Guerra no Irã afeta planos de viagem de Lula aos EUA para encontro com Trump; leia bastidor

Ataque é mais um tema de desgaste entre os presidentes, e governo brasileiro prevê resistência prolongada em Teerã

3 mar 2026 - 12h08
(atualizado às 12h11)
Luiz Inácio Lula da Silva (PT), presidente da República
Luiz Inácio Lula da Silva (PT), presidente da República
Foto: Ricardo Stuckert / Presidência da República / Estadão

BRASÍLIA - A guerra dos Estados Unidos e de Israel com o Irã passou a ser uma variável na definição dos planos de visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Washington.

Lula tinha expectativa de realizar a viagem na segunda quinzena de março, para discutir principalmente a relação bilateral com Donald Trump, mas agora integrantes do governo já entendem que a duração do conflito pode atrapalhar o planejamento.

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A manutenção da visita depende da evolução da situação no Oriente Médio, segundo um integrante do governo. Se a guerra arrefecer, a viagem poderia ser mantida. Do contrário, com um potencial alastramento e envolvimento de países do Golfo em ações militares, bem como de outros aliados ocidentais, o cenário se complica. Nada foi decidido ainda.

Não há ainda sinais do fim dos ataques e retaliações. Ao contrário. O próprio Trump chegou a sugerir que a guerra vai durar ao menos quatro semanas. Ele acaba de enviar reforços aéreos e diz que uma "grande onda de ataques" está por vir. Mas o Irã promete prolongar e afirma que nenhuma autoridade americana ou israelense pode se considerar segura.

Há dois fatores principais no radar dos preparativos da viagem a Washington: o choque evidente de posições entre os presidentes sobre o bombardeio ao Irã - que se soma ao bloqueio a Cuba e ao ataque na Venezuela -, e o fato de o próprio Trump estar com foco voltado para a guerra e suas repercussões internas e externas com a continuidade da guerra.

A morte de mais soldados americanos e a morte de civis são ingredientes que podem demandar a atenção do republicano e deixar a conjuntura política mais complexa, avalia um membro do governo brasileiro.

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A oposição brasileira é clara. No próprio sábado, o governo divulgou um comunicado no qual "condena e expressa grave preocupação com os ataques realizados" com meios aéreos por EUA e Israel contra alvos no Irã, "em meio a um processo de negociação entre as partes".

Nesta segunda-feira, dia 2, o embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam Ghadiri, agradeceu ao governo Lula pela "valorosa" condenação do ataque. O embaixador afirmou que os contatos em curso sobre o programa nuclear e o programa de mísseis balísticos era uma "farsa". Ele disse que seu governo vai definir "no campo de batalha" as consequências do bombardeio americano e israelense.

O ex-chanceler Celso Amorim, Assessor Especial da Presidência da República e influente conselheiro em matéria de política externa, criticou a execução de Khamenei, disse que o Brasil deve "se preparar para o pior" e citou o potencial de alastramento do conflito em declaração ao canal de TV GloboNews.

Ele também mencionou a proximidade pretendida da visita do petista aos EUA. Na sexta-feira, dia 27, Trump disse que "se dá muito bem" com Lula e que "adoraria" recebê-lo na Casa Branca.

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"Estamos a poucos dias do encontro do presidente com Trump, em Washington. É sempre difícil encontrar o equilíbrio entre a verdade e a conveniência. Não perder a capacidade de diálogo sem comprometer a credibilidade exige destreza", afirmou Amorim.

Interlocutores da diplomacia dizem que não cabe ainda falar em adiamento, porque não chegou a ser batido um martelo sobre uma data concreta. Mas dizem que ao menos um reajuste da data pretendida pode ocorrer.

O presidente chegou a sugerir um encontro no dia 16 de março na Casa Branca, em viagem que poderia durar três dias. Não houve resposta conclusiva da presidência americana. O cenário de março era a expectativa até antes dos bombardeios, na madrugada de sábado, dia 28, embora já se falasse no governo brasileiro de que realizar o encontro em abril era uma possibilidade.

Do lado da diplomacia americana, também há percepção de indisposição entre Lula e Trump por causa da guerra. A visita pode ficar para depois de uma reunião no Brasil para discutir cooperação em minerais críticos e terras raras, prioridade da diplomacia trumpista. O evento vai ocorrer nos dias 18 e 19 de março, em São Paulo.

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Distância

Um interlocutor do Palácio do Planalto argumentou que o problema pode ser mais logístico e do que de segurança. Ele minimizou a divergência entre ambos, já explícita no caso concreto do Irã, e o fato de que a visita de Lula seja lida como gesto de legitimação a Trump.

O petista queria se manter distante do conflito, sobretudo, por ser em outra região do mundo e não no entorno estratégico do Brasil. Antes de o bombardeio ser ordenado, Lula havia dito que não queria tratar do assunto com Trump e que o foco da viagem era a relação entre eles e os dois países diretamente. "Não sei, não sei", respondeu ao ser indagado na Coreia do Sul discutiria a ação militar contra Teerã com Trump. "Não estou preocupado sobre o que os EUA vão fazer com o Irã."

Por outro lado, o ataque consolidou a visão do Palácio do Planalto de que não há espaço político para que o presidente aceite participar do Conselho da Paz de Trump, agora visto como uma iniciativa desmoralizada. Segundo um embaixador, o ataque a Teerã foi a "pá de cal".

Brics

O governo brasileiro diz que a posição brasileira é única, em termos de condenação explícita, entre as grandes democracias. Também foi notada a divisão no Brics, que inviabiliza qualquer articulação do bloco. O grupo do qual o Brasil participa é integrado por Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos - dois países bombardeados por Teerã.

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A China e a Rússia indicaram apoio ao Irã e condenaram o ataque, mas não fizeram mais promessas de apoio. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, disse que a participação no Brics "não inclui a obrigação de prestar assistência mútua em caso de agressão armada, e não há atualmente contatos dentro do grupo em relação ao Irã", reportou a agência estatal Ria Novosti.

A posição da Índia, atual presidente do Brics, também é complexa. Nova Délhi dialogou apenas com líderes dos países árabes com os quais mantém mais proximidade e foram alvejados por Teerã. O premiê Narendra Modi havia visitado Israel justo antes dos ataques. Ele telefonou ao primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e pediu a "cessação imediata das hostilidades".

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