O conflito no Oriente Médio desencadeou uma volatilidade que afeta tanto países com alta capacidade de absorção econômica quanto nações cuja dependência energética as deixa expostas a impactos imediatos. Da Europa ao Sudeste Asiático, governos se veem obrigados a adotar medidas emergenciais, a rever políticas energéticas e até a alertar a população para a possibilidade real de escassez.
Na França, o ministro da Economia, Roland Lescure, soou um dos alertas mais contundentes até agora. Segundo ele, o conflito está desencadeando "uma nova crise do petróleo" e, caso persista por mais algumas semanas, poderá se espalhar "de forma mais abrangente na economia e se tornar, no fundo, de natureza mais sistêmica". A avaliação reflete não apenas a volatilidade nos preços internacionais, mas também o risco de prolongamento da instabilidade em uma região que concentra boa parte do fornecimento mundial de petróleo e gás.
A tensão também se reflete do outro lado do planeta. Nas Filipinas, o presidente Ferdinand Marcos declarou nesta terça-feira estado de "emergência energética nacional", citando riscos imediatos ao abastecimento de combustível e à estabilidade da matriz energética. No decreto, ele destaca que o conflito no Oriente Médio representa um "perigo iminente" à segurança energética filipina, num contexto em que a economia do arquipélago é historicamente vulnerável a choques externos no setor.
Preços em alta
Se em países desenvolvidos o impacto se manifesta em incertezas e projeções alarmantes, em economias emergentes a crise já se traduz em medidas concretas e dolorosas. Bangladesh, que importa 95% de suas necessidades de petróleo e gás — principalmente dos países do Golfo —, foi forçado a anunciar um aumento de 79% no preço do querosene de aviação nesta terça-feira. Desde o início do conflito, o acúmulo da alta chega a 111%, segundo a Comissão de Regulação Econômica de Bangladesh. Com o fornecimento interrompido e a necessidade de racionar a distribuição, o país enfrenta um choque energético que afeta diretamente sua população de 170 milhões de habitantes.
O governo justifica os reajustes como consequência inevitável da escalada dos preços internacionais. "Tivemos que reajustar o preço do querosene de aviação pela segunda vez devido à alta dos preços no mercado global", declarou Jalal Ahmed, presidente da Comissão Reguladora de Energia de Bangladesh (BERC).
O impacto, porém, ultrapassa o setor aéreo. A Associação de Agências de Recrutamento Internacional de Bangladesh (BAIRA) alerta para consequências sociais severas, especialmente para os milhões de trabalhadores migrantes bengaleses que dependem de voos frequentes para o Oriente Médio. Com a queda do tráfego aéreo e o aumento das tarifas, muitos estão pagando valores que se tornam progressivamente inviáveis. "Este aumento nos preços do querosene é mais um golpe para esse setor", lamentou Shamim Ahmed Chowdhury Nomal, presidente da BAIRA.
Na avaliação da Associação de Operadores Aéreos de Bangladesh, porém, a medida é "injustificada". As empresas alegam que não há risco de escassez imediata de combustível e que o reajuste penaliza desnecessariamente o setor aéreo e seus usuários.
Enquanto isso, o preço internacional do petróleo segue sob tensão, e a perspectiva de uma crise sistêmica, como advertiu o governo francês, ganha força. Se o conflito persistir, as próximas semanas poderão definir a resiliência dos sistemas energéticos nacionais e a estabilidade econômica global, em um cenário que coloca o petróleo no centro das turbulências internacionais.
Com agências