A crise habitacional na França afeta 4,2 milhões de pessoas, com favelas, desabrigados e moradias precárias; altos aluguéis e baixos salários agravam o problema, revelando o impacto das desigualdades sociais.
O novo relatório da Fundação para a Habitação da França traz dados preocupantes sobre as condições de moradia no país. A crise habitacional no país afeta 4,2 milhões de pessoas. O documento aponta 14 mil pessoas vivendo em 400 favelas, 590 mil alojadas em casas de conhecidos e 350 mil sem teto. Entre relatos dramáticos, moradores enfrentam problemas financeiros e de saúde, revelando o fracasso das políticas de moradia no país.
"Viver em uma favela na França" foi a manchete do jornal La Croix, que visitou o complexo de Stains, na periferia de Paris, onde cerca de 1.500 pessoas residem em condições extremamente precárias. Segundo a fundação, essas favelas não são exceção. Até dezembro de 2025, cerca de 14 mil pessoas viviam em 400 favelas na França. Entre elas, 10 mil são cidadãos de países europeus.
O relatório aponta 1.484 operações de desmantelamento entre 1º de novembro de 2023 e 31 de outubro de 2024. La Croix considera esse método ineficaz, pois desloca os moradores expulsos apenas para outros bairros periféricos.
Outro dado alarmante, destacado pelo jornal Libération, é o aumento de pessoas obrigadas a se alojar em residências de terceiros. Atualmente, 590 mil indivíduos vivem em casas de amigos ou conhecidos — excluindo familiares — um crescimento de 15% desde 2013 em todo o país e de 30% na região parisiense nos últimos cinco anos.
O jornal Le Parisien resume: "Por falta de moradia, eles são obrigados a viver com pessoas próximas". No total, a França conta com 350 mil desabrigados, enquanto quase 3 milhões aguardam por um alojamento social.
A origem do problema é clara. Na região parisiense, os aluguéis dispararam quase 60% entre 2002 e 2022, enquanto os salários tiveram apenas 33% de reajuste no mesmo período. A disparidade econômica agrava a crise, tornando a busca por moradia digna quase impossível para famílias de baixa renda.
"Vivemos em um lugar que nos deixa doentes"
Segundo a Fundação para o Habitação dos Desfavorecidos, 4,2 milhões de pessoas na França estão mal alojadas. O conceito engloba apartamentos pequenos, residências insalubres ou inadequadas, refletindo uma crise habitacional crescente. Alguns moradores aceitaram relatar suas histórias ao site de France Info, expondo desde o desconforto diário até os impactos sobre a saúde.
Issiaka, 36 anos, trabalha como artista intermitente e vive há seis anos em um antigo espaço comercial adaptado em Pantin (Seine-Saint-Denis, região parisiense). Com renda média de €1.300 por mês, ele enfrentou problemas de infiltração e mofo, conforme relatou ao veículo. "A chuva traz umidade que corrói as paredes. Em alguns pontos, elas estão pretas e cheias de fungos. Isso estragou roupas e um armário que precisei descartar", diz.
Seu pequeno estúdio de 17 metros quadrados é uma "passagem térmica" e lhe causa "problemas respiratórios, alergias e irritações de pele". Recentemente, um médico o aconselhou a deixar o local, mas encontrar uma alternativa na região parisiense é extremamente difícil. Atualmente, ele move ação judicial contra o proprietário.
Laure, de 40 anos, adquiriu uma casa de 80 metros quadrados em Dieppe (Seine-Maritime, norte da França) após passar por um divórcio. Para a compra, ela investiu €60 mil de suas economias e contraiu um empréstimo de €70 mil. No entanto, Laure logo descobriu que a construção apresentava defeitos graves, incluindo paredes de madeira corroídas por fungos e um risco iminente de desabamento, especialmente devido à proximidade com a ferrovia. Como resultado, o valor da casa despencou, sendo agora avaliada em apenas €20 mil.
Atualmente, a prefeitura realiza um monitoramento mensal das fundações da casa, mas as obras de reparação, orçadas em mais de €100 mil, estão além das suas possibilidades financeiras. Diante dessa situação, Laure se vê obrigada a buscar reparação judicial.
Fabien, 48 anos, enfrenta instabilidade desde um burnout há dez anos. Depois de viver com um primo na região de Haute-Savoie (sudeste), mudou-se para a Bretanha (oeste), em 2023. Ele passou seis meses em um pequeno veículo, dependendo de alimentos enlatados. A vergonha de sua situação o impede de receber visitas, relatou à reportagem de France Info.