Estudantes franceses intensificaram protestos contra salas superlotadas, falta de professores e o sistema Parcoursup, bloqueando escolas e universidades. Marcados por confrontos violentos que já deixaram centenas de feridos e milhares de detidos, os atos geram forte crise política devido à truculência policial. Enquanto o governo promete medidas no orçamento e diálogo a longo prazo, entidades exigem investimentos imediatos de 10 bilhões de euros e a revisão de cortes na educação pública.
Segundo o Ministério da Educação, 375 estabelecimentos de ensino estavam parcial ou totalmente fechados na manhã desta quinta e 94% das escolas permanecem abertas no país. "Temos uma diminuição de 30% dos estabelecimentos afetados em comparação com quarta-feira no mesmo horário", informou o ministério.
Os estudantes denunciam salas de aula superlotadas, sobrecarga horária, falta de professores e pedem a reformulação ou até mesmo a extinção do Parcoursup, plataforma de acesso ao ensino superior. O sistema se tornou tão complexo que algumas empresas propõem serviços de orientação a famílias de classe média para facilitar o processo, com orientadores particulares. O preço pode chegar a € 1.000 (cerca de R$ 5.600).
Os protestos vêm sendo marcados por episódios de violência entre manifestantes, policiais e a tropa de choque. Em um breve pronunciamento na noite de quarta-feira (7), o primeiro-ministro Sébastien Lecornu afirmou que as forças de segurança "não receberam instruções para enfrentar os estudantes do ensino médio".
O premiê disse compreender as "angústias" dos jovens e declarou que o Executivo tentará responder às reivindicações, anunciando até o fim do mês um conjunto de medidas por meio de emendas ao projeto de orçamento.
Desde o início do movimento, lançado em 21 de setembro na região de Créteil, no subúrbio de Paris, 6.629 pessoas foram detidas, segundo o ministro do Interior, Laurent Nuñez. Segundo ele, 761 policiais e gendarmes ficaram feridos, além de 215 estudantes.
Nesta quinta-feira, dezenas de estudantes impediram o acesso ao Instituto Católico de Paris, instituição privada de ensino superior localizada no 6º distrito da capital. No sudeste de Paris, no 12º distrito, alunos do liceu Hélène Boucher bloquearam a avenida Cours de Vincennes.
O ministro da Educação, Edouard Geffray, anunciou uma visita a um liceu em Reims na manhã desta quinta para dialogar com os estudantes. "É preciso que [Sébastien Lecornu] responda claramente às reivindicações", declarou à emissora BFM TV Louis Letoublon, vice-presidente da organização estudantil Lycéens!.
"Pedimos um plano de € 10 bilhões (R$ 56 bilhões) para a renovação da infraestrutura escolar, aumento do número de professores, entre outras medidas. Também pedimos que o governo reveja sua proposta orçamentária, que prevê a retirada de € 5 bilhões das coletividades territoriais", afirmou.
Em resposta às críticas de que o primeiro-ministro não apresentou medidas concretas diante da mobilização estudantil, a porta-voz do governo, Maud Bregeon, disse à rádio Franceinfo que seria "desonesto" prometer soluções imediatas.
Segundo ela, as reivindicações não podem ser resolvidas "em algumas horas, alguns dias ou mesmo algumas semanas", disse. "Isso exige um trabalho de longo prazo", acrescentou, ressaltando a importância da tramitação do orçamento. Ela negou a violência policial durante os protestos. "Os policiais sabem fazer a distinção necessária" e agem com "proporcionalidade" e "discernimento".
Em entrevista à emissora RMC, a deputada Clémence Guetté, do partido França Insubmissa, acusou o governo de "distrair" a população. Olivier Faure, primeiro-secretário do Partido Socialista e candidato às prévias da aliança PS/Place Publique para a eleição presidencial, disse à Franceinfo ter a impressão de que o governo "está apostando no desgaste do movimento".
"O mínimo é recebê-los, compreendê-los, ouvi-los e atender às suas demandas, porque nada do que dizem é falso", afirmou. Na terça-feira, entre 266 mil e 450 mil pessoas participaram de manifestações em todo o país, sem incidentes graves.
