Indústria gera crise hídrica nos arredores de Berlim

26 ago 2026 - 09h51
Resumo
A expansão industrial de empresas como Tesla e Red Bull, somada a projetos de mineração, tem gerado grave preocupação com a crise hídrica no estado de Brandemburgo, ao redor de Berlim. Moradores e especialistas alertam para a queda contínua dos lençóis freáticos e a falta de transparência nas concessões de água, que priorizam indústrias em detrimento da população durante as secas. O cenário evidencia a urgente necessidade de atualizar a gestão e as regras de distribuição dos recursos hídricos.

Apesar da seca, projetos da Tesla, da Red Bull e de uma mina de cobre devem consumir grandes quantidades de água, gerando preocupação com o meio ambiente e o abastecimento em área do estado de Brandemburgo.Para Petra Liesenfeld, as mudanças climáticas começam bem à sua porta. Há anos, o nível do lençol freático em sua cidade natal, Baruth, vem diminuindo constantemente. Ela agora precisa regar seu jardim com muito mais frequência do que antes, e algumas de suas árvores favoritas nas proximidades já secaram completamente. Os campos na região também estão mais secos do que antes. Ao mesmo tempo, duas empresas locais querem extrair ainda mais água para expandir sua produção de bebidas.

Brandemburgo, que já foi considerada uma região rica em água, se tornou uma das mais secas da Alemanha
Brandemburgo, que já foi considerada uma região rica em água, se tornou uma das mais secas da Alemanha
Foto: DW / Deutsche Welle

Isso levanta uma questão cada vez mais urgente: as reservas de água, que se tornam cada vez mais escassas, serão suficientes para todos?

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Red Bull e a água de Baruth

Desde a década de 1990, a água mineral é engarrafada na pequena cidade de Baruth, a cerca de 60 quilômetros ao sul de Berlim. No início de 2023, a Red Bull e a fabricante austríaca de bebidas Rauch assumiram o controle do local. Agora, as empresas querem expandir sua produção com uma nova fábrica de latas e outras instalações bem no meio de uma área de proteção hídrica.

A estação de tratamento de água de Baruth tem autorização para extrair uma quantidade fixa de água subterrânea a cada ano. Atualmente, 92% dessa quota está reservada para a Red Bull e a Rauch, enquanto apenas 8% se destinam ao abastecimento de água potável dos cerca de 4,3 mil habitantes da cidade. As empresas têm permissão para consumir anualmente uma quantidade de água que seria suficiente para atender às necessidades de água potável de 57 mil pessoas. Contudo, a quantidade efetivamente utilizada pela indústria não é divulgada publicamente.

Peter Ilk, que até há algumas semanas era o prefeito da cidade e é considerado um dos principais impulsionadores da industrialização da região, assegura que a situação está de acordo com as leis e com os contratos existentes. Ele diz não haver nenhum problema com a gestão da água.

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"Sempre priorizamos o abastecimento da população. Isso também está estipulado em todos os contratos", diz ele, acrescentando que não é nenhuma surpresa que a indústria consuma significativamente mais água do que os moradores.

A hidrogeóloga Irina Engelhardt, da Universidade Técnica de Berlim, vê a situação com ceticismo. Os relatórios técnicos e contratos que fundamentam os direitos de água atuais datam da década de 1990. Desde então, afirma, os níveis de água subterrânea, a recarga dos aquíferos e os padrões de uso da terra sofreram mudanças significativas.

"Observo com alguma preocupação a evolução dos recursos hídricos no estado de Brandemburgo", afirmou. O problema, segundo ela, é que "as autoridades de Brandemburgo estão superestimando a quantidade real de recursos hídricos disponíveis".

Juntamente com uma iniciativa da sociedade civil, ela exige novos relatórios técnicos independentes. Há também críticas à ocultação de partes dos documentos de monitoramento pelas autoridades. Supostamente, isso visa proteger, entre outras coisas, a localização exata dos poços de onde a indústria extrai água. No entanto, alguns cidadãos suspeitam que o objetivo principal seja omitir informações sobre as mudanças nos níveis de água subterrânea.

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"Nos perguntamos por que não pode haver mais transparência se tudo está realmente em ordem. Por que o público não tem permissão para saber?", questiona Petra Liesenfeld. Também não se sabe ao certo quanto a Red Bull e a Rauch pagam pela extração diária permitida de até 7 milhões de litros de água subterrânea.

Para o pesquisador de secas Andreas Marx, a falta de transparência é problemática. "A água é, por lei, um bem comum não privado. Do meu ponto de vista, seria sensato que todas as decisões e todos os contratos firmados fossem de acesso público", afirma.

Brandemburgo cada vez mais seco

O estado de Brandemburgo, que circunda Berlim, está ficando sem água? Especialistas acreditam que ainda não.

