Prisão de chefe da inteligência alemã por espionagem acende alerta entre aliados

A prisão do ex-chefe do Serviço Federal de Inteligência da Alemanha está despertando forte reação no país e em seus aliados. August Hanning foi detido na terça-feira (6) sob suspeita de espionagem e tentativa de traição. Ele teria obtido informações secretas e compartilhado com pelo menos um país estrangeiro depois de deixar o cargo. As agências de inteligência britânicas e americanas estão investigando se informações e até mesmo suas próprias fontes foram comprometidas pelo vazamento.

8 out 2026 - 07h41
Resumo
A prisão de August Hanning, ex-chefe do Serviço Federal de Inteligência alemão, gerou forte alerta entre aliados como EUA e Reino Unido. Investigado por outro crime, ele foi flagrado com cerca de 2 mil documentos confidenciais obtidos ilegalmente com um cúmplice até 2022, quando já atuava no setor privado. As informações, que incluíam dados sobre o Irã e a Rússia, teriam beneficiado o Azerbaijão, motivando auditorias internacionais e pressões por uma ampla reforma na inteligência alemã.

Gabriel Brust, correspondente da RFI Brasil em Düsseldorf, Alemanha

O que a Alemanha descobriu esta semana é que o homem que chefiou o seu Serviço Federal de Inteligência entre 1998 e 2005 obteve ilegalmente cerca de 2 mil documentos depois que deixou a agência, até pelo menos 2022. August Hanning, que hoje tem 80 anos, foi preso na região da Renânia do Norte-Vestfália, e o seu cúmplice, o homem que vazava os documentos para ele, foi preso na Baviera.

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O caso foi descoberto durante as investigações de outro crime não relacionado. A polícia investigava August Hanning por envolvimento com o caso da milionária Christina Block, herdeira de uma rede de churrascarias bem famosa aqui da Alemanha. Ela era acusada de ter encomendado o sequestro de seus dois filhos mais novos no final de 2023, na Dinamarca, em uma disputa pela guarda das crianças com o pai.

Quando a polícia fez uma devassa no computador de August Hanning por causa desse caso, acabou descobrindo os milhares de documentos que ele obtinha ilegalmente do Serviço de Inteligência. A partir daí, foi só puxar o fio para desvendar o que pode se transformar na maior história de espionagem e traição da história recente da Alemanha.

País beneficiado

O ex-chefe do Serviço de Inteligência alemã August Hanning atuava no setor privado como consultor de segurança quando esses vazamentos teriam ocorrido. O ministério público diz que ele usou informações confidenciais para preparar uma análise para um funcionário de um serviço de inteligência estrangeiro.

O caso surgiu justamente num momento de forte preocupação com a espionagem russa na Alemanha. Mas os investigadores indicam que, neste episódio, não se trata do regime de Vladimir Putin. Segundo investigação da revista Der Spiegel, o país em questão seria o Azerbaijão. Hanning tinha relações antigas com o país, tendo sido membro do conselho do Fórum Alemão-Azerbaijano. Entre os documentos supostamente obtidos estariam informações sobre o programa nuclear iraniano e as forças militares russas.

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Depois que deixou o cargo de chefe do Serviço de Inteligência, Hanning ainda trabalhou como Secretário de Estado no Ministério Federal do Interior, até 2009, quando passou para a iniciativa privada. Os vazamentos se davam através de seu ex-chefe de gabinete, que é chamado pela investigação de Manfred D. Ele trabalhou no serviço de inteligência até o início deste ano. O acordo entre os dois teria sido selado em 2010 e teria durado pelo menos até 2022.

EUA e Inglaterra fazem auditoria

A notícia caiu como uma bomba justamente na semana em que o atual chefe do serviço de inteligência, Martin Jäger, disse que a ameaça de ataques contra alvos na Alemanha continua real e presente e que "a Alemanha corre o risco de se ver envolvida em um conflito violento com a Rússia".

A agência de inteligência britânica, assim como diversas agências americanas, planejam realizar uma revisão interna sistemática de todas as informações sensíveis compartilhadas com aliados europeus durante o período em questão. Também há uma forte cobrança dos partidos da coalizão do governo por mudanças e fiscalização no Serviço de Inteligência.

O chanceler Friedrich Merz já tinha uma proposta de reforma no serviço, mas seu próprio partido agora pede uma reformulação do zero. Um dos principais problemas apontados é a permeabilidade entre o público e o privado: muitos altos funcionários do governo vão trabalhar em consultorias ao deixar o poder e isso já foi motivo de atividades suspeitas no passado. Vale lembrar o célebre caso do ex-chanceler Gerhard Schröder, que depois de sair do governo assumiu cargos em empresas ligadas ao setor energético russo.

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Histórico de espionagem a traição

Se as suspeitas forem confirmadas, este seria um caso de dimensão histórica, porque nunca houve na Alemanha uma acusação de traição envolvendo um ex-funcionário de nível tão alto quanto um antigo diretor do serviço de inteligência.

Mas o próprio serviço já enfrentou outros casos graves. Em 2022, um funcionário de alto escalão, Carsten L., foi preso sob suspeita de ter vazado informações ultrassecretas. Segundo a acusação, o material chegou ao serviço de inteligência russo FSB por meio de um intermediário, e os dois teriam recebido centenas de milhares de euros.

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