Trump inflável, Rubio na América do Sul, e o risco de ingerência estrangeira no Brasil

A ofensiva diplomática de Washington na América do Sul e os laços com o bolsonarismo acendem o alerta para o risco de ingerência americana na eleição brasileira.

14 set 2026 - 15h51
Resumo
A exaltação a Donald Trump em atos no Brasil expõe o paradoxo patriótico e acende o alerta de ingerência dos EUA na política nacional. Em meio à recomposição de sua influência na América do Sul, Washington vê o governo Lula como exceção e monitora o cenário eleitoral do país. A aproximação de Flávio Bolsonaro com a cúpula trumpista e redes conservadoras estrangeiras, como a Rockbridge Network, amplia os temores de interferência e financiamento externo nas eleições, ameaçando a soberania brasileira.

Thomás Zicman de Barros, analista político

Um enorme Donald Trump inflável subiu no meio da Avenida Paulista. Foi com esse símbolo, e agitando bandeiras americanas, que os apoiadores de Flávio Bolsonaro acharam apropriado comemorar o 7 de Setembro, dia da Independência.

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Há um paradoxo evidente em celebrar patriotismo e soberania nacional prestando homenagem ao líder de uma potência estrangeira. E a cena ganha outro significado diante do que acontece hoje ao redor do Brasil.

Apenas um dia depois daquela manifestação, em 8 de setembro, Marco Rubio desembarcou na Colômbia. O secretário de Estado americano seguiu depois para Equador e Peru, numa viagem destinada a consolidar a aproximação de Washington com três governos de direita e extrema-direita da região.

Os Estados Unidos vêm recompondo sua influência na América do Sul. Além dos três países visitados, Chile e Argentina estão muito próximos de Washington. Sobrou o Brasil de Lula para destoar desse novo mapa político. O próprio Rubio já disse isso. Em junho, ao celebrar diante do Senado americano a quantidade de governos latino-americanos hoje alinhados aos Estados Unidos, enumerou as poucas exceções. Citou Cuba e Nicarágua, há anos sob sanções americanas. Mencionou a Venezuela, agora sob tutela de Washington. E, nas palavras dele, "é claro, o Brasil".

Fez então uma observação reveladora: o Brasil está "no meio de um ciclo eleitoral". Rubio acompanha esse ciclo de perto. Em maio, recebeu Flávio Bolsonaro em Washington. O candidato também se reuniu com J.D. Vance e Donald Trump.

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Risco de ingerência

O risco evidente é de ingerência estrangeira nas eleições brasileiras. E há precedentes. No ano passado, Trump impôs tarifas de 50% ao Brasil, enquanto seu governo cassava vistos e aplicava sanções contra Alexandre de Moraes. A própria Casa Branca relacionou essas medidas ao processo contra Jair Bolsonaro. A política interna brasileira entra, abertamente, na política externa americana.

A pergunta agora é até onde essa ingerência pode chegar. As redes internacionais da extrema direita ajudam a tornar essas iniciativas menos nítidas. Elas combinam governos, políticos, think tanks, organizações privadas e empresários numa teia por vezes opaca. Nos bastidores, movimentam dinheiro, formam quadros e conectam atores de diferentes países.

Uma delas é a Rockbridge Network, rede conservadora americana que teve J.D. Vance entre seus fundadores. Nos últimos dias, surgiram suspeitas de que recursos ligados a essa rede possam ter beneficiado indiretamente a campanha de Flávio Bolsonaro. O financiamento não foi comprovado, mas há contatos documentados entre a organização americana e personagens do universo político brasileiro. E essa não é a única iniciativa do tipo.

Talvez por isso valha a pena voltar à imagem da Avenida Paulista. Para alguns patriotas, a melhor forma de celebrar nossa soberania é louvando um inflável gigante de Donald Trump.

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