"A Alemanha e Brandemburgo ainda são regiões ricas em água. Não se trata de gerir uma situação de seca permanente agora, mas de gerir situações de seca durante dois ou três anos no futuro", diz Marx, que dirige o monitor da seca no Centro Helmholtz de Investigação Ambiental.

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No entanto, o equilíbrio hídrico na região, assim como em outras partes da Alemanha, vem mudando cada vez mais visivelmente. Desde os anos de seca que começaram em 2018, as águas subterrâneas já não são reabastecidas de forma adequada em muitos locais. O aumento das temperaturas e da evaporação dificulta a recuperação das reservas existentes nas camadas mais profundas do solo.

"Isso significa: o sistema está decaindo, está mudando. Vemos áreas onde o nível das águas subterrâneas caiu 2 metros nos últimos vinte anos", diz Engelhardt. Isso poderá causar ainda mais problemas no futuro, porque 95% da água potável em Brandemburgo provém das águas subterrâneas.

Os lagos alimentados por águas subterrâneas também estão mudando. Heike Christoph mora próximo ao lago Kleiner Kolpiner See há mais de 30 anos. Quando criança, ela patinava ali no gelo, mas hoje, segundo suas observações, o lago perdeu até 1,50 metro de profundidade. "Mesmo quando ainda vemos ali uma área de água, há no máximo 20 ou 30 centímetros de profundidade", diz ela.

Quanta água exige a transição energética?

A poucos quilômetros a leste de Grünheide encontra-se a Gigafactory da fabricante de automóveis elétricos Tesla.

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A fábrica tem autorização para retirar até 1,4 milhão de metros cúbicos de água por ano e planeja ampliar a produção para até 7,5 mil veículos por semana.

Muitos moradores questionam por que são regularmente incentivados a poupar água enquanto os grandes projetos industriais continuam a se expandir. "Muitos projetos, escolas e jardins de infância que deveriam ser construídos, ficaram suspensos porque não havia água disponível", lembra a moradora local Manu Hoyer.

Andreas Marx explica que quando os recursos hídricos ficam escassos, os cidadãos são frequentemente os primeiros a sofrer restrições.

"Os que normalmente são restringidos são os usuários privados de água, simplesmente porque assim é mais fácil. As indústrias raramente enfrentam restrições, em parte porque as consequências econômicas são difíceis de avaliar", explica o especialista.

A Tesla e as outras empresas com elevado consumo de água são exemplos de um conflito fundamental. Por um lado, elas criam empregos e investimentos, mas, por outro, também podem aumentar a pressão sobre os recursos locais.

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Extração de cobre: risco para as águas subterrâneas?

Problemas adicionais para os rios da região podem surgir em breve um pouco mais ao sul, em Spremberg, onde o cobre - matéria-prima crucial para redes elétricas, carros elétricos e energias renováveis - está previsto para ser extraído a profundidades de até 1,2 mil metros.

O engenheiro geotécnico Michael Pfeifer alerta para os possíveis riscos ao abastecimento hídrico. A água proveniente das minas a essa profundidade é altamente salina e sulfurosa, exigindo um extenso processo de purificação.

"A estação de tratamento de água atualmente planejada é desproporcional ao esforço realmente necessário para limpar a água a ponto de torná-la segura para ser despejada no rio Spree", afirma Pfeifer. O Spree flui daqui até Berlim. Suas águas já estão poluídas por décadas de mineração de linhita na região.

Com a eliminação gradual da extração de carvão prevista para ocorrer até 2038, a situação irá piorar. A água que tem sido bombeada das minas a céu aberto para o Spree deixará de fluir. Ao mesmo tempo, serão necessárias grandes quantidades de água para inundar as antigas minas a céu aberto. Especialistas preveem que, em verões secos, o Spree poderá transportar apenas um quarto do seu volume de água anterior, com consequências que se estenderão até Berlim.

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A corrida pelos recursos hídricos

Mineração, indústria e mudanças climáticas aumentam a pressão sobre os recursos hídricos em Brandemburgo. Uma possível solução seria a recarga artificial de aquíferos: o excesso de água proveniente de períodos de fortes chuvas é armazenado no subsolo e utilizado posteriormente.

A hidrogeóloga Irina Engelhardt avalia onde isso seria possível na região. "Existem áreas em Brandemburgo, como a área onde a Tesla está localizada atualmente, onde podemos atender quase totalmente às necessidades do abastecimento de água potável por meio da recarga artificial de aquíferos", afirma. Claro que, primeiro, é preciso haver água suficiente disponível.

Para Andreas Marx, a questão crucial permanece: segundo quais regras a água deve ser distribuída entre a população, a agricultura, a natureza e a indústria durante períodos prolongados de seca?

A Alemanha ainda não dispõe de regras claras para responder a essa pergunta. Nem mesmo o conceito de "seca" está definido na Lei de Recursos Hídricos. Isso representa um desafio para Brandemburgo, em um debate que se torna cada vez mais crucial em todo o mundo: como os preciosos recursos hídricos serão gerenciados e utilizados no futuro?

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