As organizações estudantis, que já haviam pedido a continuidade da mobilização, receberam na quarta-feira o apoio de diversos sindicatos da Educação, que convocaram uma jornada de greve e protestos. A União Estudantil convocou bloqueios em escolas e universidades na manhã desta quinta-feira, seguidos por concentrações diante das prefeituras da região parisiense entre o meio-dia e as 14h.
Suspensão de granadas de efeito sonoro
Após uma reunião considerada decepcionante com o ministro do Ensino Superior, Philippe Baptiste, a porta-voz do sindicato estudantil, Sabrine Kharbach, convocou os manifestantes a se reunirem na Praça da Bastilha, no 12º distrito, às 15h. Na quarta-feira pela manhã, Sébastien Lecornu publicou uma mensagem na rede X propondo aos estudantes que se expressem dentro dos próprios estabelecimentos e por meio da plataforma criada na segunda-feira para receber suas reivindicações.
La parole lycéenne est précieuse et doit être entendue. Après les manifestations d'hier, place aujourd'hui à un temps de dialogue « Temps Lycéens » dans chaque lycée pour permettre aux élèves d'exprimer leurs difficultés et leurs propositions pour améliorer leur temps à l'école. Ce dialogue se poursuit à l'échelle nationale avec la consultation « Lycéennes, lycéens : vous avez la parole ». En moins de 24h, elle a déjà réuni 30 000 contributions anonymes qui nourriront un plan d'action concret : https://t.co/EWPHQgszAU Le retour en classe et le dialogue doivent aller de pair.
— Sébastien Lecornu (@SebLecornu) October 7, 2026
Ele também confirmou a criação de horários especiais nos estabelecimentos, sem aulas, para permitir que alunos e funcionários relatem suas dificuldades. A principal entidade dos diretores de escolas, porém, recusou a iniciativa enquanto "o clima não estiver sereno".
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, anunciou a suspensão do uso de granadas de efeito sonoro depois que um manifestante de 15 anos teve a mão arrancada durante um protesto em Lens, na segunda-feira. O caso está sob investigação.
O episódio provocou forte comoção entre os manifestantes e partidos de esquerda, que intensificaram as críticas à política de manutenção da ordem adotada pelo governo. Segundo Nuñez, 18 investigações da corregedoria da polícia foram abertas desde o início do movimento.
Imprensa critica premiê
Em pronunciamento nesta quarta-feira, o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu negou que a polícia tenha recebido ordens para agir contra os estudantes. Para o jornal Le Monde, ele tentou ajustar sua postura em relação à mobilização que atinge a França há mais de duas semanas, "demonstrando certa compreensão".
"A estratégia das forças de segurança diante dos estudantes é adequada?", questiona o jornal La Croix em uma longa reportagem sobre a violência policial. Para o diário, Lecornu insiste que há "proporcionalidade" nas operações. Mas o jornal lembra que o ministro do Interior demorou duas semanas para proibir temporariamente o uso de granadas de efeito moral pela polícia nos protestos.
O La Croix ressalta que, desde meados de setembro, quando tiveram início os bloqueios das escolas de ensino médio na França, ferimentos graves foram registrados entre os jovens, o que leva a opinião pública a questionar a atuação policial no país.
A preocupação é tamanha que, no terceiro ato de mobilização nacional, na terça-feira (6), familiares resolveram sair às ruas ao lado dos estudantes em uma tentativa de conter a truculência das forças de segurança.
A questão da violência policial provoca uma crise no governo, aponta o jornal Le Parisien, ao mencionar as tensões entre o ministro do Interior e o ministro da Educação, Edouard Geffray, que defende a proibição de lançadores de balas de borracha nos protestos estudantis.
Na semana passada, um adolescente foi atingido no olho por um disparo desse tipo de arma, no município de Argenteuil, na região parisiense, e corre o risco de perder a visão. No entanto, Laurent Nuñez foi categórico ao afirmar que é ele "o responsável pela ordem pública, até prova em contrário"
Com agências