'Extorsão' de Trump pela Groenlândia abala aliança transatlântica; Macron exige mecanismo inédito da UE

A imprensa francesa desta segunda-feira (19) comenta mais um capítulo da crise entre Estados Unidos e União Europeia, que ganhou novas proporções no fim de semana, quando o presidente americano, Donald Trump, anunciou a imposição de tarifas punitivas a oito países europeus, incluindo a França, a partir de 1º de junho, caso não o deixem tomar posse da Groenlândia — ilha do território dinamarquês que vem sendo alvo da "extorsão de Trump".

19 jan 2026 - 10h25

"A Europa diante da extorsão de Trump" é "um teste crucial para os 27" países do bloco, destaca a capa do jornal Libération, cujo editorial evidencia a atual tensão após as últimas provocações do presidente americano: "Quem poderia imaginar que uma aliança de 77 anos poderia se romper por um pedaço de terra congelada nos confins do mundo?".

A imprensa francesa desta segunda-feira comenta mais um capítulo da crise entre Estados Unidos e União Europeia.
A imprensa francesa desta segunda-feira comenta mais um capítulo da crise entre Estados Unidos e União Europeia.
Foto: AFP - JIM WATSON / RFI

Uma reportagem do jornal descreve que as tarifas alfandegárias adicionais de 10% à Alemanha, Dinamarca, Finlândia, França, Noruega, Países Baixos, Reino Unido e Suécia, anunciadas por Trump em sua rede Truth Social, são uma represália ao envio de tropas europeias para a Groenlândia, ato que, segundo o republicano, ameaça a segurança global. A Europa demonstrou apoio a Nuuk e Copenhague com o envio de soldados.

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Trump condiciona a retirada das tarifas à "compra total da Groenlândia", elevando as tensões diplomáticas. As tarifas totais podem chegar a 40%, o que praticamente fecharia o mercado americano para esses países. A crise coloca em xeque a confiança na parceria transatlântica, e a União Europeia enfrenta agora a necessidade de responder com mais firmeza para defender sua integridade territorial e sua credibilidade, afirma o jornal, que provoca: "Trump empurra os limites; cabe aos europeus mostrar a ele que esses limites existem".

Mecanismo europeu anticoerção

O Le Figaro afirma esperar da Europa uma resposta ao golpe de força dos Estados Unidos e cita o pedido do presidente francês, Emmanuel Macron, para acionar o mecanismo europeu anticoerção, feito no domingo (18).

O mecanismo, apelidado de "bazooka" europeia, foi mencionado em 2023 para responder à China, mas nunca chegou a ser utilizado. Ele permitiria limitar importações de um país, bloquear seus investimentos ou o acesso a compras públicas, aplicar sanções financeiras ou suspender patentes e licenças. Sua ativação exige maioria qualificada entre os 27 e vários meses de investigação prévia para caracterizar a coerção antes de entrar em vigor.

"Novo braço de ferro diplomático"

Segundo o jornal, trata-se de "um novo braço de ferro diplomático e comercial transatlântico". Levado muito a sério, o anúncio de Trump provocou um choque nas capitais europeias e desencadeou reações e intensas negociações.

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"As tarifas alfandegárias enfraqueceriam a relação transatlântica e criariam o risco de uma escalada perigosa. A Europa permanecerá unida, coordenada e determinada a defender sua soberania", afirmaram Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e Antonio Costa, presidente do Conselho Europeu, em declaração conjunta feita no Paraguai, onde estavam no sábado (17) para assinar o acordo de livre-comércio com o Mercosul. Os mesmos termos foram reiterados em uma nova declaração conjunta no domingo, assinada pelos oito países visados por Trump, detalha Le Figaro.

O Figaro e outros periódicos franceses mencionam ainda os protestos da população groenlandesa no fim de semana. Sob as bandeiras de "Greenland is not for sale" ("A Groenlândia não está à venda"), dezenas de milhares de dinamarqueses e groenlandeses protestaram em Copenhague e em outras grandes cidades do reino, usando bonés estampados com "Make America Go Away" ("Façam os Estados Unidos irem embora", um trocadilho com o slogan "MAGA: Make America Great Again"). Segundo a última pesquisa publicada em janeiro de 2025, 85% dos groenlandeses se opõem à anexação pelos Estados Unidos, enquanto apenas 6% são favoráveis.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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