Atos estudantis reúnem centenas de milhares na França e organizações prometem manter movimento

O terceiro ato nacional da mobilização dos estudantes do ensino médio reuniu mais de 250 mil manifestantes em toda a França nesta terça-feira (6), 56 mil apenas em Paris, segundo dados do Ministério do Interior da França. Já organizações estudantis contabilizaram 450 mil participantes em toda a França, entre os quais 100 mil em Paris, e prometem dar continuidade ao movimento.

6 out 2026 - 16h08
(atualizado às 16h14)
Resumo
Centenas de milhares de estudantes protestaram na França contra a precariedade do ensino e cortes de verbas, paralisando cerca de 900 escolas e 40% das universidades com apoio de sindicatos e da esquerda. Marcados por tensões e denúncias de violência policial, os atos deixaram 488 detidos e 43 agentes feridos. Enquanto o governo Macron acusa a oposição de semear o caos e tenta desmobilizar a crise, entidades estudantis prometem manter os protestos diante do tenso cenário econômico e social.

"Há pessoas da periferia, pessoas de Paris, alunos de escolas privadas e públicas, de todas as religiões e origens. Isso nos une porque sentimos que há necessidade de mudança", afirmou à AFP Diane, aluna do segundo ano do ensino médio em Paris.

Em Paris, uma marcha reuniu 100 mil participantes, segundo organizações estudantis, e 56 mil, de acordo com dados do Ministério do Interior da França.
Em Paris, uma marcha reuniu 100 mil participantes, segundo organizações estudantis, e 56 mil, de acordo com dados do Ministério do Interior da França.
Foto: AFP - GEOFFROY VAN DER HASSELT / RFI

"A geração Z está se levantando e quer ser ouvida", declarou à AFP Lilia, de 19 anos. A estudante espera que a juventude seja ouvida pelo presidente francês, Emmanuel Macron. "Em vez de financiar guerras, ele deveria investir no próprio país", disse.

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A maioria das manifestações ocorreu sem incidentes graves. No entanto, houve momentos de tensão no final dos atos em Paris e em outras grandes cidades, como Lyon (centro-leste), Nantes (oeste), Rennes (noroeste) e Toulouse (sul).

Na capital francesa, o protesto terminou por volta das 18h locais (13h em Brasília). Policiais cercaram as avenidas em torno da Praça da Nação, no sudeste de Paris, para tentar dispersar os estudantes. No entanto, segundo a Secretaria de Segurança Pública, cerca de 300 indivíduos hostis entraram em confronto com a polícia e 12 pessoas foram detidas.

Ao todo, 488 pessoas foram detidas nesta terça-feira em todo o país, e 43 membros das forças de segurança ficaram feridos, anunciou o Ministério do Interior. 

900 escolas afetadas pelos protestos

Cerca de um quarto das escolas de ensino médio do país — quase 900 do total de 3.700 — tiveram as aulas suspensas hoje para participar da mobilização, de acordo com dados do Ministério da Educação da França. Os atos, que ganharam o apoio de universitários desde a semana passada, resultaram em 40% das instituições públicas de ensino superior paralisadas pela mobilização. 

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Os estudantes do ensino médio, cujo movimento dos bloqueios de escolas surgiu em meados de setembro nos arredores de Paris, denunciam a precariedade da infraestrutura escolar, salas de aula superlotadas e a falta de reposição de professores ausentes, especialmente nos bairros mais populares.

Os atos desta terça-feira tiveram o apoio de sindicatos de professores e de diversas lideranças políticas de esquerda, entre elas o líder do partido França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, a líder do partido ecologista, Marine Tondelier, e o primeiro-secretário do Partido Socialista, Olivier Faure. Além deles, familiares de estudantes também integraram os cortejos, numa tentativa de evitar a violência policial.

Muitos dos slogans e cartazes também criticavam a atuação das forças de segurança, acusadas de agressões desproporcionais. Na semana passada, em Tours, no centro da França, um estudante de 16 anos perdeu a visão de um dos olhos durante um protesto.

Já na segunda-feira (5), um adolescente de 15 anos teve uma das mãos amputada após a explosão de uma granada lançada pela polícia em Lens, no norte do país. Uma aluna de 14 anos em Metz, no leste da França, teve seu corpo apalpado por um policial no momento em que foi imobilizada — uma intervenção que foi filmada e que suscitou indignação nas redes sociais. 

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No total, 11 investigações foram abertas até o momento para averiguar casos de violência policial. 

Premiê tenta abafar protestos

Em discurso na Assembleia Nacional, o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, convidou os estudantes do ensino médio a retornarem às escolas a partir de quarta-feira (7) para participar de um "momento de democracia interna dentro dos estabelecimentos". O premiê também acusou a esquerda radical de ter o "projeto político" de "tumultuar o país" às vésperas da eleição presidencial de abril e maio de 2027 e de "semear o caos".

Lecornu ainda condenou os episódios de violência registrados durante as manifestações estudantis e rejeitou as acusações de "repressão policial". "Não podemos abrir espaço para a tolerância à violência", afirmou o chefe de governo.

Uma reunião foi convocada por Emmanuel Macron na noite desta terça-feira no Palácio do Eliseu para avaliar a situação. Entre os participantes estarão Sébastien Lecornu, o ministro do Interior Laurent Nuñez e o ministro da Educação Nacional, Édouard Geffray.

Por sua vez, organizações estudantis do ensino médio e universitário convocaram a continuidade da mobilização, que se prolonga em um contexto político e social particularmente tenso, marcado pela alta do custo de vida e pela busca do governo por cortes orçamentários, alguns dos quais afetam diretamente os jovens. 

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RFI com agências

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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