano".
Como anfitrião das negociações entre EUA e Irã, o governo paquistanês tem adotado um tom otimista, enfatizando que, ao contrário de muitos outros, goza da confiança de ambos os lados.
Mas ainda não está claro se existe uma solução para agradar os dois lados.
A delegação iraniana chegou esta tarde a Islamabad. O presidente do parlamento do Irã, Mohammad-Bagher Ghalibaf, vai liderar as negociações.
As pré-condições apresentadas por ele — um cessar-fogo no Líbano e o descongelamento de bilhões de dólares em ativos iranianos — dão uma indicação da complexidade que os negociadores agora enfrentam.
Segundo ele, as medidas teriam sido acordadas entre as partes, embora não esteja claro em qual acordo isso teria ocorrido.
O chefe da delegação americana, o vice-presidente JD Vance, disse estar animado para as negociações.
"Se os iranianos estiverem dispostos a negociar de boa fé, certamente estaremos dispostos a estender a mão", afirmou antes de deixar os EUA nesta sexta.
Mas também alertou: "Se tentarem nos enganar, descobrirão que a equipe de negociação não será tão receptiva."
Já Donald Trump afirmou em uma publicação na rede social que a única razão pela qual os iranianos "estão vivos hoje é para negociar".
Mais cedo, o presidente americano sugeriu, em uma entrevista ao New York Post, que as forças navais americanas estão preparadas caso as negociações de paz com o Irã fracassem.
"Estamos carregando os navios com as melhores armas já fabricadas, até mesmo de nível superior às que usamos para causar uma aniquilação completa. E se não houver um acordo, usaremos essas armas, e as usaremos com muita eficácia", afirmou.
Cessar-fogo no Líbano
A campanha em curso de Israel contra o Hezbollah, grupo paramilitar apoiado pelo Irã no Líbano, ameaça inviabilizar as negociações antes mesmo de começarem.
Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 350 pessoas morreram desde que Israel lançou uma série de ataques no Líbano na quarta-feira (8/4).
O Irã afirma que os ataques representam uma grave violação do cessar-fogo acordado com os EUA. Já os americanos e Israel afirmam que o Líbano nunca esteve incluído no acordo.
"A continuidade dessas ações tornará as negociações sem sentido", escreveu o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, no X.
"Nossos dedos permanecem no gatilho. O Irã nunca abandonará seus irmãos e irmãs libaneses."
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirma que "não há cessar-fogo" em relação ao Hezbollah, mas os repetidos avisos de Israel aos moradores dos subúrbios do sul de Beirute para evacuarem a região ainda não resultaram em novos ataques.
Donald Trump diz que a atuação de Israel no Líbano será agora "um pouco mais discreta", e o Departamento de Estado americano afirma que negociações diretas entre Israel e Líbano acontecerão em Washington na próxima semana.
A situação do Estreito de Ormuz
Outra questão com potencial para travar as negociações logo no início é a rota marítima do Estreito de Ormuz, por onde passa grande parte do petróleo mundial.
Na noite de quinta-feira, o presidente Donald Trump fez uma publicação nas redes sociais acusando o Irã de fazer um "trabalho muito ruim" e até mesmo "desonesto" em relação à passagem de navios no estreito.
"Esse não é o acordo que temos!", afirmou.
Pouquíssimos navios estão conseguindo passar pelo Estreito de Ormuz, com centenas de embarcações e cerca de 20 mil marinheiros ainda retidos dentro do Golfo.
Após ter consolidado seu domínio sobre essa rota marítima tão estratégica, o Irã parece determinado a formalizá-lo, chamando o estreito de águas soberanas iranianas e falando sobre um novo conjunto de regras para regular o que pode ou não passar por ali.
Na quinta-feira, o Irã anunciou a criação de rotas alternativas de trânsito ao norte dos dois canais de separação de tráfego já existentes. Em comunicado, a Guarda Revolucionária afirmou que as novas rotas eram necessárias "devido aos riscos de minas navais" no Estreito de Ormuz.
Em meio a relatos de que alguns navios que conseguiram passar nas últimas semanas pagaram uma taxa de 2 milhões de dólares (cerca de R$ 10 milhões), Trump alertou que "era melhor que o Irã não estivesse cobrando taxas de petroleiros".
Representantes de 41 países vão se reunir na próxima semana como parte de esforços liderados pelo Reino Unido para ajudar na reabertura do Estreito de Ormuz.
"Estamos pressionando fortemente por um mecanismo para reabrir o estreito", disse uma fonte do governo.
"Como temos uma presença diplomática muito ampla e boas relações com países de médio e pequeno porte, podemos ajudar a coordenar esses esforços."
Programa nuclear
Talvez o maior — e certamente o mais antigo — ponto de discórdia é a questão nuclear.
Trump afirmou que lançou a Operação Epic Fury, em parte, para garantir que o Irã "nunca possa ter uma arma nuclear".
O Irã diz que nunca buscou construir uma bomba — uma alegação que a maioria dos governos ocidentais trata com grande ceticismo — mas insiste que, como signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear, tem o direito de enriquecer urânio para fins civis.
A proposta de 10 pontos do Irã, que Trump descreveu como "uma base viável para negociação", inclui a exigência de reconhecimento internacional do seu direito ao enriquecimento.
Já o plano de 15 pontos dos EUA, segundo relatos, exige que o Irã "encerre todo o enriquecimento de urânio em território iraniano". Mas, questionado sobre isso nesta semana, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou apenas que o Irã "nunca terá uma arma nuclear ou a capacidade de chegar a esse ponto".
Levaram anos para que negociadores internacionais chegassem ao Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA) de 2015, que abordou essa questão espinhosa em detalhes minuciosos.
A questão agora é: os dois lados estão prontos para discutir um novo acordo?
Aliados regionais do Irã
A rede de aliados regionais e grupos armados do Irã — o Hezbollah no Líbano, os Houthis no Iêmen, o Hamas em Gaza e diversas milícias no Iraque — deu a Teerã influência regional, permitindo ao país exercer o que muitas vezes é chamado de "defesa avançada" em seus conflitos de longa data com Israel e os Estados Unidos.
Desde o início da guerra em Gaza, em outubro de 2023, essa rede que o Irã chama de "Eixo da Resistência" tem sido alvo de ataques constantes. Uma de suas partes, o regime do antigo ditador sírio Bashar al-Assad, já não existe mais.
Mas Israel vê o que chama de "Eixo do Mal" como uma ameaça existencial, que precisa ser totalmente eliminada.
Em um momento em que a economia iraniana está enfraquecida, muitos iranianos também gostariam de ver seu governo gastando menos com aventuras no exterior e mais em melhorar suas próprias condições de vida.
Mas há poucos sinais, até agora, de que o Irã esteja disposto a abandonar seus aliados.
Alívio de sanções
O regime islâmico sofre há décadas com sanções internacionais. O Irã exige a suspensão de todas as sanções dos Estados Unidos e internacionais como parte de qualquer acordo.
Nesta sexta-feira, o presidente do parlamento, Mohammad Bagher Qalibaf, afirmou que cerca de US$ 120 bilhões (R$ 600 bi) em ativos iranianos congelados devem ser liberados antes do início das negociações.
Segundo ele, essa seria uma das duas medidas previamente acordadas (a outra é um cessar-fogo no Líbano).
Mas na terça-feira, quando o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, anunciou o cessar-fogo de duas semanas, ele não mencionou a liberação de ativos congelados.
Não está claro a que acordo Qalibaf se refere. E parece altamente improvável que o governo Trump esteja disposto a fazer uma concessão tão significativa apenas para iniciar as negociações.