Mãe e filha, Neymara Carvalho e Luna Hardman disputam juntas o Mundial de bodyboard em Portugal

A pentacampeã mundial de bodyboard Neymara Carvalho, de 50 anos, está de volta a Portugal para disputar a temporada europeia do Circuito Mundial ao lado da filha, Luna Hardman, de 20. Mãe e filha dividem a elite da modalidade e podem ficar frente a frente nas ondas do Sintra Pro, uma das etapas mais tradicionais do calendário internacional.

30 ago 2026 - 10h23
(atualizado às 10h38)
Resumo
A pentacampeã mundial de bodyboard Neymara Carvalho, de 50 anos, e sua filha Luna Hardman, de 20 anos e em ascensão na elite da modalidade, disputam juntas o Circuito Mundial em Sintra, Portugal. Separadas por três décadas, as brasileiras enfrentam o desafio emocional de competir como adversárias diretas na água, conciliando a relação familiar com as ambições esportivas: Neymara busca o hexacampeonato e Luna almeja superar os títulos da mãe em um local histórico para ambas as carreiras.

Luciana Quaresma, correspondente da RFI em Portugal

Neymara Carvalho, de 50 anos, e a filha Luna Hardman, de 20, em Lisboa antes da disputa do Sintra Pro, etapa do Circuito Mundial de bodyboard.
Neymara Carvalho, de 50 anos, e a filha Luna Hardman, de 20, em Lisboa antes da disputa do Sintra Pro, etapa do Circuito Mundial de bodyboard.
Foto: © Luciana Quaresma / RFI

Uma situação quase única no esporte de alto rendimento: três décadas separam as duas atletas, que agora disputam as mesmas ondas, os mesmos pontos no campeonato, e, eventualmente, uma contra a outra.

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A competição na Praia Grande, em Sintra, de 1 a 6 de setembro, tem ainda um significado particular para as brasileiras. Neymara construiu parte importante de sua trajetória nas ondas portuguesas e considera a etapa quase como competir no "quintal de casa". Luna também guarda uma ligação especial com o local: foi em Sintra, em 2022, aos 16 anos, que conquistou seu primeiro título mundial Pro Junior.

Agora, mãe e filha chegam à mesma competição como possíveis adversárias.

"Competir contra a minha filha é um misto de emoções gigante. O amor de mãe é muito único, muito genuíno. Eu criei a Luna praticamente sozinha durante esses 20 anos, claro, com o apoio da minha família, então somos muito próximas. Dentro de uma bateria, ter que enxergá-la como uma adversária é muito difícil. É um dos momentos mais difíceis da minha carreira", afirma Neymara.

Pentacampeã mundial e dez vezes campeã brasileira, a capixaba conta que precisou trabalhar até com acompanhamento psicológico a separação entre os papéis de mãe e atleta.

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"Eu tive que entender que ela está com 20 anos, criando a carreira dela, traçando a carreira dela, e eu não posso amolecer. O coração de mãe amolece, porque a mãe quer que o filho sobressaia, quer que o filho esteja feliz. Mas eu ainda preciso me priorizar, porque sou atleta e ganho para isso."

A convivência durante as viagens tornou essa divisão parte da rotina. As duas dividem quartos, tarefas e boa parte da preparação, mas aprenderam a estabelecer limites principalmente nos dias de competição.

"A gente conversa sobre essas limitações: onde entra a mãe e onde entra a atleta. A gente brinca muito com isso. Eu falo: 'Aqui eu não sou mãe, aqui eu sou atleta'. Ou então: 'Vem cá, chora comigo, agora eu sou mãe'."

Para Luna, a separação parece mais simples. A brasileira cresceu acompanhando a carreira da mãe e não esconde que derrotá-la faz parte do caminho para atingir seus próprios objetivos.

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"Como atleta, sempre vou querer ganhar da melhor. E, para mim, ela é a melhor de todos os tempos. Então eu tenho que ganhar dela se eu quero ser a melhor um dia. Eu consigo distinguir isso um pouco melhor que ela e a vejo como uma atleta na bateria, não como a minha mãe", explica.

A possibilidade de as duas dividirem uma bateria é resultado de trajetórias que começaram em momentos muito diferentes. Quando Luna nasceu, Neymara já era bicampeã mundial e uma das principais referências do bodyboard feminino. A atleta chegou a competir grávida da filha e voltou às competições poucos meses depois do nascimento.

"Em vários momentos eu tinha a ideia de que segurá-la no pódio, como fiz diversas vezes, seria o meu melhor exemplo de mãe. Eu estava ali vitoriosa, mostrando que, independentemente da maternidade, continuei. Eu competi grávida, voltei a competir quando ela tinha dois meses de vida."

Duas décadas depois, a relação também se inverteu

"Hoje eu aprendo com ela. Não só ensino e continuo dando dicas, mas vejo que ajudei a formar uma mulher forte, uma competidora muito forte, uma adversária para mim. A atleta que ela se tornou é também uma das mais difíceis do Circuito Mundial hoje", diz Neymara.

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Para Luna, durante muito tempo a dimensão esportiva da mãe não era tão evidente. Ter uma pentacampeã mundial dentro de casa fazia parte da rotina.

"Para mim, ela sempre foi minha mãe que era campeã. Era normal ter uma campeã dentro de casa, que se alimentava bem, que treinava. Quando comecei realmente a viajar e vi o quanto as pessoas admiravam ela, comecei a achar estranho. Não era tão normal quanto eu achava ter uma mãe pentacampeã mundial."

Foi acompanhando Neymara pelo circuito que Luna passou a enxergar a mãe também como referência esportiva.

"Comecei a admirá-la não só como mãe, mas realmente como atleta. Comecei a perceber a importância que ela tinha e a estrela que ela tinha dentro desse esporte. Acho que isso me fez me apaixonar ainda mais pelo bodyboard e querer essa vida."

O sobrenome e a trajetória da mãe também trouxeram pressão desde cedo. Luna conta que ainda criança já era questionada sobre a possibilidade de seguir os passos de Neymara.

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"Mesmo quando eu não estava no esporte, os repórteres vinham perguntar se eu ia ser igual a ela. Mas desde pequena ela me preparou para isso. Eu sempre tive psicóloga e fui preparada para esses momentos em que as pessoas colocariam pressão. É inevitável. É o mesmo esporte, é a mesma caminhada que estamos seguindo."

Hoje, Luna já constrói o próprio currículo e não esconde a ambição de superar a mãe.

"Desde sempre a gente brinca que eu tenho que bater os títulos dela. E, para bater, vão ser alguns anos pela frente. Vamos ver se vou continuar até os 50 ou se vai ser um pouco mais rápido."

Longevidade aos 50 anos

Se Luna olha para os próximos anos, Neymara ainda não fala em despedida. Aos 50, a brasileira afirma que não imaginava permanecer no circuito por tanto tempo. Depois de seis anos afastada da disputa integral do Mundial, voltou à competição internacional impulsionada também por um novo patrocínio e chegou ao vice-campeonato mundial no primeiro ano de retorno.

"Eu nunca imaginei isso. Brincava com a Carla Costa, que foi minha parceira durante anos no circuito: 'Quando a gente fizer 40, já vai estar aposentada'. E estou aqui com 50. Um dos melhores patrocínios da minha trajetória veio agora, nos últimos quatro anos."

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Para Neymara, a continuidade da carreira também ajuda a questionar a associação entre idade e queda de rendimento no esporte profissional. Ela cita atletas como Cristiano Ronaldo e Kelly Slater como exemplos de longevidade.

"O limite está na mente das pessoas. Estou aqui para mostrar que o meu limite de aposentadoria ainda não chegou. Estou amando viver isso, amando competir em alto nível."

A atleta mantém uma rotina de preparação física voltada especialmente para prevenção de lesões e proteção das articulações e reconhece que a recuperação aos 50 anos é diferente da de uma adversária de 20.

"Eu não falto ao treinamento. Meu corpo hoje tem uma recuperação diferente de uma menina de 20 anos. Então preciso estar consciente de que não posso deixar de fazer. Não quero competir com as meninas por estética ou porque quero parecer jovem. Quero porque realmente me sinto apta a fazer o que faço, o que amo."

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Sintra, um lugar especial para as duas

É em Sintra que essas duas trajetórias voltam a se encontrar. Neymara participou de praticamente todas as edições da tradicional competição portuguesa ao longo de sua carreira e chegou a disputar a prova grávida de Luna. A brasileira diz que a familiaridade com a Praia Grande e com o público português transforma a etapa em uma das mais especiais da temporada.

"Eu me sinto à vontade. Tenho muitos amigos, tanto portugueses quanto brasileiros, que vão à praia para me ver, para reencontrar. Tenho uma torcida única, minha, e que está sendo transferida muito para a Luna também."

A transferência de torcida já virou motivo de brincadeira entre mãe e filha.

"Eu pergunto: 'Agora você está torcendo para quem?'. Muitos estão falando: 'Só para a Luna'. E eu digo: 'Tudo bem, mas vou surpreender vocês'. É natural. Eu quero que ela ganhe, mas estou aqui lutando pelo meu espaço ainda."

Para Luna, Sintra também representa um marco na carreira. Foi na Praia Grande que conquistou, em 2022, seu primeiro título mundial Pro Junior. A brasileira voltou a competir em Portugal neste ano e venceu uma prova europeia em Carcavelos antes de retornar para a etapa do Mundial. E é justamente em Sintra que Luna espera escrever mais um capítulo da disputa familiar.

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"Ela é a rainha de Sintra. Então, se eu quero ser um dia a rainha, tenho que ganhar da rainha. Aqui não tem lugar melhor para uma disputa entre mãe e filha, porque esse lugar foi especial para ela, é especial para mim."

Neymara, porém, deixa claro que a torcida pela filha não significa abrir mão dos próprios objetivos. Aos 50 anos e com cinco títulos mundiais no currículo, ela ainda busca o sexto.

"Eu quero muito para a minha vida mais um título mundial. Gostaria de conquistar isso e estou em busca disso. Acredito nessa possibilidade e treinei para isso."

Em Sintra, portanto, a relação entre as duas terá limites bem definidos. Fora da água, mãe e filha continuam dividindo viagens, quarto, treinamentos e experiências pelo circuito. Quando a bateria começar, serão duas atletas disputando a mesma onda, uma tentando chegar ao sexto título mundial e a outra tentando construir uma trajetória capaz, um dia, de superar a da mãe.

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E antes de chegar a Sintra, Luna Hardman já deixou a sua marca em Portugal. A brasileira de 20 anos venceu, nesta sexta-feira, a etapa de Aveiro do Circuito Mundial de Bodyboard, na Praia da Costa Nova. Na final, superou a também brasileira Maíra Viana por 7,65 a 6,25 e conquistou seu primeiro título nesta temporada completa na elite, depois de ter terminado em terceiro lugar na etapa das Maldivas. A vitória teve ainda um significado especial: 18 anos antes, em 2008, sua mãe, a pentacampeã mundial Neymara Carvalho, havia vencido exatamente a mesma competição.

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