"A Europa diante da extorsão de Trump" é "um teste crucial para os 27" países do bloco, destaca a capa do jornal Libération, cujo editorial evidencia a atual tensão após as últimas provocações do presidente americano: "Quem poderia imaginar que uma aliança de 77 anos poderia se romper por um pedaço de terra congelada nos confins do mundo?".
Uma reportagem do jornal descreve que as tarifas alfandegárias adicionais de 10% à Alemanha, Dinamarca, Finlândia, França, Noruega, Países Baixos, Reino Unido e Suécia, anunciadas por Trump em sua rede Truth Social, são uma represália ao envio de tropas europeias para a Groenlândia, ato que, segundo o republicano, ameaça a segurança global. A Europa demonstrou apoio a Nuuk e Copenhague com o envio de soldados.
Trump condiciona a retirada das tarifas à "compra total da Groenlândia", elevando as tensões diplomáticas. As tarifas totais podem chegar a 40%, o que praticamente fecharia o mercado americano para esses países. A crise coloca em xeque a confiança na parceria transatlântica, e a União Europeia enfrenta agora a necessidade de responder com mais firmeza para defender sua integridade territorial e sua credibilidade, afirma o jornal, que provoca: "Trump empurra os limites; cabe aos europeus mostrar a ele que esses limites existem".
Mecanismo europeu anticoerção
O Le Figaro afirma esperar da Europa uma resposta ao golpe de força dos Estados Unidos e cita o pedido do presidente francês, Emmanuel Macron, para acionar o mecanismo europeu anticoerção, feito no domingo (18).
O mecanismo, apelidado de "bazooka" europeia, foi mencionado em 2023 para responder à China, mas nunca chegou a ser utilizado. Ele permitiria limitar importações de um país, bloquear seus investimentos ou o acesso a compras públicas, aplicar sanções financeiras ou suspender patentes e licenças. Sua ativação exige maioria qualificada entre os 27 e vários meses de investigação prévia para caracterizar a coerção antes de entrar em vigor.
"Novo braço de ferro diplomático"
Segundo o jornal, trata-se de "um novo braço de ferro diplomático e comercial transatlântico". Levado muito a sério, o anúncio de Trump provocou um choque nas capitais europeias e desencadeou reações e intensas negociações.
"As tarifas alfandegárias enfraqueceriam a relação transatlântica e criariam o risco de uma escalada perigosa. A Europa permanecerá unida, coordenada e determinada a defender sua soberania", afirmaram Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e Antonio Costa, presidente do Conselho Europeu, em declaração conjunta feita no Paraguai, onde estavam no sábado (17) para assinar o acordo de livre-comércio com o Mercosul. Os mesmos termos foram reiterados em uma nova declaração conjunta no domingo, assinada pelos oito países visados por Trump, detalha Le Figaro.
O Figaro e outros periódicos franceses mencionam ainda os protestos da população groenlandesa no fim de semana. Sob as bandeiras de "Greenland is not for sale" ("A Groenlândia não está à venda"), dezenas de milhares de dinamarqueses e groenlandeses protestaram em Copenhague e em outras grandes cidades do reino, usando bonés estampados com "Make America Go Away" ("Façam os Estados Unidos irem embora", um trocadilho com o slogan "MAGA: Make America Great Again"). Segundo a última pesquisa publicada em janeiro de 2025, 85% dos groenlandeses se opõem à anexação pelos Estados Unidos, enquanto apenas 6% são favoráveis.