A atriz brasileira Renata foi detida pelo ICE no aeroporto de Los Angeles e está presa há mais de um mês por estar sem status migratório regular, decorrente de uma orientação jurídica equivocada. Transferida sob condições severas para um centro no Texas, ela teve a liberdade negada e agora solicita saída voluntária. O caso reflete o endurecimento da fiscalização nos aeroportos dos EUA, que tem levado à prisão até mesmo de pessoas com processos pendentes e sem histórico criminal.
Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles
Segundo Márcia Rilda Alves dos Reis, a filha passou normalmente pela segurança e pelo raio-X, entrou com o passaporte e, quando já estava no portão de embarque, foi abordada e presa por agentes do ICE que estavam à paisana.
"Nós achávamos que, nessa questão de pegar voo, eles só estavam pegando quem tivesse algum tipo de crime. Mas a gente não sabia que eles estavam prendendo qualquer pessoa. Quando você passa na segurança, eles têm essa ligação direta com o ICE, essa impressão que a gente tem", contou Márcia.
Renata chegou aos Estados Unidos em 2016, aos 16 anos. No país, ela concluiu o ensino médio e estudou Artes Cênicas na Utah Valley University. Há pouco mais de três anos, vive em Los Angeles, onde também construiu sua carreira profissional. Como atriz, participou de produções como The Cool Kids e, paralelamente, tornou-se proprietária de uma empresa de limpeza que hoje emprega mais de 20 pessoas. Segundo a mãe da jovem, Márcia, o grande sonho de Renata é ser atriz de cinema.
A mãe explica que a filha perdeu o status de permanência nos Estados Unidos há cerca de dois anos, após receber uma orientação jurídica equivocada.
Transferida algemada da Califórnia para o Texas
Após ser presa no aeroporto, Renata foi inicialmente levada para um centro de detenção em Los Angeles e, posteriormente, transferida para Adelanto, na Califórnia, onde permaneceu por mais de 20 dias. Enquanto isso, sua família tentava acompanhar o processo à distância com advogados para encontrar uma forma de tirá-la da prisão.
No dia 18 de setembro, Renata participou de uma audiência. A defesa pediu que ela pudesse responder ao processo em liberdade, mas o pedido foi negado sob o argumento de que ela representaria um risco. Segundo a mãe, Renata nunca cometeu nenhum crime e estaria detida exclusivamente por estar sem status migratório regular.
Para Márcia, a situação é difícil de compreender e ainda mais difícil de suportar.
"Para mim, como mãe, é um desespero tão grande ver a minha filha passar por isso. Porque ela não cometeu nenhum crime. Ela não tem motivo algum para estar presa só pelo fato de estar sem status. Isso não significa que eles podem fazer essa covardia, e não é só com ela, mas com tantas outras pessoas ali dentro. Ali tem mães, pessoas que estão presas sem motivo. Eles estão pegando todo mundo e fazendo essa covardia. Eu quero tirar minha filha dali, urgente", conta Márcia aos prantos.
No dia seguinte à audiência, 19 de setembro, a situação ficou ainda mais angustiante para a família. Renata foi transferida para El Paso, no Texas. A transferência, segundo o relato da mãe, foi marcada por horas de espera e restrições físicas.
"Eu sei que ela ficou muito tempo, ficou horas dentro de uma van sem poder fazer xixi, sem poder tomar água, algemada nos pés, na cintura, nas mãos, sentada por horas até entrar no voo. Chegando lá, ficou das 21h até o dia seguinte às 17h sentada, quando ela foi colocada em um quarto", relata a mãe, reforçando que a filha permaneceu algemada a todo o momento.
"Durante todas essas horas, a noite inteira, com frio. Ela pediu para poder usar o suéter dela que estava na mala. Mas sumiram com a bolsa de mão dela, com os documentos, com o cartão de crédito, com joias. Até hoje, a mala não apareceu", conta.
Segundo Márcia, Renata também teria apresentado inchaço nas pernas e nos pés e dor de garganta depois de passar tantas horas sentada em um banco pequeno e em um ambiente gelado.
A família tenta agora autorização para visitá-la, mas, até o momento, não conseguiu agendar com o centro de detenção. Do lado de fora da prisão, familiares e advogados tentam encontrar uma saída para o caso.
"Ela queria pelo menos voltar na casa dela"
Renata não gostaria de deixar os Estados Unidos. Segundo Márcia, a filha está seguindo o aconselhamento jurídico e solicita a saída voluntária do país. Mesmo sendo contra a vontade da filha, a mãe acredita que essa seria a solução.
"Ela queria pelo menos voltar na casa dela, pegar as coisas dela. Ela tem um coelho que já tem seis anos. É tanta coisa, sabe? Emocionalmente. É tanto sentimento de injustiça. Apesar de ela ter ficado esse tempo fora de status, não é ilegal, é fora de status. Ela é uma menina que entrou aqui com 16 anos, estudou aqui. Eu pagava todos os estudos dela. Paguei muito caro para ela estudar. Então, ela fez faculdade. E, infelizmente, a gente teve uma orientação errada de um advogado. Ela está emocionalmente devastada, descontrolada", descreve Márcia.
Situação atual
Segundo a advogada de imigração e também advogada do Consulado de Los Angeles, Gisele Ambrósio, desde junho aumentou muito o número de detenções nos aeroportos, inclusive em embarques nacionais, como aconteceu com a Renata.
"Existe uma gama variada de pessoas que estão sendo presas pelo ICE. Por exemplo, pessoas fora de status, com asilo pendente, com pedidos de extensão de visto, pedidos até de green card pendentes, pessoas com ordem de deportação final e até com permissão de trabalho, mas sem aprovação final do caso", relata Gisele.
A advogada destaca a queda na procura por novos pedidos de green card, cidadania e vistos de residência nesse momento marcado pelo endurecimento das políticas migratórias nos Estados Unidos. Dados do governo americano revelam uma queda de 45% no número de pedidos de imigração recebidos pelo USCIS no segundo trimestre de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025. E a advogada faz um alerta:
"Eu acho que qualquer imigrante, nesse momento, que tiver um caso pendente com a imigração, não deve viajar antes de consultar seu advogado de imigração. Tenha sempre o número do seu advogado escrito em algum lugar ou de cor. Deixe cópias da sua documentação com seus amigos. Tenha sempre um plano do que fazer se algo acontecer com você, se você tiver filhos, tiver bens. É muito importante já deixar esse planejamento todo feito, caso algo aconteça com você nos Estados Unidos nesse momento", aconselha a advogada.