Famosa caverna da Sibéria revela restos mortais de mamífero da Era Glacial

19 out 2026 - 16h40
Resumo
Pesquisadores identificaram na famosa Caverna de Denisova, na Sibéria, uma nova espécie extinta de mamífero da Era Glacial a partir da análise de DNA de fragmentos ósseos. Apelidado de "Yak X", o bovídeo é um parente próximo do iaque moderno, cuja linhagem divergiu há 400 mil anos. O animal conviveu com mamutes e com os extintos hominídeos denisovanos, que provavelmente o caçavam, até desaparecer há cerca de 27 mil anos, ampliando o conhecimento sobre a fauna pré-histórica da Eurásia.

Uma caverna na Sibéria, já famosa por ter revelado os primeiros vestígios de ‌uma linhagem humana extinta chamada denisovanos -- que outrora percorriam amplamente a Eurásia --, apresentou agora evidências de um grande mamífero da Era Glacial até então desconhecido, intimamente relacionado ao iaque atual.

Os pesquisadores afirmaram ter descoberto pequenos fragmentos ósseos do animal na Caverna de Denisova, nas Montanhas Altai, no sul da Sibéria, na Rússia, e obtiveram DNA indicando que esses restos pertenciam a uma espécie bovina distinta de outras já conhecidas, tanto vivas quanto extintas.

Publicidade

Ao todo, os pesquisadores estudaram 20 fragmentos ósseos dessa espécie -- 14 da ⁠Caverna de Denisova e 6 de outros sítios na região. O espécime mais antigo data de cerca de 250 mil a 200 ‌mil anos atrás, e o mais recente, de cerca de 27 mil anos atrás.

Os ossos em si estavam tão fragmentados que sua forma, por si só, não revelava que pertenciam a um grande mamífero até então desconhecido. Mas os pesquisadores conseguiram gerar ‌20 genomas antigos a partir dos ossos, e estes mostraram que se tratava ‌de uma espécie única, cuja linhagem evolutiva divergiu dos ancestrais do iaque atual há aproximadamente 400 mil anos.

"É incomum, ⁠especialmente reconhecer uma espécie de mamífero de grande porte a partir de fragmentos pequenos e não identificáveis", disse o geneticista evolutivo Love Dalén, do Centro de Paleogenética -- uma colaboração entre a Universidade de Estocolmo e o Museu Sueco de História Natural --, autor sênior da pesquisa publicada na revista Current Biology.

"Eu diria que isso está relacionado aos avanços no campo do DNA antigo, já que a genética é uma nova e poderosa fonte de informação aplicada a materiais antigos", disse Alexandre Gilardet, doutorando do Centro de Paleogenética ‌e coautor principal do estudo, juntamente com Jonas Oppenheimer, pesquisador de pós-doutorado do Centro de Paleogenética.

Publicidade

Evidências genéticas por si só não são ‌suficientes para permitir a atribuição de um ⁠nome científico a uma nova espécie; ⁠por isso, os pesquisadores estão chamando essa espécie de "Yak X".

A PAISAGEM DA ERA GLACIAL

Dalén disse que o Yak X vivia ao lado de outros ⁠bovídeos, incluindo o bisão das estepes e o auroque, ancestral selvagem extinto ‌do gado domesticado atual. Ele também compartilhava ‌a paisagem da Era Glacial com mamutes-lanosos, rinocerontes-lanosos, cavalos e grandes predadores, como hienas-das-cavernas e ursos-pardos, disse Dalén.

"Eu esperaria que ele se parecesse mais com um iaque do que com um bisão, dada sua estreita relação com os iaques modernos", disse Dalén.

Os iaques são animais de constituição robusta, com chifres, pelagem longa e uma corcova nos ombros, levemente parecidos ⁠com um boi peludo. Os machos maiores podem chegar a pesar até uma tonelada. Os iaques selvagens vivem exclusivamente nas altitudes mais elevadas do Planalto Tibetano.

A descoberta do Yak X aprofunda a compreensão da diversidade dos grandes mamíferos da Era Glacial e acrescenta mais uma espécie à longa lista daquelas que desapareceram aproximadamente no fim dessa época.

Publicidade

"Com base no longo período de 200 mil anos de nossa amostragem, podemos observar que a espécie pode ter ‌sofrido um declínio populacional durante um período de aquecimento há cerca de 120 mil anos e se extinguiu algum tempo depois de nossa amostra mais recente, há cerca de 27 mil anos", disse Oppenheimer.

A vasta extensão siberiana era um ecossistema de ⁠pastagem chamado de estepe dos mamutes, assim conhecido por causa de seus maiores habitantes. A maior parte da região ficou livre das imensas camadas de gelo que cobriam grandes áreas da América do Norte e da Europa.

A linhagem do Yak X divergiu dos ancestrais dos iaques modernos mais ou menos na mesma época em que ocorreu a separação evolutiva entre as linhagens ursinas que deram origem aos atuais ursos-pardos e ursos-polares.

OS DENISOVANOS

Foi na Caverna de Denisova, em 2008, que cientistas desenterraram um osso de dedo que ofereceu a primeira evidência da existência dos denisovanos, primos extintos dos neandertais e de nossa própria espécie, o Homo sapiens. Desde então, mais restos mortais de denisovanos foram descobertos na caverna e em várias regiões remotas da Ásia.

Publicidade

Algumas populações humanas modernas, especialmente as da Melanésia e da Papua-Nova Guiné, carregam uma pequena porcentagem de DNA dos denisovanos, indicando cruzamento com o Homo sapiens antes que os denisovanos se extinguissem em circunstâncias que ainda não são bem compreendidas.

Os denisovanos eram caçadores-coletores que sobreviveram em muitos tipos diferentes de ambientes. A espécie Yak X pode ter estado entre as presas que eles caçavam.

"Parece razoável que o Yak X fizesse parte do cardápio dos denisovanos", disse Dalén.

Reuters - Esta publicação inclusive informação e dados são de propriedade intelectual de Reuters. Fica expresamente proibido seu uso ou de seu nome sem a prévia autorização de Reuters. Todos os direitos reservados.
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações