O primeiro‑ministro Keir Starmer recebeu nesta quinta‑feira, em Downing Street, a família de Henry Nowak, morto a facadas em dezembro, quando voltava de uma festa em Southampton, no sul da Inglaterra. O caso comoveu o país e se tornou combustível para grupos de extrema direita, que acusam a polícia de agir com "preconceito anti‑branco". Starmer, ao falar com jornalistas após o encontro, afirmou que Musk "mais uma vez se intrometeu na vida política britânica" e que suas publicações buscavam "estimular divisão".
O agressor, Vickrum Digwa, de 23 anos, foi condenado na segunda‑feira (1°) à prisão perpétua, com um período mínimo de 21 anos de cumprimento. No momento do crime, Digwa mentiu aos policiais, alegando ter sido vítima de agressão racista e dizendo ter agido em legítima defesa. Os agentes acreditaram na versão e algemaram Nowak, que já estava gravemente ferido e morreu pouco depois. A atuação policial está sob investigação da IOPC, órgão responsável por apurar condutas de agentes, que deve divulgar seu relatório em até três meses.
A família de Nowak pediu que o caso não seja usado para fomentar "mais divisão, ódio ou tensão". O apelo ocorre em meio a uma onda de especulações nas redes sociais, alimentada por vídeos da intervenção policial e por comentários de figuras públicas. A IOPC funciona como uma corregedoria independente, encarregada de avaliar se houve falhas de procedimento, abuso de autoridade ou negligência.
Histórico de polêmicas
Elon Musk, dono da plataforma X, publicou diversas mensagens sobre o caso, atacando a polícia britânica e sugerindo que a corporação teria uma política "racista contra brancos". Em uma das postagens, escreveu:
"Vocês sabiam que a política oficial da polícia os obriga a adotar uma postura racista contra brancos? Isso é totalmente inaceitável e precisa mudar imediatamente".
As declarações foram amplamente compartilhadas por grupos de extrema direita no Reino Unido e em outros países europeus.
Musk tem histórico de apoio a figuras e movimentos desse espectro político, como Tommy Robinson, ativista britânico conhecido por campanhas anti‑imigração e por críticas ao multiculturalismo. No ano passado, o empresário já havia se envolvido em debates sobre gangues de exploração sexual na Inglaterra, compostas majoritariamente por homens de origem paquistanesa, tema frequentemente instrumentalizado por grupos nacionalistas.
A repercussão do caso levou a protestos em Southampton na terça‑feira à noite. O ato começou diante de um posto policial e se deslocou até a área onde Nowak foi morto. Onze policiais ficaram feridos após confrontos com manifestantes que lançaram objetos contra as forças de segurança. Dois homens foram detidos e acusados de crimes distintos: um admitiu participação em distúrbios violentos, enquanto o outro negou ter agredido um policial.
O caso Nowak ocorre em um momento político sensível no Reino Unido, marcado por debates sobre imigração, policiamento e liberdade de expressão. Grupos de extrema direita têm buscado capitalizar episódios de violência envolvendo vítimas brancas e agressores pertencentes a minorias étnicas, argumentando que haveria tratamento desigual por parte das autoridades. A narrativa, rejeitada por especialistas, ganhou força com a circulação da gravação policial e com as declarações de Musk.
Com AFP