"Eu prevejo que os valores das matérias‑primas começarão a subir ainda mais a partir de agora e que os preços dos alimentos comecem a avançar até o fim do ano. No ano que vem, eles vão aumentar com certeza ainda mais", declarou Torero à agência de notícias Reuters. Segundo ele, a repercussão do aumento no preço das matérias‑primas para o valor final dos alimentos leva cerca de três a seis meses.
Os preços dos alimentos permaneceram relativamente moderados desde o início deste ano, chegando até a atenuar, em algumas regiões, a alta provocada pelos custos elevados de energia. Esse alívio, porém, tende a ser temporário, avalia o economista‑chefe da FAO. A combinação de preços mais altos do petróleo bruto, redução no fornecimento de fertilizantes provenientes do Golfo, escassez de diesel em partes do mundo e condições meteorológicas extremas estão alimentando uma pressão de custos que, mais cedo ou mais tarde, devem se refletir nos preços ao consumidor.
Segundo Torero, o bloqueio pelo Irã do Estreito de Ormuz - crucial para o transporte mundial de petróleo e gás liquefeito - afeta todos os insumos das matérias‑primas agrícolas e dos sistemas de produção agrícola. Ele ressalta que o petróleo Brent, por exemplo, é utilizado no bombeamento, na armazenagem, na transformação e no transporte de alimentos. Já o gás natural é essencial para a fabricação de fertilizantes.
Guerra Rússia x Ucrânia
Além disso, os danos causados pela Ucrânia às infraestruturas de petróleo e gás da Rússia estão reduzindo a capacidade de exportação de diesel e gás natural — dois insumos essenciais para a produção de alimentos. Segundo o especialista, essa situação pesa sobre todo o planeta, ainda que os países mais ricos disponham de mais recursos para apoiar seus produtores.
"Estamos ouvindo relatos na Europa, nos Estados Unidos, no Brasil e na Ásia", aponta Maximo Torero. "Os lucros reduzidos estão influenciando as decisões de plantio", reitera.
Mesmo nos Estados Unidos, autossuficientes na maior parte dos insumos essenciais, sem apoio federal os agricultores que cultivam as nove principais culturas podem perder US$ 32 bilhões em 2027, afirmou a Federação Americana de Escritórios Agrícolas. No país, os plantios globais de trigo e milho já foram reduzidos desde o início da guerra no Irã, com alguns produtores americanos priorizando a soja, que exige menos fertilizantes.
A Austrália, um dos principais exportadores agrícolas do mundo, indicou recentemente que a produção das culturas de inverno deve cair 21%, em parte devido ao aumento significativo dos preços de combustíveis e fertilizantes, além da incerteza quanto à disponibilidade de insumos essenciais.
El Niño intenso
Outro fator que deve resultar no aumento do preço dos alimentos é o El Niño, que neste ano deve ser particularmente intenso, alterando de forma significativa os regimes de precipitação. A FAO teme que este fenômeno climático contribua para agravar a insegurança alimentar aguda para dezenas de milhões de pessoas no mundo.
Na Índia, a monção já apresenta atraso, e as chuvas devem permanecer abaixo da média neste mês, o que pode prejudicar a produção de arroz e alimentar a alta dos preços globais das commodities agrícolas.
No Brasil, a previsão é que o El Niño resulte em chuvas excessivas no sul, seca no norte e nordeste Norte/Nordeste e em irregularidade climática no Centro‑Oeste, afetando diretamente agricultura, energia, logística e até saúde pública. Além da inflação no preço dos alimentos, o Banco Central pode elevar os juros, encarecendo o crédito agrícola e afetando decisões de investimento no campo.
RFI com AFP