As duas moções foram apresentadas separadamente pelos partidos de esquerda - com exceção do Partido Socialista - e pela Reunião Nacional, de extrema direita. A oposição tomou a iniciativa depois que o premiê acionou o artigo 49.3, que permite a adoção do orçamento sem votação no Parlamento, apesar de ele ter se comprometido a não utilizar esse procedimento. Com a rejeição das moções de censura, que não devem obter a maioria absoluta necessária, o orçamento será definitivamente aprovado.
O jornal Le Monde avalia que o desfecho representa uma vitória para Lecornu. O premiê conseguiu se impor em apenas cinco meses, algo considerado improvável quando ele foi nomeado, em setembro de 2025. Apesar das dificuldades, o primeiro-ministro articulou uma estratégia para aprovar o orçamento, garantir a sobrevivência do governo e manter o controle da agenda política até as eleições municipais de março e, posteriormente, a eleição presidencial de 2027.
O projeto de orçamento, que prevê, entre outros pontos, reduzir o déficit público a 5% do Produto Interno Bruto (PIB), não satisfaz plenamente ninguém, mas grande parte dos parlamentares parece querer finalmente virar a página dessa longa discussão orçamentária. Para obter apoio, Lecornu fez várias concessões significativas aos socialistas, entre elas a suspensão da reforma das aposentadorias até a eleição presidencial e a manutenção da sobretaxa sobre os lucros das grandes empresas.
Ressaca
Le Figaro classifica o orçamento como um "desperdício" e afirma que o país vive uma "ressaca" após cinco meses de debates e polêmicas no Parlamento. A dívida pública continuará alta, enquanto o desemprego cresce e as falências se multiplicam. Le Parisien afirma que o partido Os Republicanos, de direita, está dividido e sai enfraquecido dessa batalha, sendo criticado por boa parte de seus militantes.
Les Échos já projeta os próximos desafios de Lecornu. O primeiro-ministro precisa agora lidar com várias questões delicadas, como a crise agrícola - intensificada no fim de 2025 e início de 2026, em parte devido ao acordo União Europeia-Mercosul -, a reforma constitucional sobre a Nova Caledônia, considerada politicamente arriscada, a reforma da simplificação administrativa e o programa militar. A margem de manobra do governo é estreita, pois Lecornu não possui maioria parlamentar e dispõe de pouca flexibilidade financeira, destaca o jornal econômico.
Libération ressalta que diversos partidos e figuras políticas importantes agora pedem uma reforma constitucional profunda. A crise em torno da discussão orçamentária mostrou que o atual modelo constitucional francês está mal adaptado a um cenário político sem maioria parlamentar.