O que o 'não' da Islândia representa para a União Europeia?

Apesar da negativa pela adesão do país nórdico, o bloco europeu segue com seu novo projeto expansionista. Montenegro e Moldávia encabeçam uma longa lista de candidatos que prometem trazer à UE maior competitividade na disputa econômica frente à China e aos Estados Unidos.

31 ago 2026 - 05h55
Resumo
Em referendo, a população da Islândia rejeitou retomar as negociações de adesão à União Europeia, temendo regulações rígidas sobre a pesca e a agricultura. O resultado frustra os planos de expansão estratégica de Bruxelas no Ártico em um momento de tensões geopolíticas. Apesar desse revés, o bloco europeu segue focado em sua ampliação para fortalecer sua competitividade global, mantendo conversas ativas com outros nove países candidatos, entre eles Montenegro e Moldávia.

Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas

A população da Islândia rejeitou, neste fim de semana, em referendo, a retomada das negociações de adesão à União Europeia. A decisão fecha uma frente estratégica para Bruxelas, que segue tocando seu projeto de expansão do bloco, atualmente com 27 países membros.

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Com cerca de 400 mil habitantes, o equivalente à população de uma cidade como Santos, a Islândia é um país pequeno, mas com relevância geográfica considerável. A ilha fica próxima da Groenlândia, no Ártico, no centro de um corredor marítimo estratégico historicamente usado pela Rússia e que ganhou ainda mais peso desde a guerra na Ucrânia.

O país é membro da Otan, o que lhe garante proteção, mas o próprio bloco atlântico vive tensões internas. As ameaças de Donald Trump contra a vizinha Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, acenderam um alerta em Reykjavík, a ponto de o presidente americano ter se referido à Islândia por engano, em discurso em Davos, quando o alvo de suas declarações era a Groenlândia. O embaixador dos Estados Unidos na capital islandesa também chegou a dizer, em tom de brincadeira, que o país poderia se tornar o 52º estado americano.

A isso soma-se a eleição de um governo social-democrata e pró-União Europeia em Reykjavík. A ideia inicial era realizar o referendo apenas em 2027, mas o contexto geopolítico antecipou a consulta popular.

A Islândia já havia aberto negociações com a UE após a crise econômica global de 2008, mas o processo foi interrompido anos depois. O país já integra o espaço Schengen e a zona de livre comércio europeia e, ainda assim, uma adesão plena ao bloco teria um impacto político significativo.

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Entre os argumentos dos que rejeitam a entrada está o excesso de regulamentação europeia, temido sobretudo por fazendeiros islandeses, preocupados com o efeito de novas regras sobre um país de PIB per capita elevado.

Também existem preocupações em relação ao acesso dos recursos pesqueiros, que representam a maior parte das exportações do país. A adesão integraria o país à Política Comum das Pescas da UE e as embarcações do bloco teriam acesso igual às águas e aos recursos pesqueiros, além de cotas definidas por normas europeias.

O referendo tratava da retomada das negociações, um processo longo que, se concluído, levaria a uma nova consulta popular, desta vez sobre a adesão em si. Com o "não" deste fim de semana, esse caminho não será percorrido, ao menos por enquanto. O resultado é um revés para Bruxelas, que retomou o plano expansionista, mas o bloco conta com outras frentes de adesão bem mais avançadas.

Quem está na fila para entrar na UE

Atualmente, nove países estão em processo de adesão à União Europeia. As negociações mais adiantadas são com Montenegro, onde a população é amplamente favorável à entrada no bloco. O governo implementou rapidamente as reformas exigidas por Bruxelas e, devido ao pequeno porte do país, a adesão não exigiria grandes mudanças nos fundos e programas de financiamento europeus.

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A Moldávia também avança e mira a adesão até 2028. Já a Ucrânia representa um caso à parte: seu processo de adesão está atravessado pela guerra em curso com a Rússia, o que torna o caminho mais complicado.

Albânia e Macedônia do Norte aparecem como candidatas de médio prazo. Em outra categoria, Bósnia e Herzegovina, Geórgia, Sérvia e Turquia são vistas como candidatas mais distantes, sem perspectiva de adesão no curto prazo devido a divergências políticas em relação às regras do bloco europeu.

De projeto identitário a projeto geopolítico

Houve um tempo em que a União Europeia era um projeto de identidade: o que é ser europeu, quem se identifica com esses valores, com essa cultura. Mas essa discussão ficou totalmente para trás.

Hoje o bloco está focado em competitividade e poder geopolítico, pressionado por uma estagnação econômica interna, por dilemas sociais que vão da previdência aos direitos trabalhistas e à questão migratória e, ao mesmo tempo, espremido pelos dois gigantes globais, Estados Unidos e China.

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Já são 13 anos sem a entrada de um novo membro na UE, o maior intervalo desde o início do processo de expansão do bloco. Por isso, fala-se em Bruxelas em um novo "Big Bang", termo usado para descrever a expansão de 2004, quando dez países ingressaram de uma só vez. Embora não se espere um número tão alto desta vez, a avaliação é de que, para sobreviver ao cenário geopolítico atual, a expansão da União Europeia é inevitável nos próximos anos.

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