O gabinete do presidente da Itália, Sergio Mattarella, enviou um ofício ao Ministério da Justiça solicitando a apuração de supostas falsidades nos documentos que basearam o pedido de clemência da ex-dentista de Silvio Berlusconi e ex-deputada regional da Lombardia Nicole Minetti.
Ela havia sido condenada a dois anos e 10 meses de prisão por favorecimento à prostituição, após ter aceitado ficar responsável pela garota de programa Karima el Mahroug, a "Ruby", pivô do escândalo "bunga-bunga" e então menor de idade, para que ela fosse liberada de uma delegacia a pedido de Berlusconi, então primeiro-ministro, em 2010.
Em fevereiro passado, Mattarella concedeu perdão presidencial para Minetti, depois de um parecer favorável do Ministério da Justiça alegar que ela precisava estar livre para cuidar de um menor de idade gravemente doente, mas uma reportagem publicada pelo jornal Il Fatto Quotidiano lançou dúvidas sobre a veracidade dessa história.
A criança em questão é um menino adotado por Minetti e seu marido, Giuseppe Cipriani, no Uruguai, após ter sido supostamente abandonado no nascimento pela mãe. No entanto, segundo o diário italiano, a genitora vivia em condição de extrema pobreza, e o pai estava na cadeia, enquanto o pequeno morava em um orfanato.
Minetti e Cipriani teriam processado os pais biológicos do pequeno para obter sua guarda, e a mãe está desaparecida desde fevereiro, enquanto sua advogada foi achada carbonizada ao lado do marido em 2024.
Além disso, Il Fatto Quotidiano publicou que Minetti comandava um "rancho com prostitutas" em Maldonado, nos arredores de Punta del Este. A reportagem afirma que a propriedade recebia "noites de sexo pago", inclusive com visitas do financista pedófilo Jeffrey Epstein e da supermodelo britânica Naomi Campbell. Minetti, segundo o artigo do jornal, "escolhia as garotas" pessoalmente.
Para agravar a situação, o Hospital San Raffaele, de Milão, e o médico Luca Denaro, que foram mencionados nos documentos para obter o perdão a Minetti, vieram a público nesta terça-feira (28) para negar que tenham tido qualquer contato com o menino pivô do caso.
Reações
Em nota, Minetti desmentiu "categoricamente" que tenha processado os pais biológicos do menino uruguaio para obter a guarda e que todo o percurso de adoção "transcorreu no pleno respeito à lei". "As reconstruções difundidas por alguns órgãos de imprensa são infundadas e lesivas", disse ela, que prometeu processar os autores das reportagens.
A premiê Giorgia Meloni foi questionada sobre o assunto nesta terça-feira, em coletiva de imprensa, e expressou "confiança" em Nordio. "Descarto uma demissão. Conversei com o ministro ontem, e comecei a reconstruir o processo. Não posso dizer que tenha havido algo de errado", acrescentou.
Por sua vez, o vice-procurador do Tribunal de Apelação de Milão, Gaetano Brusa, que analisou o caso de Minetti, garantiu à ANSA que não havia "anomalias" no recurso da dentista e que o quadro que sustentava seu pedido de clemência estava "completo".
Já o Ministério da Justiça afirmou que nenhum dos "elementos negativos" relatados nos artigos de Il Fatto Quotidiano constava dos documentos referentes à solicitação de indulto e autorizou a Procuradoria de Milão a realizar novas verificações.
A clemência presidencial é um ato pelo qual uma pena é total ou parcialmente perdoada. Pode ser solicitada pelo condenado ou por pessoas próximas a ele. No caso de Minetti, ela o pediu por meio de seus advogados.
Em seguida, é aberto um processo para avaliar a solicitação, que é conduzida pelo procurador-geral de um tribunal de apelação, responsável por enviar um parecer ao Ministério da Justiça, que, por sua vez, emite sua posição e a envia ao presidente da República, a quem cabe a decisão final.
No caso de Minetti, tanto a Procuradoria quanto Nordio haviam dado parecer favorável ao perdão, o que motivou Mattarella a pedir esclarecimentos.